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‘Brasil é majoritariamente negro, mas corpo diplomático ainda é branco’, diz diplomata na Flip

Autor de “Antes do Início” falou sobre identidade, memória e os desafios de ocupar um espaço historicamente branco da diplomacia brasileira
Os escritores e diplomatas Ernesto Mané e João Bayão na Casa República, na Flip 2026, em 24 de julho de 2026.

Os escritores e diplomatas Ernesto Mané e João Bayão na Casa República, na Flip 2026, em 24 de julho de 2026.

— Divulgação/Douglas Shineidr

28 de julho de 2026

Diplomata negro em um corpo diplomático majoritariamente branco, Ernesto Mané levou à Casa República, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, uma reflexão sobre ancestralidade, identidade e representatividade.

Na sexta-feira (24), ao participar da mesa “A diplomacia da palavra no romance contemporâneo”, ao lado dos escritores e diplomatas Alexandre Vidal Porto e João Bayão, com mediação da jornalista Clara Becker, Mané falou sobre seu livro “Antes do Início” e sobre a relação entre sua trajetória pessoal e a história da diáspora africana.

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Durante a conversa, Mané destacou o contraste entre a composição da sociedade brasileira e a realidade do serviço diplomático. Ele defende que, apesar do Brasil ser um país multiétnico, parte da população teve sua história apagada por políticas de Estado.

O diplomata, que ingressou no Itamaraty em 2014 por meio de um programa de ação afirmativa, ressaltou que sua trajetória também passa pela compreensão do significado de ocupar esse espaço.

“O Brasil é um país cuja população é majoritariamente negra, mas o corpo diplomático brasileiro ainda é bastante branco. Existem esses paradoxos, e eu tenho a perfeita noção do que é ser um diplomata brasileiro negro”, disse.

Representante do Brasil em Buenos Aires, capital da Argentina, Ernesto afirmou que sua trajetória pessoal também representa uma dimensão coletiva da história brasileira. Filho de uma família interracial com raízes na Guiné-Bissau, o escritor contou que a busca por sua ancestralidade africana esteve no centro da construção do seu livro de estreia, Antes do Início.

“Essa obra é uma contribuição para compartilhar uma história individual, mas que também faz parte da história coletiva do Brasil e da diáspora africana”, afirmou.

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Busca pela ancestralidade

Após tornar-se doutor em física nuclear pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, e estudar por anos para o concurso Itamaraty, Ernesto decidiu procurar por suas origens na Guiné-Bissau, país de toda família paterna, em 2010.

Durante a viagem, escreveu diversos manuscritos e relatos que formariam seu livro de estreia, “Antes do Início”, em 2025. Mané é também reconhecido pelo Mipad (Most Influential People of African Descent) como um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos.

Ao comentar o processo de escrita, Mané afirmou que a literatura permitiu uma expressão individual que nem sempre encontra espaço na carreira diplomática.

“Uma das primeiras coisas que a gente aprende no Itamaraty é que aquele texto que você produziu não te pertence, ele é da instituição e você vai se diluindo dentro dela. A escrita foi uma possibilidade de dar expressão a minha individualidade e subjetividade.”

A mesa integrou a programação da Casa República na Flip, espaço dedicado a debates sobre democracia, cultura, política e literatura.

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