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Entre a vida e o lixo: histórias de resistência em meio aos resíduos

“Eu trabalho com o que é invisível: o lixo e o corpo periférico na cidade. Transformo os dois em monumento”, afirma o multiartista guarulhense, Dono Julian
Imagem mostra bairro periférico em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Imagem mostra bairro periférico em Guarulhos, na Grande São Paulo.

— Mateus Fernandes

20 de fevereiro de 2026

Em Guarulhos, a segunda maior cidade do estado de São Paulo, o lixo não é apenas um subproduto do consumo: é também um espelho do abandono. Em meio ao descarte, surgem histórias que desafiam o silêncio institucional com criatividade e solidariedade. Em territórios onde o lixo faz parte do cotidiano, brotam narrativas de reinvenção, criação e dignidade.

A história de comunidades como Vila Edi, Parque São Rafael, Cabuçu e Pimentas revela como o lixo, quando reciclado pela potência popular, pode virar ferramenta de luta

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Reconstrução e permanência: Vila São Rafael

A favela de São Rafael ganhou notoriedade após um incêndio em 2020 destruir 18 casas. Sem apoio do poder público, moradores se organizaram em mutirões e doações para reconstruir 14 moradias. A luta pela permanência continuou em 2022, quando a comunidade enfrentou uma ordem de reintegração de posse movida pela empresa ISA CTEEP. “Foram cinco anos para construir isso aqui”, desabafou uma moradora.

O caso virou documentário, exibido na 8ª Mostra Guarulhense de Cinema, evidenciando como o direito à moradia é disputado entre o concreto e o abandono.

Economia circular e solidariedade: Vila Edi

Na Vila Edi, histórias de abandono se entrelaçam às de resistência. A coleta de lixo irregular é frequente, e moradores denunciam que os caminhões raramente circulam nas ruas mais estreitas. Em resposta, surgem redes de solidariedade e iniciativas autônomas

Um exemplo é o projeto de reaproveitamento de materiais recicláveis desenvolvido por moradoras da região para produção de artesanato e decorações. A iniciativa gera renda e promove educação ambiental: “A gente vende, paga escola pro filho, e ainda ensina a criançada a respeitar o que sobra”, relata uma integrante do projeto.

Esses exemplos não são casos isolados: revelam um padrão de criatividade popular diante da ausência do Estado. Guarulhos ainda sofre com a baixa presença de políticas públicas de fomento à cultura e à economia circular. Segundo a Lei Orçamentária Anual de 2023, o município destinou R$ 25,8 milhões à Secretaria de Cultura, o que representa menos de 0,4% do orçamento total da cidade — o equivalente a cerca de R$ 19 por habitante, valor inferior à média nacional.

Em comparação, cidades como Osasco chegam a investir mais de R$ 40 per capita em cultura. Quando comparado ao impacto social dos projetos liderados por moradores, o número revela um desequilíbrio entre os recursos públicos e as potências locais.

Arte e educação como regeneração

O Beco do Robin, no bairro Parque Santo Antônio, se tornou um exemplo de transformação urbana a partir da arte. Criado em 2020 pelo artista Robson Ferreira (Rob Urso), o espaço antes tomado por lixo e entulho hoje abriga mais de 70 murais grafitados, além de eventos culturais e feiras comunitárias, mostrando como a expressão artística pode regenerar territórios estigmatizados.

O projeto EmpoderArte – EcoArte 2025, contemplado pela Lei Aldir Blanc e financiado pela Funcultura Guarulhos, estimula artistas da cidade a criar obras a partir de resíduos sólidos, abordando sustentabilidade, espiritualidade e feminismo negro. Durante o programa, os residentes participam de oficinas e encontros formativos sobre arte, ecologia decolonial e educação artística, culminando em exposições em três importantes espaços culturais de Guarulhos. A iniciativa transforma o descarte em material de expressão e conscientização, reforçando a arte como ferramenta de emancipação e resistência.

O multiartista Dono Julian também se destaca nesse cenário. Autodidata, ele transforma resíduos sólidos em esculturas, instalações e performances. Em 2023, suas obras — corpos em tamanho real feitos com sucata — denunciaram exclusão social e racismo ambiental em exposições e ruas da cidade. Julian ainda ministra oficinas para jovens da periferia, especialmente nos bairros Cumbica, Pimentas e São Rafael, promovendo o direito à criação a partir do que foi descartado.

A Juventude Lixo Zero Guarulhos (JLZ-G), criada em 2019, é outro exemplo de resistência coletiva. O grupo realiza oficinas em escolas, mutirões de limpeza e campanhas de conscientização. Em 2022, a JLZ-G articulou ações em parceria com cooperativas e catadores autônomos para fortalecer a coleta seletiva nos bairros periféricos, promovendo educação ambiental e engajamento comunitário.

Juntas, essas iniciativas mostram que a arte e a ação coletiva não apenas ocupam espaço, mas regeneram territórios, mobilizam a comunidade e fortalecem laços sociais, transformando o lixo em instrumento de resistência e criação nas favelas e periferias de Guarulhos.

Essa atuação se faz ainda mais necessária quando se observam os dados: segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), 90% de todo material reciclado no Brasil é coletado por catadores, e apenas 7,5% estão vinculados a cooperativas. Em Guarulhos, há cerca de seis cooperativas formalizadas, conforme dados da Prefeitura (2023), mas o número de catadores informais é significativamente maior. A coleta seletiva cobre oficialmente 100% do território, mas o apoio logístico e financeiro às iniciativas autônomas ainda é insuficiente.

Quando o poder público falha, a criação popular resiste. Guarulhos precisa reconhecer, financiar e proteger esses agentes culturais e ambientais — não como improviso diante do abandono, mas como estratégia permanente de justiça e reconstrução. Entre o descaso e a dignidade, a vida entre o lixo segue sendo uma reinvenção diária, feita de mãos que insistem em construir um amanhã possível.

Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras  do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.

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  • Especialista em Justiça Climática, com foco na interseccionalidade em territórios periféricos urbanos, é formado em Comunicação Social e possui especialização em Gestão de Projetos. Atuou na formulação do Plano Plurianual 2024–2027 e é fundador do InfoPerifa, iniciativa que articula comunicação popular e educação climática a partir das periferias.

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