Em Franca, interior de São Paulo, cidade onde nasceu Abdias Nascimento (1914–2011), fundador do Teatro Experimental do Negro e uma das maiores referências da luta antirracista no Brasil, o grupo Corpo Negro completa dez anos de pesquisa e atuação artística.
Criado em 2016 por estudantes do curso técnico em Teatro do Senac Franca, o grupo nasceu da necessidade de discutir a presença negra nas artes e construir narrativas que refletissem as experiências da população negra a partir do interior do país.
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A história do grupo começou ainda dentro de uma sala de aula. Em uma turma de aproximadamente 30 estudantes, apenas quatro eram negros. Daquele encontro surgiu uma inquietação que permanece até hoje: como ampliar a representatividade negra nos palcos, nas histórias contadas e nos espaços de criação artística?
Dez anos depois, o Corpo Negro tornou-se uma referência regional em Teatro Negro, desenvolvendo espetáculos, ações formativas e projetos de circulação.
Ao longo dessa trajetória, o coletivo construiu uma pesquisa continuada sobre cultura afro-brasileira, relações raciais e pertencimento, transformando essas reflexões em obras que dialogam com diferentes públicos e gerações.
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Entre seus principais trabalhos estão o espetáculo infantojuvenil “O Mundo na Cabeça”, que aborda o racismo a partir da perspectiva de uma criança negra; “Sóis – Poesias do Meu Corpo”, espetáculo que une poesia, música e performance a partir das vivências de mulheres negras; e “E Káàbo – Travessia de Nós”, sua última montagem.
Nos últimos anos, o grupo realizou apresentações em unidades do Sesc e do Sesi, participou da Virada Cultural Paulista e circulou por cidades dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
A história do Corpo Negro também revela um desafio recorrente da produção cultural negra brasileira: a permanência. De acordo com o grupo, produzir arte negra fora das capitais significa enfrentar dificuldades relacionadas ao acesso a recursos, circulação, formação de público e manutenção de grupos independentes. Permanecer ativo durante uma década, desenvolvendo pesquisa artística continuada no interior do país é, para o coletivo, uma conquista que ultrapassa o campo cultural e se torna também um gesto político.
Para marcar os 10 anos de trajetória, o grupo pretende realizar ao longo de 2026 uma série de ações comemorativas em Franca, incluindo a circulação de espetáculos do repertório e a estreia de um novo trabalho em agosto deste ano.
Um dos principais marcos das comemorações será a realização do projeto “Corpo Negro em Residência”, previsto para começar em setembro no Sesc Franca. Com duração de três meses, a residencia oferecerá um espaço de experimentação, criação e convivência artística, aproximando jovens artistas e pessoas interessadas nas metodologias desenvolvidas pelo grupo ao longo de uma década de pesquisa em teatro negro.
“Vai ser a realização de mais um de nossos sonhos, poder nos conectar com as novas gerações do território onde atuamos. Hoje podemos de certa forma ser as referências que não tivemos no passado” disse Rodrigo Raphael, ator e fundador do grupo.
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As comemorações também são marcadas pelo lançamento do manifesto “O Sonho”, escrito pela atriz e fundadora Josiana Martins.
O texto recupera os desejos que impulsionaram a criação do grupo e reafirma seu compromisso com a representatividade negra e a permanência de artistas negros nos palcos brasileiros.
Confira: