Há lugares que seguem vivos, independentemente do tempo. Nos sons que ecoam na memória, nas histórias transmitidas entre gerações, nos modos de viver que atravessam o tempo sem desaparecer. É desse território de lembranças, encontros e heranças culturais que nasce “Afrobarroco”, novo livro de Mateus Aleluia, uma obra que transforma a experiência do Recôncavo Baiano em reflexão sobre identidade, educação, convivência e formação cultural brasileira.
O lançamento da obra pelo estaco baiano é marcado por edições especiais da palestra musical homônima, em formato desenvolvido por Mateus Aleuia ao longo de 20 anos e que reúne música, narrativa histórica e conversa com o público. A estreia em Salvador ocorreu em 8 de julho e segue em circulação pelo Recôncavo, com lançamentos em Jaguaripe, São Francisco do Conde e Cachoeira.
A tiragem inicial do livro será destinada à distribuição gratuita para escolas, bibliotecas, projetos de arte e educação, centros comunitários e culturais, com venda pontual de alguns exemplares na Livraria Terra Libris (Cine Glauber Rocha – Salvador).
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“Eu apenas era”. A frase do autor talvez seja uma das formas mais simples de aproximar o leitor do universo que atravessa o livro, que nasce da memória, da escuta e da convivência entre matrizes culturais que formam o Brasil. São os sons da madrugada em Cachoeira, os atabaques atravessando o Vale do Paraguaçu, os sinos das igrejas do Recôncavo e as lembranças de uma Bahia vivida antes da pressa urbana.
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Integrante histórico d’Os Tincoãs e um dos nomes mais singulares da música brasileira, Mateus Aleluia construiu, ao longo de décadas, uma reflexão sobre pertencimento.
“Para a gente voltar a ser o que a gente almeja ser, é necessário descolonizarmos culturalmente a nossa mentalidade, e essa descolonização cultural só poderá ser alcançada através da educação, é imperativo que reestruturemos nossa forma de educar”, reflete.
Afrobarroco traz textos, memórias, provocações e fundamentos do projeto desenvolvido pelo artista desde os anos 2000 através de palestras musicais, encontros pedagógicos e experiências de formação cultural.
O livro traz pensamentos sobre educação, oralidade, religiosidade, convivência cultural e identidade brasileira. Não como nostalgia, mas como tentativa de compreender experiências coletivas que ainda permanecem vivas no cotidiano brasileiro.
Organizada pela cineasta e produtora cultural Tenille Bezerra, a obra propõe um olhar sobre o Brasil a partir da convivência entre diferenças, sem idealizações ou discursos de oposição simplificados. Em vez disso, a publicação aponta para uma ideia de construção coletiva baseada na inclusão e na compreensão da diversidade cultural brasileira como potência formadora.
“Tomar posse de tudo o que somos nos ajuda a caminhar de modo integral, ampliando nosso entendimento na direção do que há de vir”, explica Tenille.
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A publicação também dialoga diretamente com educação e formação cidadã. Inspirado pelas leis 10.639/03 e 11.645/08, que determinam o ensino da história da África e dos povos indígenas nas escolas brasileiras, Mateus propõe o Afrobarroco como ferramenta de reflexão pedagógica e reorganização simbólica da maneira como o Brasil compreende sua própria história.
O projeto gráfico, assinado por Tiago Ribeiro, dialoga com padrões visuais e elementos geométricos presentes nas culturas afro-indígenas e europeias, criando uma identidade visual marcada pela mistura de referências populares, religiosas e contemporâneas.