Pelo menos 75 pessoas morreram nesta sexta-feira (19) após um ataque de drones das Forças de Apoio Rápido (RSF), grupo paramilitar sudanês, atingir uma mesquita no bairro Al-Daraja, em El-Fasher, capital de Darfur do Norte, no Sudão. A informação foi confirmada por equipes de resgate ligadas ao campo de deslocados de Abu Shouk, cujos moradores haviam buscado refúgio na região para escapar do avanço paramilitar.
Segundo relatos, os corpos foram retirados dos escombros do local de culto. Com o cerco à cidade, faltam até mesmo mortalhas, o que levou moradores a improvisar com sacos plásticos.
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El-Fasher é a última grande cidade de Darfur ainda sob controle do Exército sudanês e está sitiada pelas RSF desde maio de 2024. O ataque ocorreu em meio a uma ofensiva paramilitar que também resultou na tomada do campo de Abu Shouk, que chegou a abrigar quase 200 mil deslocados. Estima-se que 90% da população tenha fugido.
Imagens de satélite analisadas pela Universidade de Yale mostraram o avanço das RSF sobre várias frentes em El-Fasher, incluindo a captura da antiga base da missão conjunta ONU-União Africana (UNAMID), que havia se tornado quartel da aliança conhecida como Forças Conjuntas, formada por grupos armados locais que lutam ao lado do Exército.
Um porta-voz do campo de Abu Shouk denunciou assassinatos em massa de civis e a instalação de lançadores de foguetes dentro da área ocupada pelas forças paramilitares.
Escalada de violência étnica
O Escritório de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou nesta semana para a intensificação da violência com base étnica em Darfur. De acordo com o relatório apresentado em Genebra, o conflito, iniciado em abril de 2023, vem assumindo caráter cada vez mais divisivo, com ataques seletivos contra comunidades específicas.
A representante da ONU para o Sudão, Li Fung, destacou que a situação em El-Fasher é “horrível” e não há rotas seguras de saída. Civis enfrentam a escolha entre permanecer na cidade sob risco de bombardeios, fome e abusos ou tentar fugir e sofrer execuções sumárias — morte de um indivíduo sem um julgamento justo e legal —, violência sexual e sequestros.
O relatório documentou mais de 3.300 mortes de civis apenas no primeiro semestre de 2025, sendo cerca de mil delas em execuções sumárias fora dos combates. Os números reais, porém, podem ser ainda maiores.
A guerra já provocou dezenas de milhares de mortes e o deslocamento forçado de 12 milhões de pessoas, criando, segundo a ONU, a pior crise humanitária do mundo. Além da fome em várias regiões, o Sudão enfrenta o maior surto de cólera em anos, com mais de 2.500 mortes registradas.
O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, pediu ação imediata da comunidade internacional para proteger os civis e garantir a entrega de ajuda humanitária sem restrições. “Muitas vidas serão perdidas sem medidas urgentes”, declarou.