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Refrigerantes: como a indústria adoece os mais pobres e descumpre o direito à alimentação saudável

Especialistas ouvidos pela Alma Preta alertam que refrigerantes prejudicam a saúde, aumentam desigualdades e revelam que uma alimentação saudável é um direito, não uma escolha individual
Ilustração reforça os riscos do consumo de refrigerantes.

Ilustração reforça os riscos do consumo de refrigerantes.

— Daniel Pereira/Alma Preta

16 de outubro de 2025

“Mesmo praticando exercícios, comecei a não me sentir bem porque minha alimentação era cheia de refrigerantes e fast food”, conta o funcionário público Paulo Cezar dos Santos Sobreira, 45 anos, morador do Rio de Janeiro. 

Apesar de manter hábitos esportivos desde jovem, ele reconhece que sua rotina alimentar era inadequada. Ao passar a trabalhar à noite, os hábitos se agravaram: “comia fast food e tomava refrigerante durante todo o turno”.

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Os exames médicos apontaram um quadro de hipertensão e evidenciaram que, apesar da aparência saudável, o consumo de ultraprocessados — como refrigerantes, inclusive os sem açúcar, e outros alimentos industrializados — pode comprometer seriamente a saúde.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda atenção ao consumo de açúcares livres, presentes em refrigerantes, sucos industrializados e doces. O ideal é que eles não ultrapassem 10% das calorias diárias, com benefícios adicionais quando ficam abaixo de 5%. 

Na prática, uma lata de refrigerante já pode conter mais açúcar do que o recomendado para o dia, o que reforça a importância de dar preferência à água e a outras bebidas naturais.

Paulo lembra que, embora a mudança na dieta e o uso de medicamentos tenham sido essenciais, “já se passaram alguns anos e ainda carrego algumas sequelas”. O relato de Sobreira reflete uma tendência nacional. 

Segundo análises feitas por pesquisadores cim base em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, o consumo de ultraprocessados ainda é menor entre pretos (17,7%) e pardos (17,8%) do que entre brancos (18,6%), mas cresce entre a população negra, com aumento de 2,04 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. 

A elevação é ainda maior entre pessoas indígenas e moradores de regiões de menor renda — como nordeste, norte e áreas rurais. As análises dos pesquisadores também indicam que maior escolaridade está associada à redução no consumo de ultraprocessados (-3,30%), mostrando a relação entre educação, renda e escolhas alimentares.

O funcionário público Paulo Cezar dos Santos Sobreira. Foto: Acer vo Pessoal

Muito além da escolha individual

A professora Cibele Henriques, de 43 anos, mãe solo e atípica, que também mora no Rio, confirma os impactos dessa realidade em sua vida. “Eu tive um tumor na tireoide e precisei retirá-la por causa da doença de Hashimoto. Tudo que é ultraprocessado acelera o ataque das células”, diz. 

O consumo frequente desses produtos também impactou a gestação da segunda filha, Maria Fernanda, hoje com sete anos, que nasceu com intolerância à lactose. Para Cibele, o desafio vai além da alimentação individual, é estrutural. 

Nos bairros onde viveu, a oferta de frutas, verduras e legumes era limitada, o que a obrigava a recorrer a supermercados e produtos industrializados por uma questão de praticidade. 

“Durante muito tempo fui mãe solo e minha alimentação era muito padronizada, com macarrão, nuggets e outros ultraprocessados. Depois da cirurgia, mudei por sobrevivência, mas é difícil”, revela. 

A professora Cibele Henriques. Foto: Acervo Pessoal

A empreendedora e moradora do Jardim Keralux, uma comunidade na Zona Leste de São Paulo, Janaina Reis, de 51, conta que ao perceber problemas intestinais da filha, Nichole Reis, que hoje tem 22, reduziu o consumo de ultraprocessados e notou melhorias significativas. 

