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Mães negras sustentam lares, enfrentam desigualdades e acumulam jornadas invisibilizadas

Organização CRIOLA reflete sobre o papel central dessas mulheres nas periferias e os desafios estruturais que atravessam maternidade, trabalho e sobrevivência
Uma mulher negra segurando um bebê no colo.

Uma mulher negra segurando um bebê no colo.

— Reprodução/Redes sociais

10 de maio de 2026

No Brasil, o Dia das Mães também é um convite à reflexão sobre quem sustenta, na prática, milhões de famílias. A organização de mulheres negras CRIOLA chama atenção para a realidade de mulheres que, majoritariamente nas periferias, lideram seus lares e acumulam responsabilidades que vão muito além da maternidade.

“A maioria dessas mulheres sai de casa muito cedo para trabalhar e só retorna à noite. São mães extremamente dedicadas, mas a sobrecarga impede que tenham o tempo necessário para acompanhar de perto a educação e os cuidados com os filhos”, afirma Dona Zica, associada da CRIOLA e liderança histórica do movimento de trabalhadoras domésticas no Brasil.

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Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres são responsáveis por 49,1% dos domicílios brasileiros. Entre esses lares, mulheres negras são maioria entre as chefes de família — realidade diretamente associada a maiores desafios socioeconômicos.

Cerca de 70% dos domicílios chefiados por mulheres negras vivem com renda de até um salário mínimo, segundo a Rede de Observatórios da Segurança. Além disso, 41,3% das mulheres pretas ou pardas estão abaixo da linha da pobreza, quase o dobro do percentual entre mulheres brancas, de acordo com o IBGE.

“A sobrecarga de trabalho vivida por mulheres negras não é individual — ela é resultado de uma organização social do cuidado marcada por desigualdades históricas. São mulheres que acumulam o trabalho doméstico não remunerado com atividades remuneradas, muitas vezes em condições precárias”, afirma Juliana Martins, assistente de coordenação em política pública e Incidência Política na CRIOLA.

Leia mais: Entre o colo e a realidade: como as mães transformam o cuidado em proteção contra o racismo

Grande parte dessas mulheres está inserida em ocupações precarizadas. No Brasil, 69,9% das pessoas que exercem trabalho doméstico remunerado são mulheres negras, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“O racismo estrutural organiza o mercado de trabalho de forma hierárquica no Brasil, concentrando mulheres negras nos postos mais precarizados e com menor proteção social. Isso não é coincidência, mas resultado de um sistema que limita o acesso a direitos”, completa Juliana Martins.

“Estamos falando, em grande parte, de mulheres negras, mães solo, que assumem sozinhas o papel de sustentar e cuidar da família. Muitas vivem nas periferias, sem emprego fixo e ainda são injustamente julgadas como se essa realidade fosse uma escolha”, destaca Dona Zica.

A rotina dessas mães inclui longas jornadas de trabalho, deslocamentos extensos e uma segunda jornada dentro de casa. Mesmo inseridas no mercado, mulheres pretas ou pardas dedicam mais tempo às tarefas domésticas e de cuidado do que outros grupos, segundo a PNAD Contínua do IBGE.

Esse cenário impacta diretamente a qualidade de vida dessas famílias, que enfrentam maior vulnerabilidade social e insegurança alimentar.

Para CRIOLA, reconhecer essa realidade é essencial para ampliar o debate sobre maternidade no Brasil. A organização destaca a urgência de políticas públicas que garantam dignidade, proteção e equidade para essas mulheres que sustentam, diariamente, suas famílias e territórios.

Leia mais: Lares chefiados por mulheres negras sofrem mais com insegurança alimentar

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