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Mais de 60% das famílias em favelas convivem com insegurança alimentar

Pesquisa em 900 domicílios no Rio de Janeiro e em Pernambuco revela combinação entre fome, excesso de peso infantil e barreiras de acesso a alimentos em territórios urbanos
Imagem de uma criança segurando um prato de comida. A secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Lilian Rahal, apontou que lares chefiados por mulheres negras são os mais afetados pela insegurança alimentar.

Uma criança segurando um prato de comida

— Agência Gov/Via Secom

13 de abril de 2026

O estudo “Ambientes alimentares em favelas: percepção sobre o acesso aos alimentos de moradores de favelas brasileiras” revela que 60,7% das famílias que vivem em favelas brasileiras enfrentam algum grau de insegurança alimentar. 

A pesquisa do Instituto Desiderata ouviu 900 domicílios no Complexo da Maré e Caramujo, no Rio de Janeiro; e em Coque, em Pernambuco.

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Os dados apontam uma contradição crescente entre a presença simultânea da fome e do excesso de peso entre crianças, fenômeno conhecido como dupla carga da má nutrição. Entre as crianças de 5 a 10 anos, 34,7% apresentam excesso de peso, sendo mais de 21% com sobrepeso e 12,95% com obesidade.

A maioria das pessoas ouvidas pela pesquisa é do sexo feminino (89%). A idade média é de 35,6 anos. Mulheres pretas e pardas representam 81,32% das entrevistadas. 

O ensino médio completo aparece como escolaridade de 34% das participantes. Donas de casa somam 44% do total. O levantamento também mostra que 78% das entrevistadas não realizam refeições fora de casa.

Leia mais: IBGE: 70% das famílias com algum nível de insegurança alimentar são chefiadas por pessoas negras

Preço e acesso físico como barreiras

A alimentação nesses territórios é condicionada por fatores estruturais. O preço dos alimentos aparece como a principal barreira. 

Cerca de 43% dos entrevistados afirmam que itens in natura, mesmo disponíveis, não são economicamente acessíveis. Alimentos ultraprocessados são mais presentes e consumidos com frequência.

O acesso físico também representa um entrave. Segundo o levantamento, 33% dos moradores levam mais de 30 minutos para chegar ao principal local de compra de alimentos. 

No Caramujo, 60% dos respondentes levam mais de 30 minutos para chegar aos locais de compra. Entre os entrevistados, 58% fazem o trajeto a pé. Na Maré, 78,27% vão até o principal local de compra de alimentos a pé.

A dependência de comércios locais e supermercados reforça a configuração de territórios classificados por especialistas como “pântanos alimentares”, com abundância de produtos não saudáveis, e “desertos alimentares”, com escassez de opções nutritivas.

Leia mais: Mudanças climáticas aumentam insegurança alimentar e desnutrição na América Latina, aponta relatório

Alimentação escolar e cozinhas comunitárias

A pesquisa aponta desigualdades no acesso à alimentação escolar. No bairro do Coque, em Pernambuco, 91,67% das crianças estão matriculadas em creches ou escolas públicas, mas apenas 16,33% almoçam na escola. 

No mesmo território, 23,83% dos respondentes estão em insegurança alimentar grave.

A desinformação sobre equipamentos públicos de segurança alimentar também aparece nos dados. 
No Caramujo, 82,85% dos entrevistados desconhecem a existência de cozinhas comunitárias, solidárias ou restaurantes populares.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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