A Justiça sul-africana reabriu nesta segunda-feira (2) um inquérito sobre o assassinato, em 1985, de quatro ativistas anti-apartheid por um esquadrão da polícia do regime segregacionista. Conhecidos como “Cradock Four“, os professores Fort Calata, Matthew Goniwe, Sicelo Mhlauli e o ferroviário Sparrow Mkonto foram sequestrados e mortos enquanto voltavam de uma reunião política na cidade de Cradock, no sul do país.
O caso permanece sem responsabilização criminal e familiares acusam o Estado de ter bloqueado tentativas anteriores de levar os culpados a julgamento. A nova audiência ocorre na cidade de Guquebera, na província do Cabo Oriental.
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Acusações contra o governo pós-apartheid
O advogado Howard Varney, representante das famílias, afirmou à Justiça que a morte dos ativistas resultou de uma decisão “calculada e premeditada” tomada nos mais altos níveis do aparato de segurança do regime do apartheid. Varney também criticou a inação das autoridades democráticas após a queda do regime racista.
Segundo o advogado, a falta de ação pode ter resultado de uma “combinação tóxica de inércia, indiferença, incapacidade ou incompetência”. Ele também apontou a possibilidade de interferência política para impedir que os processos avançassem.
A Comissão de Verdade e Reconciliação, criada na década de 1990 para investigar crimes políticos do apartheid, negou anistia a seis suspeitos pelo assassinato dos Cradock Four. Ainda assim, nenhum processo criminal foi iniciado nas décadas seguintes.
Última chance de responsabilização
Este é o terceiro inquérito sobre o caso, que se tornou um dos episódios mais emblemáticos da repressão a opositores do apartheid. A reabertura do processo é vista como a última oportunidade para as famílias obterem justiça.
Em abril, diante de reiteradas denúncias de atrasos e omissões em investigações de crimes do período do apartheid, o presidente Cyril Ramaphosa instaurou uma nova comissão judicial. Já em janeiro, 25 famílias de vítimas e sobreviventes, incluindo parentes dos Cradock Four, anunciaram uma ação judicial contra o governo por “grave falha” na condução de investigações e na responsabilização de autores dos crimes.
“Depois de 40 anos, as famílias ainda esperam por justiça e encerramento. Este inquérito é provavelmente a última chance que terão de alcançar um mínimo de reparação”, afirmou Varney. “Elas merecem nada menos que um pleno e abrangente acerto de contas com o passado.”