As regiões e unidades militares de São Paulo que mais mataram durante o período dos Crimes de Maio, há 20 anos, permanecem como as mais violentas. É o que mostra o levantamento inédito da Alma Preta: na capital e na Baixada Santista, os batalhões das regiões com mais mortos durante aquelas semanas de 2006 são os mesmos que lideram o ranking de letalidade policial hoje.
Os números de mortos da capital se concentraram na Zona Leste (Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio Vilela), na Zona Sul (Capão Redondo e Jardim Ângela) e na Zona Norte (Freguesia do Ó, Taipas e Brasilândia) da cidade. Os mesmos distritos acumulam, historicamente, os piores índices de violência, precariedade habitacional e abandono do poder público.
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O levantamento foi produzido a partir de dados da Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo sobre os crimes de maio de 2006 e da metodologia do projeto “Os 9 que Perdemos”, desenvolvida pela pesquisadora e antropóloga Desirée Azevedo, do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp).
A metodologia do CAAF cruza duas fontes oficiais do estado de São Paulo: os boletins de ocorrência de execuções divulgados pela Secretaria de Segurança Pública e os registros publicados pelas próprias polícias (militar e civil) no Diário Oficial. O cruzamento permite relacionar as delegacias de polícia (DPs) e as áreas de atuação da Polícia Civil com as da Polícia Militar e, assim, identificar os batalhões presentes nas regiões com maior número de mortes decorrentes de intervenção policial.
Segundo essa metodologia, tais mortes são atribuídas a determinados batalhões a partir do critério de responsabilidade territorial e institucional. Essa escolha se baseia no decreto 63.784/2018 do governo do Estado, que define que cada batalhão tem jurisdição sobre um território específico e, sendo assim, responde pelo que ocorre dentro dele.
“Se a gente for olhar a série histórica, dá para entender que os momentos de queda são absoluta exceção”, afirma Desirée Azevedo. Para a pesquisadora, os dados revelam uma continuidade que atravessa governos: os mesmos territórios e os mesmos batalhões seguem concentrando os maiores índices de letalidade policial do estado.
Letalidade policial em maio de 2006
Na Zona Leste da capital, a região dos distritos de Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio Vilela, que corresponde ao 38º Batalhão de Polícia Militar — 55º DP (1ª CIA), 49º DP (2ª CIA) e 69º DP (3ª CIA) — teve o maior número de mortos durante os Crimes de Maio.
Essa mesma região ocupa hoje o segundo lugar no ranking de letalidade policial da capital com 270 mortes cometidas por policiais entre 2013 e março de 2026.

Durante os Crimes de Maio, o 18º Batalhão, que abrange Freguesia do Ó, Brasilândia e Parada de Taipas, somou nove mortes. Ao longo da série histórica de 2013 a 2026, consolidou-se como o 5º batalhão mais letal da capital, com 170 mortes, uma média de 13 mortes por ano.
O 18º Batalhão carrega um histórico de violência para além dos Crimes de Maio. Em 2007, um grupo de encapuzados assassinou seis jovens perto do Escadão Olga Benário, na Brasilândia.
Um ano depois, o coronel José Hermínio Rodrigues, responsável por investigar a chacina, foi assassinado. Suas conclusões apontavam agentes do Estado como autores das mortes, e ele havia começado a mapear a atuação de um grupo de extermínio dentro do próprio batalhão, conhecido como os “matadores do 18”.
Ao lado de outro grupo de extermínio, os matadores do 18 foram responsabilizados por mais de 150 mortes cometidas entre 2006 e 2010, segundo relatório da Polícia Civil divulgado em 2011.
De todas as mortes ocorridas durante os crimes de maio de 2006 na capital, 21 registradas no centro de São Paulo estão sob responsabilidade do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
O órgão é responsável por investigar a autoria dos crimes, não por registrá-los: esse papel cabe às delegacias das áreas. Por isso, sua circunscrição não corresponde a nenhum batalhão da Polícia Militar nas divisões territoriais estabelecidas pela própria corporação.
Esses 21 casos, portanto, não puderam ser associados a nenhum batalhão específico.
