*Enviado especial a Kinshasa, República Democrática do Congo
A República Democrática do Congo (RDC) tem algumas das principais reservas minerais do planeta, entre elas o cobalto e o coltan, dois minérios importantes para a produção de carros elétricos e equipamentos de tecnologia, como celulares. Apesar disso, a população congolesa vive em extrema pobreza e sofre com insegurança alimentar.
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Dados publicados em 26 de maio pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) apontam para a presença de 10,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Desse total, 2,3 milhões de pessoas entraram nos cálculos desde o início da guerra, em 27 de janeiro.
Foi sobre esse contexto que a Alma Preta entrevistou Blanco Kiyongo, presidente da Liga dos Jovens Camponeses (LJC). Ele é agricultor e trabalha na sensibilização de outros camponeses por uma revolução socialista que coloque os minérios da RDC a serviço dos congoleses.
“Porque não há revolução sem a classe trabalhadora”, afirmou. “E os minerais desse país pertencem a todos nós, enquanto povo”, afirma.
Ele defende que o caminho para que a população do país tenha acesso aos recursos naturais é o socialismo.
“Tudo isso nos pertence: os minerais, os recursos naturais. Essa é a razão pela qual o socialismo é muito importante. Porque queremos igualdade de vida, acesso aos cuidados de saúde, acesso à educação, acesso às maternidades”, afirmou.
Desigualdade social na RDC
Hoje, o que acontece é o contrário: uma concentração de recursos e o aprofundamento da pobreza.
“Nós, a população, continuamos sofrendo, permanecendo na pobreza. Não temos armas, não temos meios de força para ir lá e acessar esses recursos. Eles têm o poder e o direito de serem ricos, e nós temos o direito de sermos pobres”.
O dia a dia em Kinshasa mostra as desigualdades do país. Enquanto carros de luxo são comuns em alguns bairros, mais do que no Brasil, em outras áreas é notável a falta de uma estrutura mínima, como saneamento básico e coleta de lixo. A desigualdade choca até brasileiros que acompanham a realidade da pobreza no país.
As ruas de Kinshasa, por exemplo, são tomadas por “areias”. Mesmo sem praias ou um deserto ao lado, as calçadas e avenidas são cobertas por uma poeira. A “areia”, na verdade, é o lixo queimado pelos moradores. Sem acesso a uma coleta de lixo pelo poder público, essa é a maneira encontrada para se livrar das pilhas de dejetos que se acumulam.
O problema se agrava para os residentes do leste do país, no Kivu do Norte e no Kivu do Sul. Blanco Kiyongo relatou as dificuldades enfrentadas pelos companheiros dessas regiões e dos esforços feitos para ajudar.
“De vez em quando, alguns camaradas lá me pedem dinheiro. Estou em Kinshasa, preciso enviar dinheiro para um companheiro em Bukavu [capital do Kivu do Sul]. A vida que levamos aqui em Kinshasa já é difícil demais. Se enviar mais dinheiro, não conseguimos sobreviver”.
A guerra no leste da RD Congo
Desde janeiro, com a tomada do M23 da cidade de Goma, capital do Kivu do Norte, a situação piorou. Blanco Kiyongo e o restante da população congolesa protestam e não assistem calados à guerra contra o país.
Em janeiro, no dia 28, depois da tomada da cidade de Goma, grandes manifestações tomaram as ruas de Kinshasa, com ataques às embaixadas de diversos países, como França, EUA e Ruanda. A bandeira do Brasil, hasteada na embaixada, também foi tomada.
Desde então, atores internacionais como a União Africana, o Catar e os Estados Unidos têm tentado mediar o conflito.
No dia 25 de abril, Marco Rubio, secretário de estado norte-americano, afirmou que foi desenvolvida uma carta de princípios entre Ruanda e a RDC. A proposta de acordo, contudo, ainda não foi apresentada e havia uma expectativa de que isso fosse ocorrer no dia 2 de maio.
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Sem transparência, os congoleses pouco sabem das negociações. Há a expectativa de que uma declaração conjunta entre Ruanda, RDC e os Estados Unidos seja feita.
“Atualmente, não sabemos o que está acontecendo, e não sabemos exatamente o que podemos dizer sobre a guerra. Não sabemos como nos posicionar, mas sabemos que estamos sendo atacados por Ruanda”.
Enquanto os diálogos acontecem, o país segue saqueado por Ruanda.
