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‘Mudei o patamar da idade no judô’: Ketleyn Quadros celebra 30 anos na modalidade e mira em transição de carreira

Em entrevista, a medalhista olímpica falou sobre a nova fase e reforçou o caminho traçado por pessoas negras no esporte
A judoca Ketleyn Quadros durante entrevista coletiva durante as Olimpíadas de 2024, Paris, 5 de agosto.

A judoca Ketleyn Quadros durante entrevista coletiva durante as Olimpíadas de 2024, Paris, 5 de agosto.

— Solon Neto/Alma Preta

26 de setembro de 2025

Há pouco mais de um ano, a judoca Ketleyn Quadros fez história nas Olimpíadas de Paris ao integrar a equipe mista brasileira que conquistou a medalha de bronze na modalidade. Aos 37 anos, a atleta olímpica segue demonstrando resiliência e conversou com a Alma Preta sobre sua jornada até o pódio.

Ketlyn relembra a luta das mulheres para se inserir no mundo esportivo e conquistarem espaço em uma modalidade que, por muito tempo, limitou a presença e longevidade feminina.

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“Fui uma atleta que mudei o patamar da idade do judô, antigamente as mulheres de 27 anos eram consideradas muito experientes para continuar treinando e eu não. Fui para os Jogos Olímpicos de Paris com 37 anos e voltei medalhista”, declara.

Com um caminho construído com determinação e amor pelo esporte, a medalhista de Ceilândia (DF) foi uma das primeiras atletas a receber medalhas femininas no judô brasileiro, e se tornou a primeira mulher do país a conquistar uma medalha olímpica em um esporte individual, nos Jogos de Pequim, em 2008. Dezesseis anos depois, a judoca alcançou mais um feito histórico, reafirmando a força de sua trajetória olímpica.

“Isso mostra muito da minha identidade, da minha jornada e da minha luta. Faço o que acredito, o que amo e o que faz sentido para mim. O mais apaixonante no esporte é isso,  você se apaixona pelo processo e pela pessoa que se torna depois de conquistar uma medalha”, complementa.

Mas não foram apenas a disciplina e o talento que a levaram longe, os jogos olímpicos também se tornaram uma porta de entrada para visibilidade. Ketleyn destaca o apoio de programas como o Bolsa Atleta e o Bolsa Pódio, importantes para garantir suporte técnico e financeiro ao longo da carreira, principalmente para as mulheres.  

“Hoje a gente tem o Bolsa Pódio, que oferece um suporte adicional caso a atleta engravide. São seis meses a mais de apoio, o que permite que ela não precise apresentar resultados imediatos no ano seguinte, respeitando todo o processo gestacional. Acredito que estamos melhorando muito e criando, esses espaço”, conta.

Apesar da vitória, existem dificuldades enfrentadas por atletas de alto rendimento, que buscam resultados constantes para melhorar o ranqueamento.

“É sempre o resultado primeiro, até você ter esses resultados é um percurso muito difícil. Às vezes você tem toda a competência, mas não tem a estrutura para fazer uma viagem ou uma seletiva fora do seu estado e perder a chance de ter aquele título que te dê essa chance de melhorar a sua condição financeira”, explica.

Além disso, a atleta reconhece o apoio familiar como importante nesse processo, antes de conquistar patrocínios individuais, que só vieram após a medalha em Pequim.

Ketleyn Quadros com a medalha de bronze na categoria até 57kg feminino no judô, durante os Jogos Olímpicos de Pequim, na China, em 11 de agosto de  2008. (Foto: Toshifumi Kitamura/AFP)

Transição de carreira e investimento no esporte

Após competir em três edições dos Jogos Olímpicos e ser porta-bandeira na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio em 2021, Ketleyn traçou como meta a participação no Campeonato Mundial disputado em julho de 2025. Agora, a atleta planeja uma transição de carreira e não competir nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. 

“Estou nesse meu processo de transição de carreira, ‘destreinando’, que é uma coisa que quase ninguém tem a oportunidade. São quase 31 anos de judô,  mas uma vida toda de esporte. E assim,  graças a Deus sem cirurgias, então, não sei o que é parar nem por lesão”, afirma.

Em seu novo capítulo, fora dos tatames, Ketleyn  representa a Comissão de Atletas da Federação Internacional de Judô (FIJ). O interesse na nova função surgiu após sua atuação na Comissão de Atletas da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

“Entrei para o mundo real, que a gente só vivia em tatame. É muito legal saber que posso ser voz e representar os atletas em oportunidades e outras demandas.  Enquanto eles treinam, tem alguém defendendo na parte política, sendo representatividade nas competições principais, inspirando e trocando experiência, assim como muitos foram para mim”.

Depois de décadas dedicadas ao esporte, Ketleyn busca agora se reconectar com a família e encontrar um novo propósito. “Minha meta agora é encontrar uma nova função que brilhe meus olhos tanto quanto o judô brilhou. Fui muito realizada na minha modalidade e estou satisfeita com tudo que conquistei”, revela.

Força do judô brasileiro 

Até 1971, o judô era um esporte proibido para mulheres no Brasil, uma restrição que limitou o acesso e as oportunidades para o público feminino na modalidade. Décadas depois a presença das mulheres no tatame não apenas se consolidou, como se tornou símbolo de excelência.

Para Ketleyn Quadros, os resultados expressivos são prova da força do judô feminino brasileiro.

“Ter uma Olimpíada em Paris com equidade de gênero e com a delegação brasileira tendo mais mulheres do que homens na equipe foi uma conquista enorme. E é uma vitória que começa lá na base, nos clubes, nos projetos sociais, nas escolinhas, nas confederações. Isso é fruto de uma política pública que envolveu todas essas instâncias e exigiu investimento no feminino”, afirma.

O olhar para a própria trajetória também revelou o orgulho que a atleta sente de fazer parte dessa história. Com consciência da resistência feminina no judô, Ketleyn reverência aos atletas que pavimentaram o caminho para as novas gerações.

“Hoje parece absurdo, mas elas passaram por isso. Tínhamos atletas como Soraia André, Edinanci Silva, e toda essa geração que enfrentou esses obstáculos para eu ter a possibilidade de competir. Eu fui a primeira equipe júnior a viajar internacionalmente e essas atletas que citei iam para as Olimpíadas sem nunca ter pego no kimono de possíveis adversárias”, acrescenta. 

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  • Thayná Santana

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