A República Democrática do Congo vive um conflito na parte leste do país há 29 anos. Estimativas das Nações Unidas apontam para mais de 5 milhões de vidas perdidas, com 6,9 milhões de deslocados internos e quase 1 milhão de refugiados.
Ève Bazaiba Masudi, ministra do Meio Ambiente da RD Congo, em entrevista para a Alma Preta, destacou outro aspecto da guerra: a destruição do meio ambiente. O país detém 60% de toda a Floresta do Congo, a principal do continente africano. O bioma, com 3,5 milhões de km2, abriga 130 milhões de pessoas na chamada África Central.
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“A guerra não é só destruir as pessoas, ou a infraestrutura congolesa. Ela destrói também e sobretudo o meio ambiente. E nós qualificamos isso como um crime de ecocídio”, afirmou.
A RD Congo e as Nações Unidas acusam Ruanda de apoiar e atuar em conjunto do grupo rebelde M23, milícia opositora do presidente da RDC, Félix Tshekedi. Desde o início do ano, o M23 e o exército ruandês ocupam as cidades de Goma e Bukavu, as capitais do Norte e Sul Kivu. No fim de fevereiro, o governo da RDC apresentou a estimativa de mais de 7 mil mortes na região. Nenhum novo número foi divulgado.
Um relatório deste ano da ONU descreve as estratégias utilizadas por Ruanda para enfraquecer a administração congolesa naquela região. Militares entendem esse como um passo de Ruanda para tentar anexar aquele território.
Durante a COP30, em Belém, o pavilhão de Ruanda estava montado com a mensagem da campanha internacional do país africano, “Visite Ruanda”, criada em 2017 para atrair investidores e limpar a imagem do país.
“O Congo não pode proibir a participação de Ruanda em eventos como a COP. Mas o Congo vai denunciar, vai sensibilizar a comunidade internacional de tudo o que Ruanda comete no Congo, da violação massiva dos direitos humanos, mas também a destruição do meio ambiente”, afirmou Ève Bazaiba Masudi.

RD Congo tem outros desafios para preservar a principal floresta da África
Durante a COP30, um grupo de 180 pesquisadores publicou mais um relatório sobre a Floresta do Congo, algo que acontece desde 2023, na COP28 em Dubai. Inspirados nas coalizões de cientistas da Amazônia, os pesquisadores apresentaram um diagnóstico sobre a Floresta do Congo em diversas áreas, desde a geologia, hidrologia, até desmatamento, mineração e áreas urbanas.
O relatório aponta que a preservação do espaço passou a entrar em risco desde o período colonial, com a extração de minérios da região e a consequente destruição do meio ambiente. Na região habitam 10 mil espécies de plantas, 400 mamíferos, mais de mil aves e 700 peixes.
O documento aponta para a necessidade de uma economia sustentável, que permita a garantia da floresta de pé e da preservação do bioma.
“O desenvolvimento sustentável da Bacia do Congo depende de uma governança eficaz. Para atrair os investidores responsáveis e o financiamento acessível necessários para impulsionar o crescimento econômico sustentado, são necessárias melhorias contínuas e aceleradas nos processos democráticos, na governança, no estado de direito, na justiça e na equidade nos países da Bacia do Congo”, diz o texto.
Apesar de guerras acontecerem na parte leste da RDC desde 1996, com o início da chamada Primeira Guerra do Congo, nenhuma menção no relatório aos conflitos militares da região como um empecilho para a preservação ambiental.
Durante a COP30, o principal projeto apresentado pelo governo congolês foi o “Corredor Verde Kivu – Kinshasa”, um projeto para aproximar os dois extremos do país e com o objetivo de fortalecer a segurança nacional congolesa. Ruanda se aproveita da maior proximidade entre Kigali, capital do país, e Goma, capital do Norte Kivu, separadas por 162km, para influenciar a vida daquela região. A distância de Goma para Kinshasa é de mais de 2 mil kms.
A iniciativa é protagonizada pelo Ministério do Meio Ambiente do país e tem o desejo de desenvolver uma economia verde e sustentável para os dois extremos da nação africana. Documentos do governo congolês descrevem o projeto com o intuito de criar uma área de 100 mil Km2 de área protegida.
“Este projeto, que constituirá a maior reserva de floresta tropical do planeta, busca preservar a biodiversidade única e as espécies endêmicas, ao mesmo tempo que aborda os desafios de governança e sustentabilidade em uma área rica em recursos naturais (incluindo elementos de terras raras), mas marcada por conflitos e instabilidade”, diz o texto.
O projeto foi iniciado no dia 15 de janeiro de 2025, a partir de um decreto governamental, e foi apresentado por Félix Tshekedi no Fórum de Davos.
“Além da conservação ambiental, o Corredor Verde faz parte de uma estratégia nacional integrada para revitalizar a economia, fortalecer as comunidades locais e promover uma paz duradoura no leste do país”, afirma o documento.
O projeto está baseado em quatro pilares, do uso sustentável da terra e da mineração, segurança sobre o território e governança, inovação e financiamento sustentável, e o respeito às comunidades locais.
A expectativa é de que o projeto gere 500 mil empregos e tire cerca de 20 mil jovens de grupos armados da região leste da RDC. A meta é atrair investidores privados e fundos internacionais de apoio. Os congoleses também estão abertos para parcerias na área científica e planos de monitoramento e colaboração técnica para implementação de projetos.

Ativistas criticam projetos de exploração de petróleo na região
O projeto do Corredor Verde Kivu-Kinshasa, contudo, entra em choque com outra iniciativa do governo da RDC.
Em julho de 2025, a RDC abriu a possibilidade para a exploração de petróleo em 55 blocos, ação criticada por ambientalistas. De acordo com o estudo “Das Florestas às linhas de frente: o perigo da expansão do petróleo na RDC”, as áreas oferecidas estão em regiões de proteção ambiental, de grande biodiversidade ou mesmo de florestas intactas.
Cerca de 72% das áreas oferecidas para a exploração de petróleo ainda cruzam com territórios que são parte do principal projeto ambiental do governo da RDC, o Corredor Verde Kivu-Kinshasa.
Pascal Mirindi, militante da Rebelião Extinta, e antigo habitante da cidade de Goma, coordenou uma campanha chamada “Nossa terra sem petróleo”. A campanha reuniu mais de 200 organizações, congolesas e de outros países, e Pascal Mirindi foi um dos coordenadores.
“Juntos estamos tentando dizer não à venda de blocos de petróleo, mas também apresentar propostas e alternativas políticas, sociais e econômicas”.
François Kasereka, outro ativista da Rebelião Extinta e congolês da cidade de Rutshuru, cidade próxima de Goma, capital do Norte Kivu e área hoje ocupada pelo M23, não viu agendas ou propostas apresentadas pelo governo da RDC para frear projetos de exploração de petróleo durante a COP30, em Belém.
“Infelizmente, não vejo nenhuma política iniciada ou qualquer política na agenda dos políticos aqui no Brasil por ocasião desta COP para interromper os projetos de combustíveis fósseis no Congo”, afirmou.
As expectativas em torno do Fundo de Florestas Tropicais
O relatório produzido por pesquisadores sobre a Floresta do Congo conta que a região recebe menos recursos do que a Amazônia e do que a floresta do Sudeste Asiático, majoritariamente presente no território da Indonésia.
Para que a região consiga superar o desmatamento, é necessário que exista uma política de investimento sustentável.
“Após séculos de extração e degradação, existe um potencial real para um futuro diferente: um futuro de desenvolvimento genuinamente sustentável, liderado localmente, para o bem-estar e benefício de seus povos e comunidades, onde os recursos são geridos e preservados de forma sustentável e contribuem para a resiliência africana e planetária diante dos inevitáveis impactos das mudanças climáticas”, diz o texto.
Os congoleses foram em busca disso para a COP30 no Brasil. A delegação congolesa foi a quinta maior da edição em Belém, no Brasil, com 556 representantes. O Brasil, país sede, teve o maior número de credenciados, com 3.805.
A presença destaca dos congoleses durante o encontro é explicada pelo Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, sigla em inglês). O fundo, que captou mais de US$ 6 bilhões durante a COP30, vai repartir recursos para os países detentores de florestas tropicais. O dinheiro será repassado para os países de acordo com o quanto protegerem anualmente as suas florestas e 20% de todo o recurso deverá ser destinado para as comunidades locais.
Pascal Mirindi acredita que esse movimento é justo, que os países do Norte devem pagar pela atuação dos países do Sul, e exige maior transparência na utilização dos recursos.
“Precisamos do dinheiro. Não é um presente que vamos receber. A comunidade internacional, os países poluidores, os países do Norte Global, nos devem dinheiro. Mas também precisamos pensar em mecanismos de rastreabilidade. Porque corremos o risco de dar o dinheiro à República Democrática do Congo para enriquecer certos políticos enquanto o povo, incluindo crianças, passa fome”, afirmou.