A República Democrática do Congo (RDC) vive um sentimento de desconfiança com relação ao seu vizinho, Ruanda. Se algo de errado acontece em Kinshasa, como um farol queimado, ou um serviço que deixou de funcionar, logo vem o questionamento: “seria culpa de algum agente de Ruanda?”.
O sentimento cresceu com a nova investida do M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda no leste da RDC. Em 27 de janeiro, os rebeldes tomaram as cidades de Goma, capital do Kivu do Norte, e em 15 de fevereiro, Bukavu, capital do Kivu do Sul. As estimativas divulgadas em 24 de fevereiro apontavam para 7 mil mortes nos dois meses de conflito — número que não foi atualizado de maneira oficial desde então.
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Em Kinshasa, manifestações aconteceram como forma de protesto contra as agressões sofridas pelo país. A embaixada de Ruanda foi uma das atacadas. Os congoleses estavam irritados com o vizinho e com o “Ocidente”, que nada fez para deter a invasão de Goma.
A desconfiança dos congoleses pode ser exagerada em alguns momentos, mas tem fundamento. Ruanda construiu estratégias para infiltrar agentes dentro das instâncias de poder da República Democrática do Congo, como forma de enfraquecer as defesas do país.
A ressalva dos congoleses em relação ao país vizinho não se alterou nem com o acordo de paz, assinado em 27 de junho, com a mediação dos EUA. No campo de refugiados de Kalemie, visitado pela equipe da Alma Preta, Christian Tulinabo, um dos coordenadores do local, demonstrou insegurança sobre o tratado.
“Não temos confiança nos ruandeses. A cada dia que passa, com os massacres que você vê dia após dia, não temos mais confiança neles. Não sabemos se eles querem ficar no país, ou se ainda querem explorar os minerais encontrados”, afirma. O governo da RDC acusa Ruanda de patrocinar o M23 para conseguir acesso aos minerais congoleses.

Propagandas do Exército estão presentes na capital Kinshasa. No bairro de Gombe, uma mensagem de orgulho para os militares do país (Foto: Pedro Borges/Alma Preta).
James Kabarebe, o homem dos três exércitos
Atual ministro de Integração Regional de Ruanda, James Kabarebe atuou em três exércitos, RDC, Uganda e Ruanda, sempre em postos de comando.
Ele nasceu em Ruanda, é da etnia Tutsi, e cresceu como refugiado em Uganda. Ele lutou para a chegada ao poder em Uganda do presidente Yoweri Museveni, em 1986, onde integrou as forças armadas. Em 1994 voltou para Ruanda para ser um dos líderes que enfrentaram os grupos extremistas hutus, responsáveis pela maioria das mortes no genocídio de 1994, quando 800 mil pessoas morreram, a maioria delas tutsi.
Antes da Primeira Guerra do Congo (1996-1997), James Kabarebe tinha a responsabilidade de cuidar de Laurent Kabila, líder da oposição congolesa, e seu filho, Joseph Kabila, que anos mais tarde se tornaria presidente da RDC. Kabarebe chegou a ensinar a Joseph Kabila sobre táticas de combate, fator que fortaleceu o vínculo entre os dois.
Em 1996, com o enfraquecimento do regime de Joseph Mobutu, que governava o país desde 1965, Laurent Kabila liderou, ao lado de James Kabarebe, um grupo rebelde da parte leste do país com direção à capital. A Primeira Guerra do Congo, como ficou conhecida a insurreição, causou 200 mil mortes ao todo.
Depois de chegar em Kinshasa, capital da RD Congo, e derrubar o regime de Mobutu, Kabila se tornou o chefe de Estado do país, em 1997. Mesmo que de maneira breve, Kabarebe chegou a atuar como chefe do exército durante a gestão de Laurent Kabila.
Laurindo Tchinhama, professor na Universidade Federal de Uberlândia no curso de Relações Internacionais e especialista nos acordos de paz da RDC, conta que a infiltração de militares de Ruanda nas linhas congolesas tem o objetivo de atacar os responsáveis pelo genocídio de 1994.
“O fato de Ruanda e Uganda terem ajudado o Laurent Kabila a derrubar Joseph Mobutu fez o Kabila sentir-se obrigado a colocá-los como parte da inteligência do exército. E isso na verdade, do lado de Ruanda, foi uma forma de controlar e perseguir os hutus que estavam no Congo”, conta.
