O presidente francês Emmanuel Macron anunciou, nesta quinta-feira (30), que o aeroporto de Goma, na República Democrática do Congo (RDC), voltará a operar voos humanitários nas próximas semanas. O local estava fechado desde que a cidade foi tomada pelo grupo armado M23, apoiado, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), pelo governo de Ruanda.
O anúncio foi feito durante conferência internacional em Paris, organizada para apoiar a paz e o desenvolvimento da região dos Grandes Lagos, que abrange o leste da RDC e países vizinhos. O encontro mobilizou mais de 1,5 bilhão de euros (aproximadamente R$ 9,3 bilhões) em compromissos de ajuda internacional.
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Macron afirmou que a França e seus parceiros “não podem permanecer espectadores diante da tragédia que se desenrola no leste da RDC“. Segundo ele, os recursos destinam-se ao envio de medicamentos, alimentos e à criação de corredores seguros para o transporte de ajuda humanitária.
Desafios logísticos e divergências diplomáticas
Macron também mencionou o estabelecimento de corredores seguros para a entrega de ajuda humanitária. “Este acesso é essencial e será realizado com respeito à soberania congolesa, para que os primeiros voos humanitários possam recomeçar sem demora”, acrescentou.
O anúncio francês recebeu resistências. O ministro das Relações Exteriores de Ruanda, Olivier Nduhungirehe, disse que “Paris não pode reabrir um aeroporto, já que os principais atores estão ausentes”, referindo-se ao M23, que não foi convidado para o evento. Ele defendeu que a questão seja tratada nas negociações em andamento entre o grupo e o governo congolês, mediadas pelo Catar.
Organizações humanitárias também expressaram preocupação. Kevin Goldberg, diretor da ONG Solidarités International, afirmou que a reabertura do aeroporto é positiva, mas não resolve os obstáculos ao acesso. “O transporte terrestre é igualmente crucial para que a ajuda chegue às regiões mais afetadas”, disse.
Durante a conferência, o presidente do Togo, Faure Gnassingbé, mediador da União Africana para a região dos Grandes Lagos, defendeu maior transparência na distribuição da ajuda internacional. Ele afirmou que “a assistência deve aliviar o sofrimento sem gerar dependência” e propôs ampliar o controle africano sobre a aplicação dos recursos.
Crise na RDC e desafios humanitários
A ONU estima que mais de 21 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na RDC — cerca de um quinto da população do país. O conflito entre o governo congolês e diversos grupos armados, que disputam o controle de áreas ricas em minerais, já dura três décadas e causou milhões de mortes.
Nos últimos quatro anos, a violência se intensificou com a retomada das ofensivas do M23. A tomada de Goma, em janeiro, e de Bukavu, em fevereiro, ampliou a crise e isolou comunidades inteiras. Desde o início de 2025, mais de 1,6 milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, elevando o número total de deslocados internos a 5,2 milhões.
Desde o início do ano, a ONU tenta captar US$ 2,5 bilhões (aproximadamente R$ 13,4 bilhões) em ajuda humanitária para a RDC, mas apenas 16% da meta foi alcançada. Embora o novo pacote anunciado em Paris represente um impulso para as operações no país, o acesso às zonas de conflito seguem como o principal desafio logístico e político da região.