Dados do Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2025, do Ministério da Saúde, mostram que pessoas negras passaram a representar a maioria dos diagnósticos e das mortes relacionadas ao vírus, embora o número de novos casos de HIV no país tenha permanecido estável nos últimos anos.
Em 2024, o país registrou 39.216 novos casos de infecção pelo HIV, número próximo ao de 2023, quando houve 38.222 notificações. Apesar da estabilidade, o perfil da epidemia mudou ao longo da última década, segundo o documento.
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Em 2014, pessoas brancas concentravam 49% das notificações de HIV no Brasil. Dez anos depois, esse cenário se inverteu. Em 2024, pessoas pretas e pardas responderam por 59,7% dos casos registrados, enquanto a participação de pessoas brancas caiu para 36,8%.
A desigualdade também aparece nos indicadores de mortalidade. Em 2024, 62,2% das mortes relacionadas ao HIV/Aids ocorreram entre pessoas negras. Desse total, 51,3% foram registradas entre pessoas pardas e 10,9% entre pessoas pretas. Entre pessoas brancas, o percentual foi de 36,6%.
Para Antonio Flores, infectologista de Médicos Sem Fronteiras (MSF), os dados demonstram que a epidemia continua concentrada entre populações historicamente vulnerabilizadas.
“A epidemia não acabou. Ela continua avançando justamente sobre as populações que enfrentam mais barreiras a serviços de saúde, inclusive aquelas que têm menos acesso a inovações médicas e de prevenção ao vírus.”
Segundo o especialista, o avanço da ciência não tem sido acompanhado pela ampliação do acesso às tecnologias capazes de reduzir novas infecções.
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Novas tecnologias esbarram no acesso
A discussão sobre acesso à prevenção deve ocupar espaço central na 26ª Conferência Internacional sobre Aids, realizada no Rio de Janeiro até 31 de julho. Entre os temas do encontro está o lenacapavir, medicamento injetável apontado como uma das principais inovações no combate ao HIV nas últimas décadas.
O medicamento exige apenas duas aplicações por ano e apresenta eficácia próxima de 100% na prevenção da infecção pelo vírus. Apesar dos resultados, seu acesso permanece restrito.
Segundo Flores, a farmacêutica Gilead, detentora da patente, controla a distribuição do produto e define quais países poderão adquiri-lo. Atualmente, o tratamento custa cerca de US$ 28 mil (R$ 142,7 mil) por paciente ao ano nos Estados Unidos, embora estudos apontem que o custo de produção possa ficar abaixo de US$ 40 anuais (R$ 203).
Versões genéricas mais acessíveis devem chegar ao mercado a partir do próximo ano. No entanto, o acordo de licenciamento firmado pela empresa excluiu países como Brasil, Argentina, México e Peru, locais que participaram dos ensaios clínicos do medicamento.
Recentemente, a Médicos Sem Fronteiras lançou a campanha global “Duas doses. US$ 40. Em todos os lugares”, que cobra preços compatíveis com o custo de produção e acesso ampliado aos países de média renda.
“Quando falamos que cerca de 1,2 milhão de pessoas passaram a viver com HIV no mundo em 2025, estamos falando de vidas que poderiam ser protegidas por ferramentas eficazes de prevenção. O impacto da falta de acesso é calculado em vidas”, afirma Flores.
SUS negocia PrEP injetável
Enquanto o debate sobre o lenacapavir avança internacionalmente, o Ministério da Saúde prepara a incorporação de outra tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS): o cabotegravir.
O medicamento funciona como profilaxia pré-exposição (PrEP) de longa duração e precisa ser aplicado apenas uma vez a cada dois meses, substituindo o esquema atual de comprimidos de uso diário.
O Ministério informou que encaminhará o pedido de incorporação à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por avaliar a inclusão de novos tratamentos na rede pública. A decisão final caberá ao próprio Ministério da Saúde.
Segundo o ministro Alexandre Padilha, o governo negocia com a farmacêutica GSK os valores para aquisição das doses.
“Nós vemos com muita esperança as novas tecnologias de proteção prolongada, mas exigimos que elas sejam oferecidas, sobretudo aos sistemas nacionais de saúde, com os preços adequados, não preços estratosféricos”, declarou em coletiva de imprensa antes da abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids.
Atualmente, o SUS já oferece a PrEP oral, utilizada diariamente. Mais de 350 mil pessoas já tiveram acesso ao medicamento.
Estudos indicam que a versão injetável pode ampliar a adesão ao tratamento. Pesquisa da Fiocruz, realizada com 1,4 mil participantes em seis cidades brasileiras, apontou que 83% preferiram a aplicação injetável.
Entre os participantes, 94% compareceram aos serviços de saúde dentro do prazo previsto para receber as doses, e nenhum caso de infecção pelo HIV foi registrado durante o acompanhamento.
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