As desavenças da RD Congo com os regimes de Kigali, capital de Ruanda, e Kampala, capital de Uganda, contudo, seguiram intensas mesmo com o fim do conflito. Houve, então, uma nova ruptura, que deu início para a Segunda Guerra do Congo (1998-2003).
O conflito, que deixou mais de 4 milhões de mortos, foi um ataque de Ruanda e Uganda contra o regime de Kinshasa. James Kabarebe liderou esse ataque sob a bandeira ruandesa, o que marcou a ruptura na sua relação com os Kabila.
A influência de Kabarebe na RD Congo, contudo, permaneceu com o passar do tempo. Relatório das Nações Unidas de 2012 apontou Kabarebe, então Ministro da Defesa de Ruanda, como o comandante de fato do M23. Naquele ano, os rebeldes chegaram a tomar por pouco mais de uma semana a cidade de Goma, capital do Kivu do Norte.
As informações sinalizam que Kabarebe tem influência sobre a RD Congo até os dias de hoje. Com base nesse cenário, o governo dos Estados Unidos anunciou sanções em 20 de fevereiro deste ano contra James Kabarebe.
“Kabarebe é um elo do governo ruandês com o M23 e orquestra o apoio da RDF ao grupo armado. Além disso, Kabarebe administra grande parte da receita gerada por Ruanda e pelo M23 a partir dos recursos minerais da RDC. Ele coordenou a exportação de minerais extraídos de minas na RDC para posterior exportação de Ruanda”, diz o comunicado do governo dos EUA.
Mesmo com relatórios da ONU que apontam o contrário e documentos que comprovam o apoio de Ruanda para o M23, o governo do país nega esse suporte.

Propaganda do exército congolês nas ruas de Kinshasa com texto em lingala, língua mais falada na cidade (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)
Deserções e as traições aumentam a desconfiança dos congoleses
Parte dos chamados Wazalendo, grupo que em Suaili significa “patriotas”, tem ressalvas sobre o exército congolês por conta das infiltrações e preferem combater os inimigos em grupos autônomos.
Líder do Movimento Patriótico de Libertação do Congo, René Itongwa é autoproclamado general com histórico de ter lutado como paramilitar na Primeira Guerra do Congo, em 1996. Depois, até chegou a se alistar no exército, mas optou por sair.
“Sai por conta das traições. Existe infiltração dentro do exército, o que leva às traições”, afirmou.
Ele diz que hoje a relação com o exército é positiva, porque restaram apenas os patriotas, e que os traidores estão presos. “Ainda existe o risco de traição, mas a maioria é de patriotas”, afirmou.
Relatório das Nações Unidas detalham que, com a invasão de Goma e Bukavu deste ano, o M23 conseguiu capturar militares congoleses, que aceitaram mudar de lado e lutar em prol do grupo rebelde. Cerca de 2 mil soldados do exército congolês foram capturados e levados para campos de treinamento do M23.
As deserções dos soldados congoleses costumam ser cobradas pelos chamados Wazalendos. Um antigo morador de Goma, capital do Kivu do Norte, se refugiou no Burundi, um país vizinho da RDC. Enquanto saia de Goma, viu soldados serem executados por paramilitares, sob a acusação de serem desertores. Os paramilitares então matam os soldados para ficarem com as suas armas e uniformes.
John Makanakiti Kasingira, autoproclamado general do Movimento de Defesa Popular (MDP), acredita que os soldados que se juntam ao M23 sabem dos erros que estão cometendo.
“Eles são traidores da nação congolesa, porque eles juraram devoção à pátria. Eles são tão inimigos como o M23 e Ruanda. Aqueles que se juntaram aos inimigos são apenas espiões que muito antes já trabalhavam para o inimigo”, contou.
Apesar da afirmação, John Makanakiti Kasingira afirma que quando encontra um “traidor” não o mata. “A bíblia nos ensina de que nós não podemos matar um prisioneiro de guerra”, afirmou.
O autoproclamado general Jules Kituki Ukimwazi, do Movimento de Autodefesa Kibalo Kyetu (palavra que significa “nosso país” em Kivira, língua dos Bavira), acredita que os militares que abandonam o exército não são patriotas. “Inimigos entre muitos, são agressores”. Ele nunca fez parte do exército, mas afirma que os traidores são muitos.

