O crescimento dos casos de feminicídio e a proliferação de discursos de ódio contra as mulheres em grupos virtuais, como os ligados à chamada cultura redpill, têm ampliado a necessidade de debater as relações de gênero, a educação de meninos e o comportamento masculino. É nesse contexto que surge a 4ª edição do projeto Opará Saberes, que neste ano propõe a Educação Antimachista como estratégia de prevenção à violência contra as mulheres.
O curso reúne o jurista Anderson Eduardo Carvalho de Oliveira e o filósofo Renato Noguera, dois dos principais especialistas no tema, em aula pública gratuita, nesta terça-feira (26), na OAB Bahia. As inscrições serão realizadas presencialmente nos locais das atividades, e os participantes terão direito a certificado.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Ao refletir sobre o aumento dos casos de feminicídio, Renato Noguera destaca as transformações sociais vividas pelas mulheres e as reações geradas por essas mudanças.
“As mulheres têm se organizado cada vez mais, entrado na universidade e ocupado espaços no mercado de trabalho. Os homens têm encontrado menos espaços para performar a masculinidade como foram acostumados, com o protagonismo exclusivo. Os privilégios do masculino estão sendo questionados e isso acirra o conflito e a violência contra as mulheres”, afirma Noguera, autor de obras como “ABC do Amor” (2025) e “Porque Amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor” (2020).
Para o filósofo, a educação antimachista é fundamental para prevenir a violência de gênero.
“Temos uma legislação muito avançada para punir os crimes cometidos pelos homens contra as mulheres, o que é fundamental. Mas, além de punir, é preciso atuar na prevenção. É preciso uma educação que ajude os meninos a terem uma relação mais responsável com os afetos e com o cuidado”, defende.
Noguera também analisa como patriarcado, machismo e misoginia estruturam comportamentos violentos:
“A explicação é assim: tem o patriarcado, que é um sistema; o machismo, que é uma tecnologia; e a misoginia, que é uma prática discursiva. Esses elementos fazem com que, na cultura, para os homens se sentirem amados, eles queiram ser fortes e poderosos. Os homens temem as mulheres. Em sociedades que têm alta taxa de violência de gênero, esses homens têm muito medo das mulheres. Eles não conseguem lidar com a capacidade, com a inteligência e com as camadas de habilidades que as mulheres têm. Então, a única forma de contê-las é com a violência, com o controle”, aponta.
Idealizado pela escritora e intelectual ativista Carla Akotirene, doutora em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Mulheres e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA), o projeto conta com parceria do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Ministério Público da Bahia (MPBA) e do Instituto Juristas Negras.
“Neste ano em que completa dez anos, o projeto retorna com o propósito de promover um amplo debate em torno de uma educação antimachista, ampliando ações também para a educação de crianças e adolescentes sob risco de cooptação por discursos de ódio contra as mulheres, além de atuar na formação de operadores do Direito para qualificar as intervenções com homens autores de violência”, afirma Carla Akotirene.
Leia mais: Deputada recebe ameaça de morte após propor leis contra misoginia digital
Foco na educação antimachista e na prevenção ao feminicídio
Para Anderson Eduardo, a proposta atua em duas frentes fundamentais:
“A educação antimachista que o Opará Saberes propõe envolve tanto a prevenção junto a adolescentes e jovens, especialmente aqueles expostos a discursos de ódio nas redes sociais, quanto a qualificação de operadores do sistema de justiça que atuam com a Lei Maria da Penha, com foco na responsabilização educativa de homens autores de violência”, explica o pesquisador, mestre e doutor pelo PPGNEIM/UFBA.
Ele ressalta ainda a urgência da iniciativa diante do cenário atual:
“Vivemos um momento paradoxal. Temos uma das legislações mais avançadas do mundo, mas os índices de feminicídio seguem crescendo. Isso mostra que não basta punir, é preciso intervir nas estruturas que produzem a violência. A pena, por si só, não transforma masculinidades. Punir e educar não são opostos, mas complementares quando bem integrados. Esse momento de crescimento da violência contra a mulher torna essa integração não apenas oportuna, mas urgente”, defende Anderson, bacharel em Direito e especialista em Direito Penal e Criminologia.
A 4ª edição do Opará Saberes foi iniciada com uma conferência de abertura realizada no último dia 20 de maio, com o pesquisador Deivison Mendes Faustino, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de obras como “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro” (2018), “Frantz Fanon e as encruzilhadas: teoria, política e subjetividade” (2022) e “O colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana” (2023).
Leia mais: Falta de dados raciais impede políticas eficazes de combate à violência de gênero
Serviço
4ª edição do “Opará Saberes: Educação Antimachista”
Quando: 26 de maio (terça-feira), às 18h
Onde: Auditório da OAB Bahia | Rua Portão da Piedade, nº 16 – Piedade – Salvador
Entrada gratuita e inscrições no local.