Você já deve ter observado a crescente deslegitimação de paradigmas sociais e estruturas historicamente consolidadas nos últimos tempos. Em uma sociedade sob profunda transformação nas formas de viver, trabalhar e sustentar a vida, antigas perguntas emergem para evidenciar que as velhas respostas já não fazem mais sentido.
Chega, então, o momento de nos questionarmos: se continuamos enfrentando os mesmos problemas há anos, não seria a hora de buscar novas soluções?
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Na educação, por exemplo, que é uma de nossas estruturas pilares, vivenciamos um verdadeiro colapso em 360º. Professores lidam com situações crescentes de exaustão e desrespeito, alunos mostram-se desinteressados, e familiares seguem angustiados e isolados do debate público. Todos acompanham os sintomas de um discurso neoliberal que responsabiliza indivíduos — exigindo desempenho, permanência e produtividade constantes de toda a comunidade escolar —, sem, contudo, reorganizar as condições materiais que tornam a própria vida possível.
Essa lógica estrutural, ainda tão insuficiente, continua tratando a aprendizagem como algo restrito à sala de aula, quando, na realidade, ela depende diretamente das condições sociais, econômicas e emocionais dos estudantes. É humanamente inviável exigir interesse pelo aprendizado diante de uma realidade pautada pela sobrevivência.
Para que uma criança consiga estudar, não basta existir uma escola; é preciso existir dignidade. Alimentação, transporte, cuidado, estabilidade, saúde mental, tempo e uma rede de proteção são pilares indispensáveis para sustentar a vida cotidiana.
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Foi a partir de uma análise profunda sobre esse contexto que a Associação Cidade Escola Aprendiz desenvolveu a tecnologia social “Todas as Crianças e Adolescentes na Escola”. Finalista do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social — e atualmente recebendo votos via votação popular —, a iniciativa construiu, ao longo de 13 anos, uma metodologia de busca ativa e articulação territorial para localizar estudantes fora da escola ou em risco de evasão.
Contudo, em mais de uma década, a maior contribuição do projeto, para além do retorno de cerca de 50 mil crianças e adolescentes às salas de aula, talvez seja provar com dados que a exclusão escolar é indissociável das desigualdades raciais, territoriais e sociais que estruturam o Brasil.
Em conversa para este artigo, Raiana Ribeiro, diretora de Programas da Cidade Escola Aprendiz, explica essa mudança de paradigma:
“Desde a década de 1980 até os anos 2020, predominou no debate educacional uma perspectiva individualizante da exclusão escolar, frequentemente tratada sob a ideia de ‘fracasso escolar’. O problema era atribuído à criança ou ao adolescente, vistos como ‘desinteressados’ ou incapazes, e também às famílias pobres, culpabilizadas por não conseguirem acompanhar a rotina. Muitas vezes, por serem famílias historicamente excluídas do acesso à educação e marcadas pela precarização, acabavam responsabilizadas pela própria exclusão. O que a nossa tecnologia social demonstra é justamente o contrário: são os territórios que oferecem condições profundamente desiguais de proteção e garantia de direitos, em especial para famílias negras, pobres, periféricas e pertencentes a comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas. O acesso e a permanência na escola dependem diretamente de redes de proteção social, equipamentos públicos, serviços de Saúde, Assistência Social e mobilidade urbana articuladas.”
Os dados levantados pela tecnologia social são inquestionáveis para comprovar quem são os mais afetados pela exclusão. Segundo Raiana, o acúmulo desses 13 anos demonstra que “a exclusão escolar tem raça, gênero e classe social”
A maior parte das crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de evasão é preta e parda, com incidência ainda maior entre os meninos. Simultaneamente, entre 80% e 90% das famílias acompanhadas são chefiadas por mulheres — mães solo, avós e tias que sustentam praticamente sozinhas o cotidiano da casa, o cuidado e o acompanhamento escolar.
Esse é um dado que extrapola o sistema educacional e alcança outras esferas do debate público, como o mercado de trabalho e a proteção social. Trata-se de uma problemática em cadeia que escancara o trabalho invisível de cuidado realizado majoritariamente por mulheres negras periféricas. A educação não pode continuar sendo debatida quase exclusivamente a partir da escola, uma vez que as condições para o estudo são produzidas dentro das casas e dos territórios.
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Raiana chama atenção para o fato de que “grande parte dessas mulheres está inserida em trabalhos precários, informais e historicamente desvalorizados, muitos relacionados ao cuidado doméstico”. Ela completa lembrando que, frequentemente, essas mulheres permanecem fora do mercado de trabalho remunerado justamente pela necessidade de dedicar longas horas ao cuidado da família.
Nesse sentido, as evidências levantadas pela Cidade Escola Aprendiz provam que não existe educação antirracista sem o enfrentamento das desigualdades estruturais que organizam o cuidado, a renda, a mobilidade e o acesso à proteção social no Brasil. A experiência acumulada revela também como as barreiras mudam de acordo com o CEP: em alguns contextos, a violência armada afasta as crianças da escola; em outros, a ausência de transporte público inviabiliza a frequência; há ainda situações em que adolescentes assumem tarefas domésticas pela completa falta de equipamentos públicos de saúde e assistência para sustentar a família.
A lição que fica, nas palavras finais de Raiana, é clara:
“Não existe Direito à Educação dissociado dos demais direitos sociais. Isso significa que esse direito não pode ser tratado de forma isolada, sob o risco de ocultarmos violações e desigualdades mais amplas que afetam as trajetórias escolares no Brasil. Essa iniciativa vem nos ensinando que o acesso e a permanência dependem diretamente das condições de vida nos territórios e da capacidade das redes de proteção atuarem de forma integrada.”
Para votar na tecnologia social, acesse o link e busque pela iniciativa ”Todas As Crianças E Adolescentes Na Escola: Uma Tecnologia Intersetorial Para Garantir O Direito À Educação”. Isso não apenas possibilitará a continuidade do trabalho, mas visibilizará um debate crucial para uma educação integral e, de fato, funcional.