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Mineração avança em territórios indígenas e provoca ciclo de violações

Estudo detalha três casos de conflitos e conclui que a atividade na Amazônia viola sistematicamente leis vigentes, ignora consulta e aprofunda violência contra povos tradicionais
Esta vista aérea mostra uma área de mineração de ouro no município de Cachoeira do Piria, estado do Pará, Brasil, em 12 de novembro de 2025, durante a COP 30.

Esta vista aérea mostra uma área de mineração de ouro no município de Cachoeira do Piria, estado do Pará, Brasil, em 12 de novembro de 2025, durante a COP 30.

— Mauro Pimentel/AFP

2 de dezembro de 2025

A exploração mineral na Amazônia continua a gerar conflitos, violações de direitos e impactos severos sobre comunidades indígenas, segundo o relatório “Minando Direitos: Impactos da Mineração sobre os Povos Indígenas e o Clima”, lançado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém. 

O documento, elaborado pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) após um ano de pesquisa, conclui que o problema não é ausência de regulação, mas descumprimento sistemático das normas existentes.

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A análise apresenta três estudos de caso que demonstram um padrão de violação prévia aos ciclos de exploração, apontando manipulação de consultas, fragmentação social e risco ambiental. Para o MPI, a forma como a atividade acontece hoje inviabiliza qualquer noção de transição energética justa.

Três casos revelam a dimensão das violações

O primeiro caso examina o projeto da empresa Potássio do Brasil, que pretende explorar potássio em Autazes, município do Amazonas, área sobreposta à Terra Indígena Soares/Urucurituba. O estudo aponta que a empresa nega formalmente a existência do povo Mura, referindo-se a eles como “comunidades locais”. 

A consulta prévia realizada excluiu comunidades diretamente afetadas, o que o relatório classifica como processo fraudulento. Além disso, a pesquisa indica que o avanço do projeto tem aumentado conflitos internos e ameaças a lideranças, antes mesmo do início da exploração.

No Pará, a mineradora canadense Belo Sun Mining busca instalar a maior mina de ouro a céu aberto do país em região já impactada por Belo Monte. O estudo identifica que o licenciamento utilizou uma portaria que restringe a área de influência a um raio de 10 km, desconsiderando dezenas de comunidades que vivem diretamente dos rios e afluentes locais.

A Aldeia São Francisco, situada a apenas 500 metros da barragem de rejeitos, enfrenta risco iminente de remoção forçada. Para o relatório, o caso exemplifica como critérios administrativos inconstitucionais reduzem artificialmente a presença indígena.

Já na região do Mato Grosso e de Rondônia, o povo Cinta Larga, detentores de uma das maiores jazidas de diamante do mundo, convive com tensão permanente há mais de 20 anos. Parte do povo defende a exploração controlada pela comunidade; outra parte rejeita qualquer atividade. O caso aguarda decisão do STF e expõe as divergências internas resultantes da pressão minerária.

Recomendações para conter as violações

O relatório conclui que a mineração, no formato atual de prática, não traz resultado positivo para os povos indígenas e gera um ciclo de violações. Para enfrentar essa realidade, o estudo propõe um conjunto de medidas.

O documento defende a garantia da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) de forma ampla, anterior a qualquer ato administrativo, incluindo o direito de veto das comunidades. Além disso, o relatório recomenda a federalização do licenciamento de projetos com impacto em Terras Indígenas. Tais empreendimentos com histórico de violação de direitos precisam de exclusão da política de minerais estratégicos.

Outra recomendação central é o apoio à autodeterminação por meio de políticas de etnodesenvolvimento e da construção de Protocolos Autônomos de Consulta pelos povos indígenas. O relatório também cobra o fortalecimento da proteção territorial, acelerando a demarcação de terras indígenas, vista como condição fundamental para a defesa de seus direitos.


A publicação defende que não é possível uma transição energética justa ou justiça climática sem o pleno respeito aos direitos territoriais, políticos e ambientais dos povos indígenas, os principais guardiões das florestas. O estudo buscou se distanciar das promessas do setor minerário sobre como a mineração irá proporcionar desenvolvimento e bem-estar às populações indígenas no Brasil.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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