Reis também relata como o retorno ao consumo de refrigerantes na casa da mãe impactou sua própria saúde. “Comprávamos três ou quatro vezes por semana e chegamos a consumir dois litros em um único dia. Quando tentamos parar de uma vez, sentimos sintomas de abstinência, como dor de cabeça e irritabilidade”. 

Assim como Cibele, Janaina também destaca que o acesso a frutas, legumes e verduras na periferia de São Paulo é limitado e caro, o que reforça a dependência de produtos industrializados. Além disso, defende que a propaganda desses alimentos associa-os à praticidade e status, dificultando escolhas mais saudáveis.

O que esses casos evidenciam — impactos do consumo excessivo de ultraprocessados na saúde e na vida familiar — encontra respaldo no Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde.

O guia reforça a importância de priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, grãos, carnes e ovos, e de reduzir ao máximo ultraprocessados — refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo. 

O documento ainda alerta que esses produtos são nutricionalmente desbalanceados, prejudicam o prazer de cozinhar, a vida social e a sustentabilidade ambiental. Ele propõe ainda a moderação no uso de óleos, gorduras, sal e açúcar e incentiva resgatar o valor do preparo caseiro e das refeições compartilhadas.

Nichole Reis ao lado da mãe, a empreendedora Janaina Reis. Foto: Acervo Pessoal

Pântanos e desertos alimentares: quando o território define o prato

A Rede Ajeum, coletivo de nutricionistas e estudantes negros, utiliza os conceitos de pântanos e desertos alimentares para explicar as desigualdades no acesso à comida. Os desertos alimentares são áreas com pouca oferta de alimentos in natura ou minimamente processados, geralmente em bairros empobrecidos, onde o acesso a frutas e verduras exige longos deslocamentos ou altos custos.

Já os pântanos alimentares são regiões dominadas por ultraprocessados baratos, fortemente impulsionados por estratégias de marketing voltadas às periferias. Para a rede, esses territórios revelam uma injustiça alimentar, marcada por escolhas impostas e pela exposição deliberada das populações negras à má alimentação.

A indústria alimentícia tem papel central nesse cenário. “O preço dos ultraprocessados é menor, tornando-os a opção mais viável para famílias negras que enfrentam privação material. Mas essa dinâmica não é neutra: é resultado de políticas que subsidiam commodities industriais em vez da agricultura agroecológica”, afirma o coletivo.

A Ajeum também alerta para a substituição das feiras e quitandas, historicamente mantidas por famílias negras, por supermercados e atacadões que priorizam produtos ultraprocessados. Esse processo aprofunda a perda de autonomia alimentar e rompe laços comunitários.

Além disso, a instalação de indústrias em comunidades e a desapropriação de territórios quilombolas agravam o problema. A contaminação de solos e águas, somada à violência e ao empobrecimento, restringe ainda mais o acesso a alimentos frescos e saudáveis — perpetuando desigualdades raciais e ambientais no sistema alimentar brasileiro.

Refrigerantes zero não são inocentes

A nutricionista da ACT Promoção da Saúde, Vitória Moraes, explica que os ultraprocessados, incluindo refrigerantes tradicionais e zero açúcar, comprometem a saúde por conterem aditivos e corantes associados a doenças metabólicas e até ao câncer. 

“Mesmo sem açúcar, o refrigerante zero tem substâncias nocivas, como o corante caramelo e os adoçantes artificiais, e não oferece fibras, vitaminas ou minerais essenciais”, afirma. A especialista destaca que esses produtos concentram açúcar, gordura e sódio em níveis elevados, além de aditivos químicos que alteram processos metabólicos. 

Moraes também aponta o papel da publicidade no estímulo ao consumo, especialmente entre populações de menor renda. Segundo ela, a indústria “cria desejo ao associar produtos a valores sociais, como felicidade familiar e sucesso, e a ícones da cultura popular, como o futebol”, o que amplia o impacto entre grupos em vulnerabilidade.