Padrão se repete na Baixada Santista
Nas cidades da Baixada Santista, no litoral paulista, o quadro se repete. Os batalhões 21º BPM/I, que abrangem Cubatão, Bertioga e Guarujá; o 39º BPM/I, em São Vicente; e o 6º BPM/I, em Santos, foram os responsáveis pela maior concentração de mortes tanto no período dos Crimes de Maio quanto atualmente.
Os três batalhões concentram uma letalidade muito superior à do 29º, que abrange as cidades de Itanhaém, Mongaguá e Peruíbe, e à do 45º, da cidade de Praia Grande.
Impunidade é “carta branca”
Ainda que, durante os últimos 20 anos, o estado de São Paulo tenha passado por diferentes governadores e secretários de segurança pública, a letalidade policial continuou sendo utilizada como forma de responder às questões de segurança pública, como explica Desirée:
“Dentro do escopo da violência policial, cometida como resultado da atuação policial, seja diretamente, seja de uma maneira encapuzada… essa violência vai se estabelecer, enfim, sobre os mesmos lugares, sobre os mesmos territórios. […] Você pode ter períodos que se mata mais, períodos que se mata menos, legalmente, né? Então, eu não… eu chego a considerar que isso seja uma efetiva mudança de política pública.”

Edson Telles, professor de filosofia política da Unifesp e vice-coordenador do CAAF, acredita que os Crimes de Maio e a falta de responsabilização dos policiais ou assassinos incentiva esse tipo de prática.
“Funciona como autorização. Isso é uma carta branca”.
Para romper com esse ciclo de violência, ele acredita que o primeiro passo é o reconhecimento de que o Estado brasileiro é um violador de direitos humanos.
“A gente precisa discutir o assunto a partir da constatação de que o Estado é violento e pratica terrorismo nos territórios pobres, pretos e periféricos. Não dá para escapar desse primeiro passo. Então, se a gente está em um fórum no Ministério da Justiça, não dá para discutir câmera corporal ou discutir dados sobre segurança pública se eu não partir desse princípio”, avalia Telles.
Áreas mais letais são as mais desiguais
Segundo o Mapa da Desigualdade publicado em 2025, a Brasilândia está entre os cinco piores distritos em homicídios, mortalidade infantil e risco habitacional.
Por exemplo: a expectativa de vida de um morador da Brasilândia é 68 anos, enquanto ela chega a 80 anos em Pinheiros, bairro nobre da Zona Oeste. O Jardim Ângela, na Zona Sul, registra 10,7 homicídios por 100 mil habitantes e 57% das famílias assistidas em situação de risco ou emergência habitacional.
No Capão Redondo, a velocidade média dos ônibus é a pior da cidade (15,4 km/h), dado que traduz, em quilômetros por hora, o quanto esses territórios ficam distantes do emprego formal e dos serviços públicos. São Rafael e São Mateus, na Zona Leste, têm mortalidade infantil acima de 15 por mil nascidos vivos e a taxa de gravidez na adolescência está entre as mais altas da capital paulista.
Os números não estão isolados da composição racial. A média da cidade de São Paulo é de 37,1% de pessoas negras, mas no Jardim Ângela, por exemplo, elas representam 60% da população. Na Brasilândia e no Capão Redondo, passam de 50%.
A sobreposição entre os piores indicadores sociais e a maior concentração de população negra é a expressão territorial do racismo estrutural, que define quem mora onde, quem acessa o quê e quem, infelizmente, morre mais cedo.
Mudanças depois de 2006
Desde 2013, o 16º batalhão, no Campo Limpo, ocupa o topo do ranking de letalidade policial na capital. No segundo lugar do ranking, vem o 38º batalhão, na Zona Sul. Essa é a mudança mais significativa em relação ao mapa de 2006.

Ausente entre os mais letais durante os Crimes de Maio, ele passou a concentrar boa parte das mortes por ação policial nos anos seguintes. Para a antropóloga Desirée Azevedo, pesquisadora do CAAF, essa mudança se explica, entre outros fatores, pela chegada do PCC a Paraisópolis a partir de 2003, o que transformou profundamente a dinâmica criminal da região.
