A cidade de Trípoli, capital da Líbia, lançou uma consulta pública para discutir a possível renomeação de duas galerias históricas do período colonial italiano, reabrindo o debate sobre o legado arquitetônico e a construção da identidade urbana local.
O levantamento, direcionado a cidadãos e residentes, pede sugestões de novos nomes “em linha com a dimensão histórica e cultural de Trípoli”.
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As galerias De Bono e Mariotti, localizadas no centro da cidade, são os alvos da iniciativa. A Galleria De Bono foi construída em 1931 durante a administração italiana e representa um dos exemplos mais significativos de espaço comercial coberto na Tripoli colonial. A estrutura apresenta piso de mármore, elementos ornamentais e entradas marcadas por colunatas.
O edifício carrega o nome de Emilio De Bono, figura ligada à era colonial italiana e às operações de repressão na Líbia, fator que alimenta o debate sobre a manutenção ou modificação dessas referências.
A Galleria Mariotti, erguida na década de 1950, integra uma fase posterior do desenvolvimento da cidade, com traçado mais linear e uma arcada central ladeada por lojas.
Nos últimos anos, a valorização do patrimônio urbano de Trípoli, em grande parte ligado à presença italiana, retornou ao centro da agenda pública por meio de iniciativas de cooperação entre Itália e Líbia.
O caso das duas galerias adquire valor simbólico: não se trata apenas de uma questão de toponímia, mas de um passo no processo mais amplo de redefinição da identidade urbana da capital, combinando memória, patrimônio e transformações contemporâneas.
Memória, identidade e reinterpretação histórica
O debate sobre as galerias ocorre em um cenário de retomada de iniciativas voltadas à valorização do patrimônio urbano de Trípoli. Projetos de cooperação entre Líbia e Itália têm incentivado ações de restauração e requalificação de edifícios históricos.
Para Francesca Prina-Ricotti, presidente da Associação de Italianos Repatriados da Líbia (AIRL), o tema envolve a relação entre memória e identidade. Ela afirma que a sociedade líbia tem legitimidade para revisar referências simbólicas, mas defende que esse processo inclua compreensão histórica.
Segundo Prina-Ricotti, a preservação da memória não implica validação do colonialismo, mas reconhecimento da complexidade do passado. Como alternativa, ela sugere a instalação de painéis informativos com registros históricos, imagens e textos explicativos sobre a origem dos espaços.