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Militares tomam o poder na Guiné-Bissau e nomeiam general como presidente interino

União Africana exige libertação imediata do presidente deposto Umaro Sissoco Embaló e condena a tomada do poder, que interrompeu a divulgação dos resultados eleitorais
O general do Exército da Guiné-Bissau, Horta N'Tam (ao centro), posa com outros líderes militares após tomar posse como líder de transição e comandante do Alto Comando em Bissau, em 27 de novembro de 2025.

O general do Exército da Guiné-Bissau, Horta N'Tam (ao centro), posa com outros líderes militares após tomar posse como líder de transição e comandante do Alto Comando em Bissau, em 27 de novembro de 2025.

— Patrick Meinhardt/AFP

27 de novembro de 2025

Na manhã desta quinta-feira (27), militares da Guiné-Bissau nomearam o general Horta N’Tam como presidente interino do país e chefe da junta golpista por um período inicial de um ano. Ele era, até então, chefe do Estado-Maior do Exército de terra. A ação ocorreu um dia após o golpe que deteve o presidente em fim de mandato e interrompeu o processo eleitoral.

Militares anunciaram ter tomado “controle total” do país e detido outras figuras políticas, entre elas o líder opositor Domingos Simões Pereira, barrado da disputa presidencial pelo Supremo Tribunal.

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Segundo uma fonte militar, Embaló está detido no quartel-general e “bem tratado”. Além dele, o chefe do Estado-Maior, o ministro do Interior e outras autoridades também foram presos. O golpe ocorreu às vésperas da divulgação dos resultados provisórios das eleições presidenciais e legislativas do último domingo, disputadas voto a voto entre Embaló e o opositor Fernando Dias de Costa.

Horta N’Tam assume presidência interina por um ano

“Acabo de ser investido para liderar o Alto Comando”, declarou Horta N’Tam durante a cerimônia militar que o empossou nas instalações das Forças Armadas. Em seu primeiro discurso, afirmou que Guiné-Bissau vive “momento difícil da sua história” e defendeu “medidas urgentes”, cuja implementação, segundo ele, demanda participação de todos os setores.

Os militares justificaram o golpe afirmando que serviços de inteligência detectaram um “plano destinado a desestabilizar o país”, supostamente envolvendo “barões nacionais da droga” e a entrada de armas para alterar a ordem constitucional. As afirmações não foram acompanhadas de evidências públicas.

Nas ruas da capital, Bissau, postos de controle surgiram em pontos estratégicos, com revistas sistemáticas de veículos e forte vigilância em torno do palácio presidencial. A circulação diminuiu drasticamente, e lojas permaneceram fechadas após momentos de pânico na véspera, quando disparos foram ouvidos no início da ação militar.

União Africana exige libertação imediata de Embaló

A União Africana (UA) condenou o golpe e pediu “libertação imediata e incondicional” de Embaló e demais detidos. Em comunicado divulgado pelo perfil da organização continental na plataforma X (ex-Twitter), o presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, reforçou a necessidade de respeito ao processo eleitoral em andamento e apelou pela contenção das partes envolvidas.

A UA classificou a situação como violação grave da ordem constitucional em país historicamente marcado por instabilidade. Desde a independência de Portugal, em 1974, Guiné-Bissau viveu quatro golpes bem-sucedidos e diversas tentativas frustradas, cenário agravado pela atuação de redes internacionais de tráfico de drogas que utilizam o país como corredor estratégico entre América do Sul e Europa.

Com 2,2 milhões de habitantes, Guiné-Bissau figura entre os países mais pobres do mundo e enfrenta sucessivas crises institucionais. A instabilidade alimenta a presença de organizações criminosas transnacionais e compromete iniciativas de fortalecimento democrático.

O golpe se soma ao ciclo de rupturas na África Ocidental desde 2020, com Mali, Burkina Faso, Níger e Guiné vivendo intervenções militares. A repetição de golpes na região expõe fragilidades estruturais, tensões entre Forças Armadas e governos civis e crescente disputa por poder em contextos de fragilidade econômica.

Comunidade internacional em alerta

Organismos regionais e parceiros diplomáticos monitoram os desdobramentos e avaliam possíveis medidas de pressão. Países da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) ainda não anunciaram ações concretas, mas historicamente mantêm postura de intolerância a rupturas constitucionais.

Enquanto isso, famílias e aliados políticos dos detidos aguardam informações mais precisas sobre condições de custódia e eventuais acusações formais. A interrupção do processo eleitoral, que caminhava para conclusão após disputa acirrada, coloca em suspensão o futuro político do país e amplia a incerteza entre a população.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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