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Até então, a favela era controlada por uma liderança local que mantinha o tráfico de drogas fora do território e proibia roubos no entorno. Uma espécie de ordem violenta, mas estável, que reduzia a presença policial ostensiva.
Com a chegada do PCC e a guerra que se seguiu entre 2003 e 2006, os índices de homicídio na região subiram drasticamente. “Essa dinâmica que a gente tem até hoje de operações policiais permanentes em Paraisópolis é algo que começa neste período e vem desde então”, explica Desirée.
“Ali no território tem uma mudança muito flagrante da dinâmica criminal local, e é isso que faz com que tenha uma uma subida”, complementa a antropóloga.
Em 2019, o 16º batalhão foi responsável pelo Massacre de Paraisópolis, quando nove jovens morreram durante uma operação policial no Baile do DZ7. Encurralados em uma viela, eles morreram asfixiados.
Baixada Santista: anos diferentes, mesmas mortes
As mortes causadas por policiais na Baixada Santista durante os Crimes de Maio foram analisadas pelo CAAF em relatório apresentado em 2018. O estudo fez uma análise pericial sobre o corpo das vítimas para determinar como as pessoas foram assassinadas.
O discurso oficial, apresentado pela polícia, é de que houve confrontos. O relatório do CAAF, contudo, apresenta o contrário, com a maioria das 60 mortes na Baixada Santista com tiros na cabeça ou no peito e disparos próximos de cima para baixo, características de execuções.
“Todos esses fatores juntos indicam que na maioria dos casos há um grande indício de que ocorreu a execução e o indício forte de que não foi confronto”, conta Telles.
A pesquisa teve também uma novidade para academia no Brasil, com a criação por parte da Unifesp da categoria de “pesquisador social”. O objetivo era incluir as mães nos estudos — como a líder do movimento Mães de Maio Débora Maria da Silva. O grupo é formado por mães que tiveram seus filhos assassinados durante o massacre.
Ela ficou responsável por fazer o trabalho de campo, conversando com as outras famílias que perderam entes queridos durante o massacre.
“Eu falei que queria participar na base, fui pra base e fiz um contato com a galera”, recorda Débora Maria.
Ela acredita na existência de um formato de “Operação Vingança” presente na Baixada Santista. Sempre que um policial é morto, aguarda-se por uma investida contra pessoas moradoras das periferias da região.

“A gente já tem essa cultura aqui na Baixada. Depois que matam um policial, matam 10 ou 12 nossos”, explica a ativista.
Desde a pesquisa, outras chacinas aconteceram na Baixada Santista. Entre os mais recentes exemplos dessa cultura está a Operação Escudo, iniciada depois da morte de um policial da Rota, em 28 de julho de 2023. Como resposta, a polícia matou 28 pessoas em poucos dias na Baixada Santista, a maioria com o mesmo perfil dos Crimes de Maio de 2006, ou seja, homens jovens negros.
Outro exemplo foi a Operação Verão, que terminou com a morte de 56 pessoas em 2024.
Relembre os Crimes de Maio
No início de maio de 2006, 59 agentes públicos, a maioria de profissionais de segurança, foram mortos e a responsabilidade foi atribuída à facção criminosa PCC. Em seguida, policiais passaram a executar moradores das periferias da Baixada Santista e da capital do Estado de São Paulo.
Ao todo, cerca de 505 civis foram mortos ao longo do mês de maio. Segundo familiares, a maior parte dos assassinatos foram cometidos por grupos de extermínio formados por policiais.
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Débora Maria da Silva, que perdeu o filho Edson Rogério, de 29 anos, acredita que o que aconteceu em maio de 2006 se tornou um método padrão para as policiais agirem no Brasil.
“A gente vê um modelo padrão muito contundente dos modus operandis. E não é só no estado de São Paulo. O padrão de atuar foi importado para o resto do Brasil. E deu certo porque nos crimes de maio se pôde matar mais de 600 pessoas”, afirmou. Depois de 20 anos, nenhum policial foi preso pelos massacres no estado de São Paulo.
Edição: Camila Rodrigues da Silva.