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‘Não é feito por racismo’: médica explica diagnóstico tardio de sífilis congênita em gestantes negras

Mesmo com diagnóstico simples e tratamento pelo SUS, gestantes negras seguem sendo as mais afetadas pela sífilis congênita por causa do racismo estrutural.
Arte: Gênero e Número.

— Arte: Gênero e Número.

21 de novembro de 2025

Por Laila Nery, da Gênero e Número

A sífilis congênita é uma doença antiga, mas ainda hoje reflete um problema contemporâneo: o racismo estrutural na saúde. Mulheres negras são 63% das gestantes no Brasil, mas concentram 68% dos diagnósticos da enfermidade, segundo dados levantados pela Gênero e Número no Sinan, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde. Já as brancas são 33% das gestantes, mas 23% das diagnosticadas.

A disparidade, segundo a ginecologista e obstetra Larissa Cassiano, mestra pela USP em gestação de alto risco, não tem explicação técnica. Para ela, o problema não está na falta de informação, nem na complexidade do tratamento, mas no modo como o sistema de saúde decide que gestantes merecem atenção. “O pré-natal das mulheres negras tem mais erros de condução e de diagnóstico. É um reflexo do racismo que estrutura o cuidado e define quem é prioridade.”

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A médica explica que a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST), causada pela bactéria Treponema pallidum, que pode ser passada da gestante para o bebê durante a gravidez – e aqui está a sífilis congênita. O diagnóstico é simples e pode ser realizado em três momentos: na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto.

“Quando esse protocolo não é seguido, o diagnóstico acaba sendo feito tardiamente, muitas vezes apenas durante a internação para o parto”, alerta a médica. O tratamento, disponível pelo SUS, é feito na gestação com penicilina benzatina — a popular benzetacil — e, no caso do bebê, com penicilina cristalina.

Ainda assim, muitas mulheres não recebem o tratamento correto. Segundo Larissa, basta um pequeno descompasso entre o tempo do diagnóstico e o início das aplicações para que o caso seja considerado inadequado. “Se a mulher não completou as três doses ou não teve um intervalo mínimo de um mês antes do parto, é considerada inadequadamente tratada. E isso aumenta o risco de transmissão para o bebê”, diz. 

O resultado aparece nos números: três a cada quatro mulheres que fizeram pré-natal, mas só foram diagnosticadas após o parto, são negras, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do DataSUS (Sinan). Quando o diagnóstico e tratamento adequado ocorrem no pré-natal, o risco de transmissão é quase nulo. Ou seja: essas mulheres, além de não receberem o cuidado adequado, ainda perdem a chance de praticamente eliminar a transmissão para seus filhos.

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“É uma questão burocrática, mas também estrutural. Essas mulheres enfrentam mais barreiras para fazer o teste, receber o resultado e iniciar o tratamento a tempo.”

A médica defende que falar de sífilis congênita é falar de injustiça reprodutiva. O conceito se refere ao tratamento desigual dado a mulheres, sobretudo às negras, indígenas e periféricas, no acesso aos seus direitos sexuais e reprodutivos, resultando em riscos maiores de adoecer, morrer ou ter sua autonomia violada. Embora a sífilis não escolha cor, ressalta Larissa, o Estado define quem vai ser diagnosticada e tratada e quem não vai. 

Larissa explicou à Gênero e Número quais as etapas do diagnóstico, o tratamento e os desafios enfrentados por mulheres negras durante a gestação. A ginecologista e obstetra é graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha. Tem mestrado e especialização em Gestação de Alto Risco pela Faculdade de Medicina da USP, além de formação em ultrassonografia e parto humanizado. Atua com foco na saúde reprodutiva, autonomia feminina e combate à violência obstétrica.

O que é a sífilis e o que é a sífilis congênita?

Larissa Cassiano_ A sífilis é uma infecção sexualmente transmitida, causada pela bactéria Treponema pallidum. Ela pode ser passada de pessoa para pessoa durante relações sexuais ou da gestante para o bebê durante a gravidez: é o que chamamos de sífilis congênita.

Como é feito o diagnóstico da gestante durante o pré-natal? 

