Na sexta-feira (19), Brasil e Haiti se enfrentam pela Copa do Mundo de 2026. O confronto remete à longa relação entre os dois países durante os 13 anos da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah).
A missão foi criada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em 30 de abril de 2004, sob a alegação de estabilizar o país e ajudar na promoção de eleições livres, e foi encerrada em 2017. À época, o Haiti enfrentava instabilidades políticas e sociais, além do aumento da violência.
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O cenário ocorreu após a deposição do então presidente Bertrand Aristide, alvo de golpe de Estado em fevereiro de 2004.
O braço militar da ação, que mobilizou mais de 6 mil militares e 1,6 mil policiais locais, foi assumido pelo Brasil durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O contingente brasileiro contou com 35.700 militares, dos quais apenas 213 eram mulheres.
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As atividades na ilha caribenha foram intensificadas em 2010, após o terremoto de magnitude 7.0 que matou mais de 220 mil pessoas. Milhares de pessoas ficaram feridas, incapacitadas permanentemente e desalojadas na ocasião. O desastre causou grandes impactos na economia e na infraestrutura haitiana.
Legado de violência
A atuação brasileira foi alvo de denúncias de abusos de autoridade, violência, estupros e violações de direitos humanos atribuídas a integrantes das tropas enviadas ao Haiti.
Um ano após o início da missão, a Faculdade de Direito de Harvard e a ONG Justiça Global acusaram os “Capacetes Azuis”, nome dado aos agentes da ONU enviados para regiões de conflito, de agredir manifestantes pró-Bertrand com um tanque e causar a morte de um deles.
Sob o comando do general Augusto Heleno, em julho de 2005, cerca de 300 soldados realizaram uma operação que resultou na morte de 36 pessoas. A ação foi denunciada por moradores locais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados recebeu, em 2008, outra denúncia contra os abusos das tropas brasileiras. O advogado haitiano David Josué divulgou imagens dos soldados realizando ataques à população durante a rotina de fiscalização em áreas pobres de Porto Príncipe.
Em entrevista ao Brasil de Fato, em setembro de 2017, Guerchang Bastia, do partido Encontro dos Socialistas para uma Iniciativa Nacional Nova, descreveu o legado da missão em três tópicos: violência, estupros e cólera.
Embora não existam estimativas oficiais, um estudo da professora de história da Universidade Britânica de Birmingham, Sabine Lee, identificou 265 casos de crianças geradas pelos integrantes das forças de paz da ONU, das quais 21,9% apontaram os soldados brasileiros como genitores.
Outro relatório, da Associated Press, aponta para mais de 2 mil denúncias de abuso sexual e exploração por parte dos militares. Ainda há relatos do uso de comida e água como moeda de troca para relações sexuais.
Durante a ocupação da ONU, a cólera tomou grandes proporções e matou cerca de 9 mil pessoas no país. Pesquisadores, como o epidemiologista Renaud Piarroux, indicam que a mais provável origem da epidemia foram os soldados da missão de paz.
Em dezembro de 2016, o então secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu desculpas pelo sofrimento causado pela doença.
A brutalidade e violência policial, denunciaram os haitianos, eram mais comuns nas regiões periféricas, frequentemente alvo de invasões e operações. Estima-se que, entre 2005 e 2006, ao menos 8 mil pessoas foram mortas em Porto Príncipe, a maioria apoiadores do ex-presidente deposto.
A presença da ONU e do Brasil no Haiti também culminou no Massacre de Cité Soleil, região periférica habitada por 200 mil pessoas. Um estudo das revistas Contraponto, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), e The Nation, revelou que foram usados 22 mil cartuchos de munição. Cerca de 27 pessoas foram mortas, entre elas, 20 mulheres adolescentes.