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Há 227 anos, a Revolta dos Búzios reuniu camadas populares em defesa da independência e da abolição

Em 12 de agosto de 1798, Salvador foi cenário de um movimento liderado por negros, artesãos e soldados que reivindicaram fim da escravidão, igualdade e autonomia política
Praça da Piedade, em Salvador. Cenário da execução dos condenados à morte pela Revolta dos Búzios.

Praça da Piedade, em Salvador. Cenário da execução dos condenados à morte pela Revolta dos Búzios.

— Reprodução/Instituto Búzios

12 de agosto de 2025

Nesta terça-feira (12), completam-se 227 anos da eclosão da Revolta dos Búzios, também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates. O movimento, ocorrido em Salvador em 1798, foi um dos mais expressivos levantes populares contra a Coroa portuguesa no Brasil colonial, reunindo soldados, alfaiates, artesãos, pequenos comerciantes, libertos e escravizados. 

Inspirados pelos ideais iluministas e pelas revoluções norte-americana, francesa e haitiana, os revoltosos defendiam a independência da Bahia, a instauração de uma república e o fim da escravidão, com igualdade de direitos para todos.

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A ação mais marcante ocorreu na madrugada de 12 de agosto de 1798, quando panfletos manuscritos foram espalhados pelas ruas e igrejas de Salvador conclamando a população a se unir pela liberdade. 

Em um deles, lia-se: “Animai-vos, povo baiense, que está para chegar o tempo feliz da nossa liberdade, o tempo em que todos seremos irmãos, o tempo em que todos seremos iguais”. Esses textos pediam a derrubada do domínio português e a criação de uma república baiana independente, na qual não haveria distinções de cor ou condição social.

Contexto econômico e político motivaram a mobilização

O contexto da revolta remonta a um cenário de crise econômica e social na Bahia no final do século XVIII. Após a transferência da capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, a região perdeu importância política e econômica, enfrentando queda nas receitas e dificuldades no comércio. 

A situação foi agravada pelo aumento no preço dos alimentos, pela pesada carga tributária e pela escassez de produtos básicos. Artesãos, pequenos comerciantes, soldados e trabalhadores pobres, em sua maioria negros livres e escravizados, formavam a base social mais atingida pelas dificuldades.

Lideranças, articulação e repressão

O movimento foi liderado por figuras como João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens. Estes líderes, de origens humildes, atuaram lado a lado com indivíduos instruídos, como o cirurgião e jornalista Cipriano José de Figueiredo Barata, que ajudou a articular redes políticas e a difundir ideias iluministas. 

As reuniões aconteciam em espaços discretos, como lojas maçônicas e pontos de encontro de intelectuais e artesãos. Além da propaganda escrita, o grupo planejava um levante armado com apoio de soldados, visando tomar o controle da cidade, libertar escravizados e proclamar a independência. A expectativa era reunir centenas de apoiadores, mas a falta de recursos militares e a vigilância colonial limitaram as ações.

A repressão foi rápida. No mesmo dia da panfletagem, autoridades coloniais iniciaram investigações que resultaram em dezenas de prisões. Ao todo, 41 pessoas foram detidas e 33 levadas a julgamento. O processo judicial resultou na condenação à morte de quatro líderes — João de Deus, Manuel Faustino, Lucas Dantas e Luís Gonzaga — executados em 8 de novembro de 1799, na Praça da Piedade, em Salvador. 

Outros participantes receberam penas como banimento, prisão ou castigos físicos, especialmente os escravizados. Réus de classes sociais mais altas foram poupados das penas mais severas.

Legado e representações midiáticas

Apesar da derrota, a Revolta dos Búzios deixou um legado duradouro. A Fundação Cultural Palmares aponta que o movimento se consolidou como marco nas lutas pela liberdade e igualdade racial, inspirando movimentos abolicionistas e republicanos no século XIX e influenciando a Independência da Bahia, em 1823.

A Fundação Cultural Palmares aponta que o movimento se consolidou como marco nas lutas pela liberdade e igualdade racial, inspirando movimentos abolicionistas e republicanos no século XIX e influenciando a Independência da Bahia, em 1823.

Para comemorar os 474 anos de Salvador, a Alma Preta e o Sesc São Paulo lançaram, em 2023, um documentário que explica a Revolta dos Búzios e aborda sobre a peça “Uma Leitura dos Búzios”, espetáculo produzido pelo SESC SP, que narra a revolta através da musicalidade, movimentos e diálogos com as raízes afro-brasileiras. 

Em 2024,  também foi lançado nos cinemas brasileiros o documentário “1798 – A Revolta dos Búzios“, que resgata a influência iluminista da Revolução Francesa (1789) no planejamento do levante. Confira o trailer.

A obra é fruto de uma leitura feita pelo cineasta Antonio Olavo do “Autos da Devassa”, um documento com mais de duas mil páginas que cobre um período de agosto de 1798 a novembro de 1799 e conta com depoimentos de mais de 70 pessoas envolvidas na revolução.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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