PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

ONG acusa Banco Central da França de permitir transferências durante genocídio em Ruanda

Coletivo de vítimas afirma que a instituição não bloqueou contas e autorizou operações financeiras em meio ao massacre de 1994; Banco Central da França nega ter registros
Esta fotografia mostra a fachada do Banque de France, o banco central nacional francês, em Paris, em 30 de julho de 2025.

Esta fotografia mostra a fachada do Banque de France, o banco central nacional francês, em Paris, em 30 de julho de 2025.

— Martin Lelievre/AFP

12 de dezembro de 2025

O Coletivo das Partes Civis por Ruanda (CPCR), organização que representa vítimas do genocídio de 1994, entrou com uma ação judicial acusando o Banco Central da França de ter autorizado transferências bancárias que, segundo a entidade, contribuíram para sustentar o regime responsável pelo massacre de cerca de 800 mil pessoas. 

A denúncia, protocolada na semana passada, sustenta que a instituição não congelou contas do Banco Nacional de Ruanda e permitiu a saída de recursos em plena execução das atrocidades.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

A acusação se centra em sete transferências realizadas entre 5 de maio e 17 de julho de 1994, período em que a violência atingiu seu ápice. O montante teria alcançado 3,17 milhões de francos (valor equivalente a mais de R$ 3 milhões nos dias atuais) e teria sido direcionado a prestadores de serviços que, segundo o CPCR, mantinham relações com o governo ruandês da época. 

Entre os destinatários estaria a empresa francesa Alcatel, suspeita de fornecer equipamentos de comunicação ao regime.

O cofundador do CPCR, Alain Gauthier, afirmou que os pagamentos ocorreram apesar do embargo de armas imposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 17 de maio de 1994 e destacou que a instituição francesa “deveria saber” do teor e dos possíveis usos desses recursos.

“Estes eram valores relativamente grandes”, afirmou Gauthier. Um dos destinatários teria sido a empresa francesa Alcatel, suspeita de ter fornecido telefones satélite às autoridades ruandesas da época para manter comunicações internacionais.

O Banco da França respondeu que ainda não teve tempo para uma busca completa em seus arquivos, mas que, até o momento, não encontrou “nenhum vestígio das supostas transferências”. A instituição alegou que, sob as regras bancárias, a maior parte da papelada era destruída após dez anos.

Processos ampliam questionamento sobre papel de instituições francesas

O CPCR, junto com outras duas organizações (Sherpa e Ibuka France), também acusa o grupo bancário francês BNP Paribas de ajudar a financiar armas para milícias Hutus. Elas alegam que o BNP autorizou a transferência de US$ 1,3 milhão (R$ 7 milhões) para o regime em junho de 1994, após um embargo de armas da ONU. A Sherpa informou que uma investigação sobre o caso está em curso desde 2017.

O genocídio em Ruanda começou em abril de 1994, após a morte do presidente Juvénal Habyarimana, da maioria Hutu, cujo avião foi abatido sobre Kigali. De 7 de abril a 4 de julho, cerca de 800 mil pessoas foram mortas, a maioria da minoria Tutsi, junto com alguns Hutus moderados.

As relações entre França e Ruanda melhoraram desde que um relatório de historiadores, encomendado pelo presidente Emmanuel Macron e divulgado em 2021, reconheceu as “esmagadoras” responsabilidades da França por não deter os massacres e por ter apoiado um regime genocida. 

Ruanda, sob o presidente Paul Kagame, já acusou Paris de não estar disposta a extraditar suspeitos do genocídio, mas a França já realizou vários julgamentos de ruandeses em seu território desde 2014.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano