No dia 14 de maio, por volta das 10h da manhã, cheguei ao aeroporto internacional de Guarulhos. Depois de passar pelo raio-x e me dirigir ao portão de embarque, decidi sacar alguns dólares para qualquer eventualidade na chegada ao destino final. Quando pedi o valor para a atendente, fui perguntado sobre o destino final.
— Kinshasa.
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— Onde é isso? – respondeu a funcionária com cara de espanto e surpresa.
— República Democrática do Congo.
A atendente me voltou com uma cara de “então tá bem”. Naquele momento, a Alma Preta, agência de mídia negra, começava uma viagem para um lugar pouco visitado por brasileiros, turistas ou mesmo jornalistas de todo o mundo.
A missão era a de reportar sobre a vida e os desafios de um país que vive sob guerras há praticamente três décadas.
Para isso, tive de percorrer o país, o segundo maior do continente africano, no intervalo de 60 dias. Passei por sete cidades durante esse período, localizadas tanto na região oeste, próximas à capital, quanto na região leste, próximas ao conflito.
A maior parte do tempo fiquei em Kinshasa, na capital do país, onde pude sentir o clima de um país em guerra, com banners e outdoors com mensagens de apoio ao exército congolês. O ambiente é também de rivalidade com Ruanda, o vizinho que presta apoio a grupos armados na parte leste, em particular o M23, responsável pelas ocupações das cidades de Goma e Bukavu.
Em Kinshasa, onde está a burocracia do Estado congolês, fiquei mais tempo do que gostaria. Precisava de um documento que me autorizasse a trabalhar como jornalista na parte leste do país, para onde viajei, com o objetivo de acompanhar mais de perto os impactos da guerra.
Por duas semanas fiquei em Kalemie, capital da província da Tanganyika, à beira do lago Tanganyika. A cidade vive um clima litorâneo, com bares e celebrações nas areias do lago, com um aparente dia a dia agradável.

Mas uma conversa de canto ou uma pergunta para um morador da cidade dão um panorama mais realista sobre os fatos em Kalemie.
A cidade vive com um conflito étnico na sua parte rural, uma disputa entre Bantus e Pigmeus. Os moradores temiam a chegada do M23, em especial depois do rápido avanço sobre Bukavu e as proximidades de Uvira.
Nos arredores de Kalemie, um campo de refugiados com moradores de Goma e Bukavu, cidades ocupadas pelos rebeldes, e de Uvira, cidade que ainda vive as tensões de um possível conflito.
A cidade é também marcada pelas mudanças climáticas e as inundações recentes das águas do lago, que destruíram parte de sua infraestrutura. As marcas, que parecem as típicas de um lugar em guerra, na verdade são fruto do aquecimento global. Por isso, Kalemie tem um outro campo de refugiados, dessa vez composto por aqueles da própria cidade, pessoas que perderam as casas com o avanço do lago e hoje vivem em tendas de palha e madeira.

Visitei na sequência as duas cidades mais importantes para a mineração congolesa. Lubumbashi, a capital de Katanga, é mais organizada e tem melhor infraestrutura do que Kinshasa. “É dinheiro das minas, meu amigo”, foi o que ouvi de uma pessoa quando reparei a maior quantidade de ruas asfaltadas.
Depois, foi a vez da capital mundial do cobalto, Kolwezi. O cobalto, um mineral usado na produção de baterias de carros elétricos, é disputado tanto pelos moradores, quanto por pessoas de outras regiões da RD Congo, mas é dominado de fato pelas mineradoras internacionais.

Cerca de 30 companhias estrangeiras extraem as riquezas minerais do território congolês em um ambiente de pobreza. Apesar do dinheiro gerado pelas multinacionais, o que se vê é uma maioria de ruas de terra, casas com marcas de rachaduras por conta das explosões de rochas, e congoleses com a saúde debilitada, principalmente por conta de doenças respiratórias.
Na parte exterior das minas, lugares indesejados pelas empresas por terem uma menor oferta de minérios, encontrei crianças e idosos. Elas cavam buracos no solo, enchem sacos de minério, carregam sacos, lavam os minerais, os secam, fazem tudo como um adulto. Nesses espaços, as meninas e mulheres ainda são expostas à violência sexual.

Visitei outras três cidades na parte Oeste do país, Boma, Muanda e Matadi. A primeira, importante porto para o tráfico de seres humanos na segunda metade do século XIX. De lá, muitas pessoas foram levadas de maneira forçada ao Brasil, Cuba, Haiti, Estados Unidos e outros países. Encontrei uma memória apagada sobre a escravização, tema de pesquisas por parte de historiadores congoleses e brasileiros.

Muanda, uma vila próxima de Boma, vive em um passado ainda nebuloso. Algumas das áreas destinadas à memória do mercado de escravizados antes do século XIX são questionadas por pesquisadores. Para eles, artefatos falsificados foram colocados ali para atrair turistas.
Matadi, uma das cidades mais bonitas do país, impressiona pelas quedas d’água do Rio Congo. Com uma economia marcada pela pesca, é um dos municípios que abastece a capital Kinshasa com alimentos.
Todo esse esforço só foi possível porque foi coletivo. O trabalho de um repórter em campo aliou-se ao compromisso da equipe da Alma Preta, que manteve uma cobertura hardnews sobre o conflito do Brasil. Além disso, toda a equipe administrativa prestou suporte logístico para a minha permanência na RD Congo.
A contribuição de todas as pessoas que participam da campanha de financiamento também merece destaque. Uma ação dessas é custosa demais para uma agência de notícias de pequeno ou médio porte e precisa do apoio de quem acredita na necessidade de cobrir esse país, esquecido pela imprensa hegemônica.

O trabalho continua. Em breve, colocaremos no ar reportagens densas, vídeos explicativos, entrevistas e fotografias captadas in loco nas diversas cidades onde estive. Ainda há muito a ser revelado nesta cobertura da guerra do Congo. Fiquem ligados!