Larissa Cassiano_ O ideal é que o teste seja feito em três momentos: na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto. Quando isso não acontece, o diagnóstico só aparece durante a internação para o parto, o que reduz as chances de prevenção. Se a sífilis for diagnosticada e tratada antes, as chances de o bebê não nascer com a doença é de quase 100%.

O diagnóstico é feito por testes diretos (TPHA, que detecta a presença de anticorpos específicos para a infecção) e indiretos (VDRL, um teste de sangue simples e rápido para detectar a sífilis. A sigla é uma adaptação do inglês Venereal Disease Research Laboratory [Laboratório de Pesquisas sobre Doenças Venéreas, em tradução livre]. 

“Toda gestante deve realizar o teste logo na primeira consulta. Se a infecção for diagnosticada e tratada no início da gestação, o risco de transmissão para o bebê é quase nulo.”

Quais são os sintomas em mulheres e homens?

Larissa Cassiano_ A sífilis tem fases diferentes. Na fase primária, surgem lesões genitais, chamadas de cancro, que são úlceras fundas que aparecem cerca de 20 dias após a infecção e podem desaparecer espontaneamente. Na fase secundária, surgem manchas avermelhadas nas palmas das mãos e plantas dos pés. Já a fase terciária é a mais grave e pode causar complicações neurológicas e cardíacas.

Por que as mulheres negras são as mais afetadas?

Larissa Cassiano_ Sinceramente, se a gente pegar historicamente no Brasil, o pré-natal das mulheres negras é muito mais vilipendiado e tem mais erros de condução e diagnóstico. Essa variação, infelizmente, acontece por causa do racismo estrutural. O pré-natal das mulheres negras tem mais erros de condução e de diagnóstico. É um reflexo do racismo que estrutura o cuidado e define quem é prioridade.

“Acredito que o diagnóstico não é feito nessas mulheres pelo racismo. Não vejo outro motivo. O teste é simples, faz parte da rotina de qualquer pré-natal.” 

Mas existe também a burocracia para quem só tem acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS): se a gestante tinha exame negativo no início e só faz o novo teste mais tarde, pode não receber o resultado a tempo. E essa demora pesa ainda mais sobre as mulheres negras.

Como é o tratamento durante a gestação?

Larissa Cassiano_ O tratamento adequado para a gestante é feito com penicilina benzatina — a famosa benzetacil. É o único tratamento considerado efetivo para o feto. Em geral, são seis aplicações, duas por semana durante três semanas, mas a quantidade de aplicações depende também do diagnóstico da fase em que a sífilis foi diagnosticada. Existem outros medicamentos, mas hoje considero que não sejam efetivos para o feto.

O tratamento é considerado adequado quando a gestante faz pelo menos três doses e há queda de dois a três títulos no exame VDRL [já mencionado acima].

E se o tratamento não for feito corretamente?

Larissa Cassiano_ Se a mulher não completou as três doses ou não teve intervalo de pelo menos um mês antes do parto, é considerada inadequadamente tratada. Isso aumenta o risco de transmissão para o bebê.

Quais são os sintomas da sífilis congênita?

Larissa Cassiano_ Os sintomas dependem da fase da gestação em que ocorreu a infecção [do bebê]. O bebê pode apresentar alterações ósseas, convulsões e lesões de pele. Esses são os mais comuns.

Como é o tratamento do bebê?

Larissa Cassiano_ Diferentemente do tratamento para gestantes com sífilis, o tratamento do bebê é feito com penicilina cristalina. É um medicamento disponível no SUS e deve ser iniciado assim que houver diagnóstico positivo da mãe. Os testes já são feitos com o bebê ainda na maternidade, onde o tratamento também já é iniciado.

Qual é a importância de tratar os parceiros?

A principal é evitar a reinfecção. A sífilis não é uma infecção única. Se o parceiro ou parceira não se tratar, há risco de nova infecção e de manifestação dos sintomas novamente.

Esta reportagem foi originalmente publicada na Gênero e Número como parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Alma Preta, AzMina, Gênero e Número, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.

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  • Gênero e Número

    A Gênero e Número é uma associação sem fins lucrativos que produz, analisa e dissemina dados especializados em gênero, raça e sexualidade em diferentes formatos para apoiar a garantia dos direitos de mulheres, populações negra, indígena e LGBTQIA+.

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