Uma articulação internacional da sociedade civil da República Democrática do Congo se mobiliza desde 2013 para que se reconheça o Genocost, ou Genocusto em uma tradução em português. O termo se refere aos custos humanos e financeiros dos crimes sofridos pelo povo congolês desde 02 de agosto de 1998, quando iniciou a Segunda Guerra do Congo.
O conflito se estende até hoje e enfrenta uma nova fase crítica desde o início do ano. A estimativa do movimento Genocusto é de que pelo menos 10 milhões de congoleses morreram nesses quase 30 anos.
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“A ONU contou mais de 6 milhões de mortos entre 1998 a 2003, e depois parou de contar oficialmente. Então estimamos esse número, mas pode ser muito maior”, explica o refugiado e ativista Prosper Dinganga, que vive no Brasil desde 2013.
Como surge o Genocost?
Dinganga conta que o movimento começa com jovens ativistas de um coletivo em Londres chamado Plataforma de Ação da Juventude Congolesa (CAYP).
Neste ano, a CAYP e a Liga Internacional para a Defesa dos Direitos das Mulheres Congolesas (LIDDFC) publicaram um memorando para o reconhecimento oficial do genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra perpetrados contra o povo congolês.
O documento, assinado por mais de 60 organizações, foi enviado às autoridades congolesas. Ele solicita reconhecimento legal do genocídio congolês; justiça, reparações e fim da impunidade; reforma jurídica; e apoio da comunidade internacional.
Dinganga explica que o ato de denúncia do Genocost é importante porque o conflito na RD Congo está totalmente vinculado à vida cotidiana da maioria das pessoas.
“Se você tem um equipamento electrônico, um celular, um carro elétrico, saibam que esses carros, esses equipamentos eletrônicos são feitos com alguns componentes. E os minérios que são a base desses componentes, como coltran e cobalto, são extraídos lá nas minas congolesas. E isso está matando e promovendo o maior conflito do mundo hoje”, explica o ativista.
Tamanho da tragédia atual da RDC
A RD Congo está em guerra na região leste do país que vem escalando desde março de 2022 e alcançou grandes números de mortes e deslocados internos neste ano.
O Alto Comissiariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) estima que mais de 5 milhões de congoleses estejam na condição de deslocados internos. Ou seja, essas pessoas precisaram sair de seu local de origem por motivos de guerra ou mudanças climáticas e se mudaram para outras cidades da República Democrática do Congo.
Segundo o último relatório da agência, mais de 119.000 pessoas fugiram do leste da RDC desde janeiro de 2025, principalmente para Uganda (68,2 mil pessoas) e Burundi (41,7 mil pessoas).
Em Uganda, os congoleses representaram mais da metade do total de indivíduos que buscaram segurança no país. O pico na chegada de refugiados ocorreu em meados de abril, quando o país recebia cerca de 8.000 pessoas por semana.
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Apesar da recente redução, o volume de pessoas que atravessaram a fronteira entre a RDC e Uganda de 1° de janeiro a 6 de julho foi 350% superior ao registrado no mesmo período em 2024.
Cerca de um terço dos chegados a Uganda são crianças menores de 12 anos, e 40% têm menos de 18 anos. A maioria vem de Kivu do Norte, especialmente das regiões de Goma, Masisi e Rutshuru.
Os principais motivos para o deslocamento são recrutamento forçado, violência sexual, sequestros e a proliferação de armas leves.
No Burundi, o segundo principal país de destino, estima-se que mais de 70.000 pessoas chegaram da RDC desde 1° de janeiro. Desse total, pelo menos 41,7 mil permanecem no país.
Segundo o ACNUR, a maioria desses novos chegados são das áreas de Kamanyola e Luvungi, em Kivu do Sul. Muitos relataram incidentes de violência sexual, agressão física, extorsão e detenção durante a fuga.
Nesse cenário, a população do leste da RDC sofre também as mortes e a fome.
Atos e manifestações
É nesse contexto que, no último sábado (2), a comunidade congolesa em São Paulo promoveu um ato em homenagem às vítimas do genocídio na RDC.
O encontro sobre Genocost aconteceu durante a tarde na Casa Marx, um café-livraria na Praça Américo Jacomino, 49. O espaço fica ao lado do metrô Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista.
A iniciativa foi do movimento A voz do Congo, grupo formado por imigrantes congoleses aqui no Brasil. Entre 2010 e 2024, 2.569 pessoas da República Democrática do Congo pediram refúgio no Brasil, segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), que controla as solicitações e concessões de refúgio. A maioria delas está em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o ato teve um momento de debate com Dinganga, articulador de A Voz do Congo; Pedro Borges, editor-chefe da Alma Preta que fez uma cobertura jornalística inloco na RD Congo entre maio e julho deste ano; e Marcello Pablito, organizador do livro “A Revolução e o Negro”.
No mesmo sábado, aconteceram atos denunciando o Genocost em outras cidades no mundo, como Londres, Bruxelas, Dublin, Lyon, Paris, Washington e Nairobi. A manifestação também ocorreu em 19 cidades na própria República Democrática do Congo.