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Um mês após início do surto, MSF aponta falhas no combate ao ebola na RD Congo

Lacunas em vigilância, testagem e rastreamento comprometem esforços para conter a doença
Um voluntário, vestindo um traje de proteção, desinfeta a porta da casa onde se encontra uma criança que morreu em decorrência do ebola, em Bunia, RD Congo, em 11 de junho de 2026.

Um voluntário, vestindo um traje de proteção, desinfeta a porta da casa onde se encontra uma criança que morreu em decorrência do ebola, em Bunia, RD Congo, em 11 de junho de 2026.

— Benediction Murhabazi/AFP

20 de junho de 2026

Um mês após a declaração do surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC), a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta que, apesar da recente intensificação da resposta, grandes falhas em vigilância, diagnóstico, rastreamento de contatos e engajamento das comunidades continuam a comprometer os esforços para controlar o surto. 

“Um mês depois, o surto da doença do Ebola está avançando mais rápido do que a capacidade de resposta”, afirma Kate White, coordenadora médica de emergência de MSF na RDC. 

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“Ninguém sabe a real dimensão nem exatamente onde a doença está se espalhando no país. O que sabemos é que a maioria dos centros de tratamento na província de Ituri está sobrecarregada; muitos dos nossos pacientes chegam em estágio avançado da doença e a maioria nunca foi identificada ou monitorada como contato antes de buscar atendimento.”

A doença tem se espalhado pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, no leste da RDC, sendo Ituri responsável por cerca de 95% dos casos. A resposta, liderada pelo Ministério da Saúde congolês e apoiada por diversos parceiros internacionais, é implementada nas áreas afetadas. 

De acordo com a MSF, a insegurança dificulta o acesso a determinadas comunidades e, mesmo em áreas mais estáveis, os esforços para detectar casos, testar pacientes, identificar contatos e monitorar a transmissão são insuficientes.

As autoridades de saúde congolesas relataram oficialmente mais de 650 casos confirmados e mais de 130 mortes. No entanto, a MSF alerta que esses números provavelmente representam apenas parte da realidade.

“O teste continua sendo uma das principais fragilidades da resposta, apesar das recentes melhorias na capacidade laboratorial e da chegada de centenas de kits de testagem no leste da RDC, que foram desenvolvidos especificamente para o vírus Bundibugyo”, afirma White.

“Muitas comunidades, especialmente aquelas afetadas pela persistente insegurança, ainda têm acesso limitado a esses kits, enquanto os centros de tratamento continuam enfrentando atrasos significativos no recebimento de resultados laboratoriais. Sem testes mais rápidos e amplamente disponíveis, teremos dificuldade em detectar casos cedo o suficiente para conter o surto.”

Leia mais: RD Congo e Uganda têm mais de 1.100 casos suspeitos de ebola, diz União Africana

Nas áreas onde o surto ocorre, milhões de pessoas já vivem há décadas enfrentando conflitos ativos, deslocamentos repetidos, lacunas crônicas no sistema de saúde e uma resposta humanitária limitada. Essas condições dificultam os esforços de resposta e criam um ambiente propício para a disseminação da doença.

Em Ituri, onde MSF já atua há décadas, há relatos de medo e desconfiança entre as comunidades, algumas delas receosas com a chegada repentina das equipes de resposta ao ebola.

“Implementar atividades e explicar a doença não é suficiente para construir confiança — é necessário ouvir as preocupações das pessoas, e as comunidades devem ajudar a moldar a resposta”, destaca Frederic Lai Manantsoa, coordenador de emergência de MSF na RDC.

Mototaxistas carregando faixas participam de uma caravana motorizada organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para promover a prevenção da doença do vírus ebola em Bunia, na RD Congo, em 10 de junho de 2026. (Créditos: AFP)

Para muitas comunidades, o surto é apenas mais uma dentre diversas emergências de saúde que há anos vêm sendo tratadas de maneira inadequada. Manter o acesso aos serviços de saúde de rotina é tão importante para salvar vidas quanto controlar o surto em si.

Embora o número de casos confirmados em Kivu do Norte e Kivu do Sul seja relativamente baixo, essas regiões enfrentam muitos dos mesmos desafios na vigilância e testagem. Em Kivu do Norte, há apenas um laboratório para analisar amostras de sangue, e o processamento leva vários dias. Como não existe um sistema automatizado para envio dos resultados às unidades de saúde, pode levar quase uma semana para que eles sejam disponibilizados.

Além do atendimento direto aos pacientes, a MSF informou que está enviando equipes para áreas mais remotas e inseguras a fim de fortalecer a capacidade de detecção e resposta onde foram relatados alertas.

Leia mais: OMS pede cessar-fogo em áreas de conflito para conter avanço do ebola na RD Congo

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