A empresa francesa de energia TotalEnergies retomou nesta quinta-feira (29) a construção de um megaprojeto de gás natural liquefeito (GNL) no norte de Moçambique. As obras estavam paralisadas desde 2021, após um ataque terrorista na região de Cabo Delgado que matou centenas de pessoas. O anúncio do relançamento foi feito pelo CEO da empresa, Patrick Pouyanne, em uma cerimônia com a presença do presidente moçambicano, Daniel Chapo.
Chapo classificou o dia como “de celebração para Moçambique, para a África e para o mundo”. Ele afirmou que cerca de 17.000 trabalhadores serão contratados na fase de construção e que o projeto pode gerar receitas de até US$ 35 bilhões (R$181,4 bilhões) para o Estado moçambicano ao longo de seu ciclo de vida, a partir de impostos e lucros.
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O projeto Mozambique LNG, com custo estimado em US$ 20 bilhões (R$ 103,6 bilhões), é considerado o maior investimento privado em infraestrutura energética da África. A expectativa é que ele gere milhares de empregos e coloque Moçambique entre os maiores exportadores mundiais de GNL. A produção está prevista para começar em 2029.
“Estou muito feliz em anunciar o reinício total do projeto Mozambique LNG”, declarou Pouyanne. “Este projeto fará da região uma nova fonte de segurança energética global“. O executivo afirmou que já há mais de 4.000 trabalhadores no local, sendo 80% deles cidadãos moçambicanos. A TotalEnergies detém 26,5% do consórcio responsável pela iniciativa.
A construção foi suspensa em 2021, quando um cerco e ataque jihadista à cidade de Palma, próxima ao local do projeto, resultou na morte de aproximadamente 800 pessoas. A TotalEnergies declarou “força maior” na época e só a revogou em outubro de 2025.
A empresa francesa agora busca uma compensação de US$ 4,5 bilhões (R$ 23,3 bilhões) por custos adicionais relacionados ao atraso, pedido que o governo moçambicano afirma estar analisando. A companhia também pressiona por uma extensão de 10 anos na sua concessão, mais que o dobro do período da paralisação.
Impacto econômico e controvérsias
Estimativas do FMI de 2024 preveem que o crescimento econômico do país pode acelerar para 10% quando a produção de GNL começar.
O projeto, no entanto, enfrenta críticas de grupos ambientalistas, que o chamam de uma “bomba climática” por seu potencial de emitir cerca de 18 milhões de toneladas de CO2 por ano e, ao longo de décadas, liberar entre 3,3 e 4,5 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa,um volume maior que as emissões anuais de toda a União Europeia.
Essas organizações alertam que iniciativas como esta, que contradizem as recomendações científicas para não explorar novos campos de gás, ameaçam diretamente a meta global de limitar o aquecimento a 1,5°C.
Paralelamente, questionam seus benefícios para a população local, apontando que o modelo econômico concentra os lucros, desvia receitas por meio de paraísos fiscais e oferece poucos empregos permanentes, enquanto as comunidades perdem seus meios de subsistência e não têm garantia de acesso à energia produzida.
A TotalEnergies também responde a dois processos judiciais na França. A primeira é por cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimento forçado, denunciado pela ONG alemã ECCHR (Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos). O episódio é conhecido como “massacre dos contentores”, ocorrido entre julho e setembro de 2021 na própria instalação da empresa em Afungi.
Segundo a queixa, membros da Força-Tarefa Conjunta (criada por acordo com a TotalEnergies e apoiada logisticamente e financeiramente pela empresa) detiveram, torturaram e executar dezenas de civis que fugiam dos ataques, em contentores metálicos. Documentos internos mostram que a petrolífera tinha conhecimento de violações sistemáticas dos direitos humanos pelas forças que apoiava desde maio de 2020, mas manteve seu suporte.
O outro processo, de 2023, é uma investigação por homicídio culposo e falha na assistência a pessoas em perigo, movida por sobreviventes e familiares das vítimas do ataque de Palma em 2021, que acusam a empresa de não proteger nem evacuar seus subcontratados.
País focado na estratégia de crescimento
Moçambique está localizado no sudeste da África, com litoral no oceano Índico, e faz fronteira com Tanzânia, Malawi, Zâmbia, Zimbábue, África do Sul e Essuatíni. O país tem cerca de 33 milhões de habitantes e conquistou a independência de Portugal em 1975, após mais de quatro séculos de colonização.
A economia é classificada como de baixa renda e tem na agricultura de subsistência a principal fonte de ocupação da população. Nas últimas décadas, a exploração de recursos naturais como gás natural, carvão e hidrelétricas passou a ocupar papel central na estratégia de crescimento.
O país abriga uma população majoritariamente africana e tem diversidade religiosa, com presença do cristianismo e do islamismo, especialmente no norte, região diretamente impactada pelos projetos de gás e pela insurgência armada.