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A comunidade afroargentina diz não ao negacionismo

Em um potente ato no Arquivo Nacional da Memória, a comunidade afroargentina comemorou seu Dia Nacional, em 8 de novembro, com um apelo à justiça racial e à reparação histórica. Destacando a apresentação da publicação "Afroargentinidad y Derechos Humanos", assim como o primeiro passo da coleção "Memorias de la Comunidad Afroargentina" a cargo da Secretaria de Direitos Humanos da Nação. Além disso, foi ressaltada a importância da defesa da democracia diante da ameaça da ultradireita.
A subsecretaria de Promoção de Direitos Humanos da Argentina, Natalia Barreiro (à esquerda), e o ativista e intelectual afroargentino Federico Pita, assessor do Programa Nacional Afrodescendentes e Direitos Humanos (à direita), participam de evento no Dia Nacional dos Afroargentinos, no Arquivo Nacional da Memória, em Buenos Aires, Argentina, 8 de novembro de 2023

Foto: Nicolás Parodi/Negrx/Pagina12

27 de novembro de 2023

Por: Jeremías Perez Rabasa, publicado originalmente na seção Negrx do jornal argentino Página 12

No marco da décima celebração do Dia Nacional dos Afroargentinos e da Cultura Afro, a Secretaria de Direitos Humanos da Nação realizou seu ato oficial. Este aconteceu no Salão Rodolfo Puiggrós do Arquivo Nacional da Memória, no prédio do Espaço Memória e Direitos Humanos (Ex-ESMA), tendo como anfitriões a Subsecretaria de Promoção de Direitos Humanos da Nação, representada por Natalia Barreiro; da Diretora Nacional de Equidade Racial, Pessoas Migrantes e Refugiadas, na figura de Salomé Grunblatt, e ainda do ativista e intelectual afroargentino Federico Pita, assessor do Programa Nacional Afrodescendentes e Direitos Humanos.

Nesta ocasião, foi apresentada a publicação a cargo do Programa Nacional Afrodescendientes y Derechos Humanos, “Afroargentinidad y Derechos Humanos. Hacia políticas públicas de reparación histórica para la comunidad afroargentina”, disponível em formato digital que apresenta a história e a situação atual da comunidade afroargentina, destacando sua luta pelo reconhecimento de seus direitos e a necessidade de políticas públicas de reparação histórica. Aborda-se o racismo e a discriminação racial na sociedade argentina e propõem-se ações para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.

“Hoje se comemora o Dia Nacional dos Afroargentinos e da Cultura Afro, em homenagem à capitã do Exército do Norte, María Remedios del Valle Rosas, que lutou pela independência da nossa nação sob as ordens do general Manuel Belgrano.”

O mencionado Programa também apresentou o trabalho que vem sendo realizado em colaboração com o Arquivo Nacional da Memória no lançamento da coleção “Memorias de la Comunidad Afroargentina“. Esta coleção é composta por uma série de entrevistas realizadas com membros destacados da comunidade afroargentina em todo o país. Este arquivo de memória oral tem como objetivo fomentar o reconhecimento da transcendental contribuição histórica dessa comunidade na construção e desenvolvimento da nação argentina. O arquivo reúne um registro audiovisual com depoimentos de integrantes da comunidade afroargentina que tem impulsionado diversas ações comunitárias, sociais e políticas em prol da organização e reconhecimento de suas comunidades, até depoimentos em primeira pessoa de afroargentinos detidos e perseguidos durante a última ditadura.

Homem lê a publicação “Afroargentinidade e Direitos Humanos” (Nicolás Parodi/Negrx/Pagina12)

No encerramento do evento, representantes da Federação Nacional de Organizações Afroargentinas (FNOA) leram o documento “A comunidade afroargentina diz não ao negacionismo”. O texto destaca: “A comunidade afroargentina tem passado por um constante processo de invisibilização e negação de sua existência e identidade; de fato, ao longo do processo de consolidação do Estado no final do século XIX e início do século XX, o negacionismo se tornou o pilar da política pública em relação à nossa comunidade, e atualmente estamos lutando para desmantelar as mentiras e aberrações que o racismo e o negacionismo tem instalado. É assim que temos compreendido a profundidade do desafio que representa um Estado que constrói sua cidadania e sua identidade de costas para o seu próprio povo. O negacionismo é uma ameaça e um perigo para nossa pátria.”

Por sua vez, o manifesto destaca também a conjuntura política atual e acrescenta: “(…) ainda há muito a percorrer no caminho em direção às reparações para a comunidade afroargentina. E devemos redobrar nossos esforços, especialmente nestes momentos em que a ultradireita se manifesta negando os crimes do terrorismo de Estado.”

E conclui: “Hoje, nesta data significativa em homenagem à memória de nossos ancestrais, que derramaram seu sangue na construção desta nação, exigimos justiça e reparações para a comunidade afroargentina. Também fazemos um apelo à consciência e ao voto em defesa de uma democracia que ainda tem dívidas pendentes com a comunidade afroargentina, mas que não deve retroceder para um passado de terror. Nunca mais.”

Ao finalizar o encontro, Laura Pérez, presidente da organização afroargentina La Florentina, que faz parte da FNOA, declarou para Negrx: “Este é um momento para se unir, para que a comunidade afroargentina se posicione contra o avanço da ultradireita. Embora seja verdade que muitos avanços nesses dez anos tenham sido mais tímidos por parte do Estado, neste contexto, o que está em jogo é a própria democracia.”

Entre o público participante, destacou-se a presença de funcionários do Arquivo Nacional da Memória, do Ministério da Educação da Nação, da Defensoria Pública, do Ministério do Trabalho, entre outras áreas do Estado que convergem na Mesa Interministerial de Políticas Públicas para Afrodescendentes. Também é digno de nota, entre as organizações afrodescendentes presentes no evento, o apoio e a presença das Madres en Lucha, uma agenda social e política que compartilha com a comunidade afroargentina o embate do racismo institucional.

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