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Apoio de leitores viabiliza cobertura de conflitos ignorados pela mídia e Alma Preta ganha reconhecimento internacional

Em um cenário de invisibilidade, a Alma Preta foi à República Democrática do Congo para documentar uma guerra de 30 anos; iniciativa, que ganhou repercussão internacional, ilustra como o suporte direto do público viabiliza reportagens de impacto global
Pedro Borges e membros de movimentos sociais em Kinshasa.

Pedro Borges e membros de movimentos sociais em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

— Divulgação/Alma Preta

29 de setembro de 2025

Por três décadas, um conflito na República Democrática do Congo (RDC) vitimou milhões de pessoas sem que o mundo voltasse sua atenção para a região. O silêncio, no entanto, motivou a agência de notícias Alma Preta a cruzar o Atlântico para documentar a crise humanitária.

O resultado foi uma série de reportagens que ganhou repercussão dentro e fora do Brasil, com destaque em veículos como o podcast “O Assunto”, do G1, e o reconhecimento com o prêmio “Cultures of Resistance Awards”. Mais do que o mérito jornalístico, a cobertura expõe um modelo de produção de notícias que depende diretamente do engajamento e do apoio financeiro de sua comunidade de leitores para existir.

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Iniciativas como esta, que exigem alto investimento e planejamento complexo, se tornam possíveis quando o público se torna uma parte importante do processo jornalístico. O financiamento por meio de assinaturas mensais permite que veículos independentes se dediquem a pautas de interesse público, que fogem da cobertura factual e aprofundam o debate sobre temas urgentes e, muitas vezes, ignorados.

O motor da apuração

O que leva um jornalista a cobrir uma guerra esquecida? Para Pedro Borges, co-fundador e editor da Alma Preta, a resposta está na invisibilidade. “O silêncio acerca disso tudo foi o que me motivou”, afirma. Em um período em que conflitos na Ucrânia e na Palestina dominam o noticiário, a guerra na RD Congo, que já dura 30 anos, permanecia à margem.

“Por um lado, não é um conflito nos moldes das disputas geopolíticas que vemos em outros lugares, mas, por outro, está diretamente ligado a uma questão central da nossa era: a transição energética. As discussões políticas sobre o futuro do mundo e do Brasil dependem dos minerais que existem em abundância naquela região”, completa Borges, ao listar os fatores que o motivaram.

A investigação revelou a conexão direta da disputa com a transição energética, um tema central no debate global. A violência na região é alimentada pela extração de minerais essenciais para a produção de tecnologia, como o cobalto. “As discussões políticas sobre o futuro do mundo e do Brasil dependem dos minerais que existem em abundância naquela região”, explica o jornalista.

Crianças trabalham na procura de minérios na República Democrática do Congo, em 2025. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

Os desafios em campo

O trabalho em campo durou dois meses e incluiu um percurso por sete cidades, de Kinshasa a Kolwezi, conhecida como a capital mundial do cobalto. A jornada exigiu uma preparação logística e de segurança sem precedentes para a equipe, com custos elevados que apenas um projeto bem estruturado poderia cobrir.

“Foram cuidados muito grandes, inclusive burocráticos, pois sabíamos que teríamos que lidar com a burocracia do governo local e com a corrupção no dia a dia. Era algo que eu já sabia que teria de enfrentar, mas, na verdade, acho que posso me preparar melhor no futuro. Porque, mesmo imaginando que enfrentaria isso, o nível foi maior do que eu esperava. Mas, enfim, deu certo”, reflete.

É nesse ponto que a participação do público se mostra decisiva. “Os valores são muito altos. Quando se vai para um lugar com pouca infraestrutura, qualquer movimentação se torna muito cara”, diz Borges. “O financiamento coletivo é fundamental. É uma maneira de o público nos sinalizar que olha para o tema e o considera importante”.

Um olhar que conecta

A presença de um jornalista negro brasileiro em solo africano proporcionou uma perspectiva anticolonial à cobertura. Segundo Borges, a experiência permite um olhar que não culpabiliza o povo local pela tragédia, mas que a entende como um problema sistêmico, fruto de uma exploração histórica violenta.

“O nosso lugar nos permite olhar para a cobertura com um viés anticolonialista. É muito fácil responsabilizar o povo pela tragédia local, quando, na verdade, se trata de um problema endêmico e sistêmico, instalado em um país explorado de forma violenta.”

Vista do campo de refugiados em Kalemie, no leste da República Democrática do Congo. Foto: Pedro Borges

Durante a viagem, Borges buscou criar pontes entre a realidade congolesa e a brasileira, focando especialmente no histórico comum de escravização. Em Boma, importante porto de onde milhões de africanos foram forçados para o Brasil, documentou como essa memória permanece viva.

“Quando nossos irmãos africanos vêm ao Brasil, eles comentam sobre a falta de conhecimento dos brasileiros sobre o continente africano. No entanto, existe também uma grande falta de conhecimento por parte deles sobre a diáspora”, lembra. 

Pedro ressalta que essa falta de conhecimento impactou em sua recepção no país do continente africano. “Eles não conhecem o que foi a diáspora, como foi o processo de colonização aqui, os processos de apagamento e miscigenação que enfrentamos. Então, não é um lugar onde chegamos e somos recebidos da maneira como imaginamos”, sinaliza.

A importância do engajamento

O engajamento dos leitores, seja pela participação em campanhas de financiamento ou pela repercussão do conteúdo, funciona como um estímulo para que esse tipo de jornalismo continue a existir.

“Quando vemos as pessoas participando da campanha ou acompanhando as reportagens, sentimos o impacto”, diz. “É um estímulo institucional e pessoal para continuarmos”, afirma Borges. 

A expectativa é que a visibilidade gerada pela cobertura pressione o poder público brasileiro a se posicionar e a se tornar um ator relevante na busca por uma solução para o conflito, assim como faz em outras disputas globais.

“Que o Brasil se torne um agente de pressão para que esse conflito cesse e para que os povos da região tenham a possibilidade de viver com dignidade”, conclui.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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