O mestre em Nutrição Clínica, Lucas Alves, reforça que refrigerantes zero contêm menos açúcar, mas continuam prejudiciais. Ele explica que o consumo frequente pode alterar a microbiota intestinal — conjunto de microrganismos essenciais ao equilíbrio do corpo —, provocando inflamações e interferindo no metabolismo. 

Na prática clínica, o nutricionista observa efeitos significativos do consumo de refrigerantes tradicionais, como aumento da glicemia, ganho de peso e piora da saúde cardiovascular. Esses impactos, segundo ele, são mais acentuados na população negra, devido à vulnerabilidade genética e às desigualdades socioeconômicas.

Para comunicar esses riscos, o nutricionista defende uma abordagem informativa e não punitiva. “A conscientização deve vir sem demonização. Quem se sente atacado rejeita a mensagem, e isso impede o aprendizado”, explica. 

Alves lembra que a alimentação saudável é um direito, não uma escolha individual isolada. “Muitas pessoas consomem alimentos inadequados não por vontade, mas por falta de acesso e educação nutricional. Quando as condições econômicas definem a escolha, ela deixa de ser voluntária.”

Já a Rede Ajeum, reforça que o consumo de ultraprocessados impacta de forma desproporcional a população negra, especialmente em periferias. “Esses produtos são ricos em sódio, gorduras trans e açúcares derivados de alimentos transgênicos, com aditivos químicos que podem alterar processos bioquímicos e favorecer doenças como hipertensão e diabetes”, explica o grupo.

Para o coletivo, compreender esses impactos exige analisar toda a cadeia de produção. A indústria alimentar se estrutura historicamente sobre a exploração da população negra — da expropriação de terras indígenas e quilombolas para monocultivos industriais à segregação urbana que restringe o acesso a alimentos saudáveis. 

“Essa desigualdade molda o que chega ao prato: enquanto bairros planejados têm feiras e hortifrutis, comunidades negras convivem com a escassez e os ultraprocessados”, destaca a Rede.

O empobrecimento geracional agrava o problema. “A margarina substitui a manteiga, o óleo composto substitui o azeite, e o composto lácteo ocupa o lugar do leite integral. Não é uma questão de preferência, mas de contexto socioeconômico”, ressalta o coletivo. 

O consumo de ultraprocessados, segundo a rede, reflete desigualdades estruturais e se soma aos efeitos do racismo cotidiano, que causa estresse crônico, desequilíbrios hormonais e maior vulnerabilidade a doenças. Em contextos de insegurança alimentar, essa combinação potencializa o risco de hipertensão, diabetes e obesidade.

Tributação de bebidas açucaradas pode ter efeitos positivos na população negra

Experiências internacionais mostram que a tributação mais alta de bebidas açucaradas pode trazer ganhos concretos para a saúde pública, sobretudo entre populações negras.

Em Soweto, Joanesburgo, adolescentes e adultos reduziram o consumo em até sete vezes por semana após a criação do imposto sobre esses produtos, um reflexo direto de como políticas fiscais podem alterar padrões alimentares e prevenir doenças.

A nutricionista Vitória Moraes, da ACT Promoção da Saúde, defende que o Brasil siga o mesmo caminho. Para ela, taxar produtos não saudáveis e regular a publicidade deve ocorrer nos moldes das políticas de controle do tabaco. “Uma alimentação equilibrada não depende apenas da vontade individual, mas de condições estruturais”, afirma.

Essas condições, segundo Moraes, passam pela superação dos desertos alimentares, onde o acesso a frutas e verduras é limitado e os ultraprocessados dominam as prateleiras. 

Nesse contexto, a reforma tributária aprovada pelo Senado é vista como uma oportunidade de transformação. O texto prevê a criação de uma cesta básica, com isenção de impostos, para um grande conjunto de alimentos, a maioria, saudáveis,e a criação de um Imposto Seletivo sobre produtos prejudiciais à saúde, como refrigerantes, tabaco e bebidas alcoólicas. 