Apesar da aparente tranquilidade das cidades do Leste da RDC, como em Kalemie, moradores temem o avanço de Ruanda e as suas milícias (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)
Acordos de paz também foram utilizados para infiltrar militares na RD Congo
Diversos acordos de paz já foram assinados para tentar acabar com o conflito que dura 29 anos na região Leste da República Democrática do Congo. Os acordos de paz e as demandas dos grupos rebeldes que atuam na região, contudo, se tornaram um ponto de atenção para a segurança nacional congolesa.
Um dos combinados adotados em alguns tratados é o de, como forma de cessar o conflito, absorver os antigos combatentes nas forças armadas congolesas. Alguns desses, contudo, não são congoleses, e chegam a ocupar cargos de prestígio no exército.
Um dos acordos mais importantes foi assinado em 23 de março de 2009, na cidade de Goma, capital do Kivu do Norte. Naquele momento, os conflitos eram travados entre o Exército Congolês e o Congresso Nacional da Defesa do Povo (CNDP). A mediação foi facilitada pela ONU e a União Africana.
O tratado, que reafirmava a soberania da RDC, abriu caminho para a CNDP se transformar em um partido político e impor medidas para o governo no pós-guerra. Ficou acordado que a CNDP produziria uma lista de prisioneiros, que deveriam ser libertados, e que os combatentes do grupo paramilitar seriam incorporados às forças armadas e à polícia nacional.
Os combatentes ainda tiveram a garantia de que o rankeamento paramilitar seria respeitado. Ou seja, um autoproclamado comandante ou general entraria nas forças armadas com o mesmo status.
Apesar dos esforços, o acordo fracassou e inspirou o surgimento do M23, uma referência ao dia de assinatura do tratado, em 23 de março de 2009.
Laurindo Tchinhama, professor na Universidade Federal de Uberlândia no curso de Relações Internacionais e especialista nos acordos de paz da RDC, concorda que a infiltração via acordo de paz é uma das estratégias adotadas por Ruanda, mas sinaliza a responsabilidade congolesa.
“Podemos pensar nessa perspectiva, que Ruanda tem interesse sim de ter infiltrados no exército, mas quem determina isso são todos os membros de uma discussão de paz. Se o Congo aceitar isso, então tudo bem. O que não pode ter é uma imposição”, explica.
Para ele, o governo de Paul Kagame faz esses movimentos por não se sentir seguro ao lado da RDC, um país com mais de 100 milhões de habitantes e com um território mais de 100x maior do que o ruandês.
“Na minha leitura, o governo de Paul Kagame não se sente seguro com o Congo, porque ainda tem a Frente Democrática pela Libertação de Ruanda (FDLR), que é a sua grande pedra no sapato, até porque a FDLR é de maioria hutu”, conta. Ruanda acusa a RDC de dar suporte para o grupo, que atua na fronteira dos dois países e é formado por ex-combatentes hutus, participantes do genocídio de 1994.
O mais recente acordo de paz, assinado em junho de 2025, prevê uma ação conjunta entre os exércitos da RDC e de Ruanda para enfrentar a FDLR. Não há, contudo, uma previsão de integração de combatentes no exército congolês.
Apesar das limitações da estratégia de integração de combatentes aos exércitos nacionais, Laurindo Tchinhama não descarta essa estratégia como uma possibilidade para a resolução de conflitos.
“Eu acho essa estratégia válida, desde que fique claro no acordo que, em caso de descumprimento ou tentativa de insurreição, esses integrantes serão julgados”, conta.
Para ele, o ponto central desses processos é o de trabalhar com o aspecto identitário dos combatentes. O que não é algo simples. Pessoas da etnia tutsi, que moram na RD Congo, têm uma identificação territorial com a RDC e étnica com o governo de Ruanda, liderado por pessoas da etnia tutsi.
“Você tem que trabalhar muito a questão subjetiva do indivíduo, para você ver se esse ex-combate tutsi você íntegra no Congo ou em Ruanda. Porque se esse rebelde tutsi nasceu no Congo, ele tem vínculo étnico com Ruanda. De vivência é o Congo, de identidade, é Ruanda”, explica.