Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), divulgado nesta segunda-feira (11) no México, revelou que meninas e adolescentes da América Latina dedicam quase o dobro do tempo de seus pares do sexo masculino ao trabalho doméstico e ao cuidado de outras pessoas.
O relatório do UNICEF foi apresentado às vésperas da abertura da XVI Conferência Regional sobre a Mulher, que será conduzida pela presidente do México, Claudia Sheinbaum.
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A análise, realizada na Argentina, Chile, Colômbia, México e Uruguai, aponta que adolescentes do sexo feminino destinam, em média, 2,25 horas por dia a essas tarefas, enquanto meninos investem 1,3 hora. Em famílias em situação de pobreza, a desigualdade se intensifica: meninas chegam a dedicar pelo menos 14 horas a mais por semana a afazeres domésticos do que meninos.
Segundo o diretor regional do UNICEF para a América Latina e o Caribe, Roberto Benes, as jovens “assumem responsabilidades domésticas de forma desproporcional”, o que limita seu acesso a empregos formais e impacta negativamente o desempenho escolar.
A diretora regional da ONU Mulheres, María Noel Vaeza, destacou que os cuidados não remunerados — que envolvem crianças, idosos e pessoas enfermas — “constituem uma das principais barreiras à igualdade de gênero”.
Na última quinta-feira (7), a Corte Interamericana de Direitos Humanos declarou que o cuidado é um direito a ser garantido pelos Estados. A decisão estabelece que pessoas que desempenham tarefas não remuneradas devem ter acesso progressivo a garantias mínimas de seguridade social.
Situação no Brasil: desigualdade racial e de gênero
Dados do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção a Adolescentes no Trabalho (FNPETI), elaborados a partir da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, entre 2016 e 2019, de 70% a 75% das crianças e adolescentes envolvidos no trabalho infantil doméstico no Brasil eram negras.
A concentração varia por região: 50,7% no Sul, 65,3% no Sudeste, 71,2% no Centro-Oeste, 74,9% no Nordeste e 89,3% no Norte. O levantamento também aponta que, em 2016, 90% das crianças e adolescentes nessa atividade eram meninas, percentual que caiu para 85% em 2019, mas que segue refletindo o padrão de divisão sexual do trabalho e a desigualdade de gênero.
O FNPETI destaca que o trabalho infantil doméstico reproduz o modelo em que cabe às meninas a responsabilidade por tarefas de cuidado e manutenção da casa, perpetuando um ciclo de desigualdade.