Além da tributação, Moraes e o pesquisador Lucas destacam a importância de fortalecer políticas que ampliem o acesso a alimentos saudáveis. Lucas propõe a redução de impostos sobre produtos in natura e o incentivo a redes que conectem pequenos produtores e consumidores, garantindo alimentação mais nutritiva e sustentável.

A Rede Ajeum reforça essa visão e aponta a necessidade de políticas que regulem e taxem o marketing de ultraprocessados, direcionando os recursos arrecadados para a promoção de alimentos saudáveis. Segundo a rede, programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) têm papel estratégico ao garantir a compra de alimentos frescos produzidos por agricultores familiares e quilombolas.

Essas ações se conectam à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSPN), considerada essencial para reconhecer o racismo como determinante social da saúde e da alimentação. 

A efetivação dessa política, somada a medidas tributárias e de incentivo à produção local, é vista como um caminho para fortalecer a segurança alimentar e nutricional da população negra no país.

Latas de refrigerante em uma fábrica.
Latas de refrigerante em uma fábrica. Foto: Sameer Al-Doumy/AFP

Campanha e manifesto buscam reduzir consumo de ultraprocessados 

A campanha Mamata dos Refrigerantes, da ACT Promoção da Saúde e Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, chama atenção para os benefícios fiscais concedidos às grandes indústrias de bebidas açucaradas no Brasil. Enquanto empresas do setor acumulam lucros e vantagens tributárias, o país gasta cerca de R$ 3 bilhões por ano no Sistema Único de Saúde (SUS) com doenças relacionadas ao consumo excessivo desses produtos. 

O movimento defende que essa distorção seja corrigida com a aplicação de um imposto seletivo que desestimule o consumo e reduza os impactos sobre a saúde pública. 

A proposta está alinhada à reforma tributária, que prevê a criação de tributos sobre produtos nocivos, como refrigerantes, cigarros e bebidas alcoólicas. A ideia é que o valor arrecadado possa ser revertido em políticas de prevenção e promoção da saúde. 

Segundo a campanha, um imposto bem estruturado pode gerar efeitos positivos em várias áreas. Além de diminuir a ingestão de açúcar e prevenir doenças, contribuiria para aliviar os gastos do SUS, incentivar hábitos alimentares mais saudáveis e fortalecer programas voltados à saúde, educação e sustentabilidade. 

Já o Manifesto em Defesa da Saúde na Reforma Tributária, lançado por mais de 100 organizações da sociedade civil, especialistas e ex-ministros, pede pela implementação de um Imposto Seletivo robusto sobre produtos como tabaco, álcool, bebidas açucaradas e apostas eletrônicas (bets), visando reduzir o consumo desses itens e, consequentemente, diminuir as doenças e mortes associadas.

A reforma tributária brasileira, iniciada com a Emenda Constitucional 132 de 2023, criou o Imposto Seletivo, destinado a desestimular o consumo de produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. 

Em 2024, foram regulamentados os produtos sujeitos a essa tributação, incluindo os mencionados acima. O próximo passo é a definição das alíquotas, etapa crucial para o sucesso dessa política pública.

Estudos demonstram que a elevação das alíquotas desses produtos pode gerar receitas significativas, estimadas em até 41 bilhões de dólares anuais na América Latina e Caribe, recursos que poderiam ser direcionados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e outras políticas públicas. Além disso, a redução do consumo desses itens contribuiria para a diminuição das doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por 75% das mortes no Brasil.

O Manifesto conclama os poderes Executivo e Legislativo a estabelecerem alíquotas eficazes, alinhadas às melhores práticas internacionais, para garantir benefícios à saúde pública e à sustentabilidade econômica do país.

Esta reportagem é resultado de uma parceria da Alma Preta com a ACT Promoção da Saúde e Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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