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A justiça climática não pode esperar

O Brasil precisa assumir uma postura propositiva e coerente com sua posição de país megadiverso, profundamente desigual e historicamente explorado.
Imagem mostra comunidade brasileira afetada por deslizamento de terra.

Imagem mostra comunidade brasileira afetada por deslizamento de terra.

— Thomas Mendel/Greenpeace

9 de julho de 2025

Por: Beatriz Lourenço

Na cidade de Bonn, Alemanha, acontece anualmente uma das etapas mais decisivas da diplomacia climática global: a conferência intersessional da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), conhecida como Subsidiary Bodies (SB). Este ano, acompanhamos a primeira semana dos desdobramentos da 62ª sessão (SB62), que ajuda a preparar o terreno técnico e político para a COP30, marcada para ocorrer em Belém, no Brasil, em novembro.

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Nas reuniões de Bonn ocorrem os debates mais densos e técnicos. São espaços decisivos para alinhar textos, definir metodologias e tentar destravar impasses que, sem resolução prévia, inviabilizam acordos mais amplos durante a COP. Este ano, adaptação climática foi um dos principais temas em negociação, com ênfase para as discussões da Meta Global de Adaptação (GGA), e dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) — dispositivos-chave para garantir que os países mais afetados pela crise climática possam se preparar e responder aos seus impactos. 

No entanto, o que vimos em Bonn foi mais uma demonstração do descompromisso por parte dos países do Norte Global. Sob o argumento de divergências metodológicas para as negociações, presenciamos uma série de manobras que buscaram adiar decisões e esvaziar responsabilidades históricas. Vale dizer que as negociações começaram apenas no terceiro dia do evento, justamente pela dificuldade em se chegar em um acordo sobre a agenda de negociações. Assim, não é estranho que o grande impasse das discussões tenha sido a demanda dos países do Sul Global de garantir indicadores de adaptação na Meta Global capazes de demonstrar a qualidade, o acesso e a montante de recursos para a adaptação. 

A centralidade dos territórios e a urgência da reparação 

Antes de embarcar rumo a Bonn, realizamos um importante encontro no Hub Peregum, nossa sede em Brasília, reunindo representantes do governo federal, da diplomacia brasileira, especialistas e lideranças de movimentos sociais. Nosso objetivo: apresentar ao governo brasileiro e à diplomacia uma agenda política que condicione o financiamento climático à permanência das comunidades nos territórios, ao direito à moradia digna e à reparação histórica — especialmente para populações negras e periféricas, que há séculos arcam com o custo das crises econômicas, sociais e ambientais.

Esse evento foi marcado pela presença da presidência da COP30, representada por Alice Amorim, e da embaixadora Liliam Chagas, chefe da delegação brasileira nas negociações internacionais. A participação dessas lideranças sinalizou o reconhecimento político da centralidade de nossa pauta: a construção de políticas climáticas informadas por raça, gênero e território. Foi, também, um sinal de que o Brasil pode desempenhar um papel diplomático relevante se mantiver o compromisso com a justiça climática como diretriz. 

Contribuições concretas e o que está em jogo 

Em nossa participação na SB62, reafirmamos a compreensão de que a invisibilização das discussões sobre raça e gênero nas políticas de adaptação pode perpetuar desigualdades. Por isso, seguimos levando as discussões sobre racismo ambiental para os territórios periféricos e para a juventude negra de todo o Brasil. No primeiro semestre de 2025, participamos da 8º Jornada de Moradia Digna, organizada pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e movimentos de moradia. Dessa vez o tema foi Direito à Cidade e Justiça Climática. Colaboramos com a elaboração e a aplicação de metodologias nos 12 encontros, em 12 diferentes comunidades espalhadas pelo estado de São Paulo em que tratamos das mudanças climáticas e suas relações com o racismo ambiental e como é imprescindível lutar por justiça climática. 

É fundamental que a sociedade civil tenha olhos atentos e capacidade de avaliação final sobre a capacidade e efetividade dos mecanismos unilaterais em enfrentar os desafios do nosso tempo. É impossível ignorar que o mundo assiste todos os dias ao genocidio do povo palestino sem capacidade de intervenção real desses mecanismos. Ainda, é fundamental que tenhamos um olhar apurado sobre o que representa a posição de cada país nas negociações, não admitindo respostas fáceis incapazes de identificar a necessidade de uma discussão profunda sobre o papel norte x sul. 

O Brasil como protagonista e a responsabilidade da sociedade civil 

Com a COP30 se aproximando, o Brasil precisa assumir uma postura propositiva e coerente com sua posição de país megadiverso, profundamente desigual e historicamente explorado. A conferência de Bonn deixou evidente que o protagonismo brasileiro só será legítimo se estiver ancorado na escuta ativa dos povos e comunidades mais vulnerabilizadas. Isso inclui reconhecer que a justiça climática precisa ser construída a partir das experiências de quem vive a crise na pele — seja nas periferias urbanas, seja nas comunidades quilombolas, indígenas ou ribeirinhas. 

No entanto, é impossível ignorar a crescente perda de influência da ONU e de organismos multilaterais no enfrentamento da crise climática. O esvaziamento político dessas instâncias, somado à captura dos espaços de negociação por interesses corporativos e potências econômicas, têm enfraquecido sua capacidade de produzir acordos vinculantes e justos. Essa fragilidade institucional escancara a urgência de repensar a governança global do clima, colocando no centro do debate os saberes tradicionais, a ciência comprometida com a justiça socioambiental e a soberania dos povos historicamente subalternizados. Sem isso, conferências como a COP correm o risco de se tornarem meras vitrines diplomáticas, distantes das transformações reais que o planeta exige. 

Por isso, não há tempo a perder. Precisamos fortalecer o papel da sociedade civil na formulação de políticas climáticas, garantir transparência nos processos de tomada de decisão e pressionar por mecanismos de reparação, permanência e redistribuição.Destacamos o acompanhamento sistemático do Fundo Clima a partir da ocupação de seu comitê gestor é peça fundamental para a mudança estrutural dessas ações. 

A justiça climática não pode ser apenas uma promessa diplomática ou uma narrativa de ocasião. Ela precisa ser construída com dados, com compromisso político e, principalmente, com a participação ativa dos povos historicamente excluídos dos espaços de poder. 

Beatriz Lourenço é diretora de Áreas e Estratégia do Instituto de Referência Negra Peregum.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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