As periferias brasileiras estão na linha de frente do enfrentamento à crise climática, mas continuam fora do circuito do financiamento. É o que revela o relatório “Diretrizes para a Filantropia Climática”, lançado pela Iniciativa PIPA.
O estudo será apresentado no dia 12 de novembro, em Castanhal (Região Metropolitana de Belém), em parceria com o Coletivo MIRÍ, durante a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). Além da apresentação, os coletivos participarão de mesas e articulações ao longo do evento.
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Segundo o levantamento, 82,3% das organizações periféricas realizam ações ligadas à agenda climática, mas apenas 15,9% acessam recursos específicos de clima. O estudo reúne dados de 113 organizações periféricas de todas as regiões e biomas do país, além de informações qualitativas coletadas em uma imersão com 20 organizações do Recife (PE) — encontro que mapeou práticas locais de adaptação e tecnologias sociais voltadas à justiça climática.
O relatório evidencia que as periferias fazem muito com pouco: são elas que sustentam redes de cuidado, agroecologia, reflorestamento e soberania alimentar, mas continuam sendo as menos financiadas e as menos ouvidas.
Desigualdade racial e territorial
O documento reforça que a maioria dos moradores das periferias brasileiras é formada por pessoas negras (85,8%), mulheres (54%) e jovens (67,3%), e são esses os principais públicos apoiados pelas ações climáticas desses territórios. Essa sobreposição entre vulnerabilidade racial, social e ambiental escancara o que a PIPA define como racismo ambiental — a concentração dos efeitos da crise climática em corpos e comunidades historicamente marginalizados.
A pesquisa também mostra que 52% das organizações periféricas atuam de forma informal, sem CNPJ, o que as impede de concorrer em editais e acessar os principais fundos de doação. Essa informalidade, segundo o relatório, não é sinônimo de ausência de ação e sim do reflexo de barreiras burocráticas e da exclusão histórica dessas iniciativas das estruturas institucionais do financiamento.
Soluções já em curso
Durante o encontro em Recife, as 20 organizações participantes mapearam ações concretas de enfrentamento aos extremos climáticos, entre elas: mapeamento participativo de áreas de risco, sensores comunitários e redes de alerta para inundações; bioconstruções e moradias adaptadas ao calor, com uso de telhados verdes e materiais ecológicos; hortas e sistemas agroecológicos, para combater a insegurança alimentar; reflorestamento, proteção de nascentes e denúncias ambientais; e redes solidárias de doações e abrigos comunitários.
Essas soluções, afirma a PIPA, mostram que as periferias não estão esperando o financiamento acontecer: elas já estão respondendo à crise climática com inovação e solidariedade.
O relatório propõe três diretrizes centrais para redesenhar o financiamento climático no Brasil, com o objetivo de aproximar as práticas da filantropia das realidades dos territórios mais afetados. São elas: geo-priorização dos recursos, para que o dinheiro chegue primeiro aos territórios mais vulneráveis; criação de um mecanismo público de monitoramento das doações climáticas, com transparência e rastreabilidade; e protocolos ágeis de repasse emergencial, permitindo respostas rápidas a enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos.
“Em conjunto, esses efeitos redistribuem poder, dinheiro e tempo: poder (decidir com os territórios), dinheiro (para onde o risco é maior) e tempo (responder na velocidade da emergência), tornando o financiamento climático mais justo e efetivo nos territórios periféricos”, reforça Nildamara Torres, coordenadora de Pesquisa na Iniciativa PIPA.