“Nós lutamos pela libertação do país. Mas depois, vemos nossos líderes entrarem em diálogo com as pessoas que nos atacam. O M23 ainda controla Goma, Bukavu e outras localidades do país. Nessas regiões, os minerais continuam indo para Ruanda todos os dias”,
O agricultor ainda lamenta as mortes do conflito e a falta de ação da comunidade internacional para impedir as mortes na parte leste do país. Relatório da ONU apontou para 7 mil mortes desde o início, em janeiro de 2025.
“O Ocidente fez o quê por esses 7.000 mortos? Quais foram as sanções? Vimos sanções pequenas contra alguns indivíduos. Contra atores-chave, não sancionaram ninguém”.
A organização dos agricultores congoleses
Há três anos a Liga dos Jovens Camponeses atua na sensibilização dos agricultores e camponeses. Nos locais onde existe plantação e há um diálogo por parte da LJC, esses trabalhadores não utilizam pesticida e a produção deles é agroecológica.
Ele acredita que o trabalho dos agricultores é fundamental para qualquer transformação de maior profundidade no país, porque há a necessidade de comer. O objetivo da LJC é garantir que os agricultores consigam produzir para suas famílias e que consigam vender a um preço acessível, e assim conseguir comprar sementes e insumos para seguirem na produção.
Apesar dos esforços, Blanco Kiyongo crítica o acesso à terra no país e a falta de incentivo para a agricultura familiar.
“Os homens ricos têm mais de 500 hectares sem produzir nada. Enquanto isso, há jovens agricultores que não têm terra. Os jovens agricultores aqui, para conseguir terra, precisam comprá-la. E é a um valor muito alto para os congoleses”, protesta.
O objetivo da organização para o futuro é o de distribuir alimentos em escolas e entregar para mulheres com filhos recém-nascidos.
Para ampliar o trabalho, sentem falta de infraestrutura para enviar os produtos agrícolas para Kinshasa.
As dificuldades e as potências da agricultura familiar são compartilhadas em encontros internacionais de movimentos sociais. Nesses encontros, Blanco Kiyongo conheceu o trabalho do Movimento Sem Terra (MST) do Brasil.
“Conhecemos o MST e desejamos desenvolver relações com os camaradas para nos beneficiar de sua experiência, pois eles já têm muitos anos de atuação e mais experiência do que nós. O MST é uma organização muito grande na mobilização de massas e trabalha com práticas de agroecologia, protegendo a soberania alimentar”, elogia Kiyongo.
O Pan-Africanismo como arma de luta
Inspirado em Patrice Lumumba, quem Blanco Kiyongo considera como o maior herói nacional e um dos principais líderes pan-africanos da história, a organização faz parte de redes pan-africanistas no continente.
Ele acredita que há a necessidade de uma consciência política entre africanos e pessoas da diáspora para que não se tornem vítimas da política do Ocidente.
“Recentemente, acompanhei Ibrahim Traoré [presidente interino de Burquina Fasso], que ficou tão decepcionado. Não porque os americanos apontaram ele, mas porque os americanos usaram um negro para combatê-lo. É isso que vivemos. Existem aqueles que combatem o pan-africanismo, e vocês verão que são pessoas negras, são africanos que estão contra o pan-africanismo”.
Desde que chegou ao poder em 2022 por meio de um golpe de estado, Traoré se afastou da França, antigo colonizador de Burkina Fasso, se aproximou da Rússia, e tem adotado medidas de fortalecimento das relações com os países vizinhos, em especial Níger e Mali. Os três países construíram um passaporte unificado.
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Blanco Kiyongo acredita que o pan-africanismo é, acima de tudo, uma postura política. O agricultor pensa ser necessário despertar a mentalidade do africano, e que os seus direitos sejam reconhecidos a nível mundial.
“O pan-africanismo não quer dizer que queremos voltar às roupas tradicionais, às roupas que nossos antepassados usavam. No pan-africanismo, não dissemos que vamos boicotar as línguas internacionais. Dizemos apenas que queremos cooperação ganha-ganha com a África”.
Para essa conquista, Blanco Kiyongo afirma que a diáspora africana é fundamental para dar suporte às lutas dentro do continente e visibilidade aos ataques sofridos por países como a RDC.
“Não podemos continuar lutando sem a diáspora. Eles devem nos apoiar. Por quê? Porque estamos na África, somos os mais expostos. Nossos líderes são amigos da direita. Quando a diáspora nos apoia, isso nos fortalece porque sabemos que eles não vão nos tocar. Porque eles sabem que, se nos tocarem, a diáspora vai reagir e divulgar isso ao nível mundial”, finalizou.