No último sábado (12), o coletivo A Voz do Congo realizou no centro histórico de São Paulo um evento para celebrar os 65 anos da independência da República Democrática do Congo (RDC), completados em 30 de junho.
O evento, que ocorreu na sede do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), na Praça da República, propôs um intercâmbio cultural sobre o país mais populoso do continente africano.
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Com a presença das comunidades imigrantes haitiana, nigeriana, maliana, angolana e boliviana, a festividade buscou apresentar narrativas além da guerra na RDC, que já vitimou cerca de 6 milhões de pessoas.
Entre os participantes, havia um consenso sobre o objetivo do evento: demonstrar a riqueza da segunda maior nação africana e homenagear o responsável pela libertação do território congolês do colonialismo belga, Patrice Emery Lumumba.
À Alma Preta, três mulheres congolesas que estiveram nas mesas do evento compartilharam suas vivências e reflexões sobre a celebração dos 65 anos da independência da República Democrática do Congo.

Em comum, elas destacam o orgulho pela identidade cultural, a urgência de denunciar as violências que persistem no país e a importância de reconectar os laços históricos com o Brasil.
Claudine Shindanye, jornalista e ativista congolesa, conta que o país e sua população, mesmo em diáspora, possuem mais história para contar do que as que envolvem conflitos, guerras e sofrimento.
“A gente tem essa luta de pedir e de gritar para a verdadeira paz no nosso país. Queremos muito não só falar do sofrimento, do choro que a gente sempre chora todo tempo. A gente tem também coisas boas, muito boas”, afirma.
Shindaye, que foi mediadora em um dos debates, conta que congoleses e brasileiros compartilham raízes ancestrais, destacando que muitos africanos foram trazidos do Congo e de países vizinhos durante o período escravista.

“A beleza do Congo, a cultura, a educação, tudo isso faz um laço muito grande para a diáspora congolesa, por isso a gente também em comum com o povo brasileiro, também da América Latina, em tudo que posso falar”.
A advogada e palestrante Hortance Mbuyi fala sobre o significado profundo da celebração dos 65 anos da independência da República Democrática do Congo, enfatizando que o evento vai além de uma festa: é um ato político, cultural e espiritual.
Mbuyi destaca que, diante de uma guerra que já dura 30 anos, a comemoração funciona como um grito de socorro à comunidade internacional e ao Brasil, por atenção às violações de direitos humanos no país.

“Eu sou muito orgulhosa de mim mesma por estar aqui comemorando os 65 anos do meu país, mesmo longe da terra. Sessenta e cinco anos não são apenas uma festa. É um ato de despertar e lembrar as pessoas. É um movimento, na verdade”, destaca a jurista.
A militante e modelo Prudence Kalambay ressalta a conexão histórica entre Congo e Brasil, e reforça a importância de criar espaços de intercâmbio sociocultural entre congoleses e a população negra brasileira.
“Existem laços entre a RD Congo e o Brasil. Nessa mesa junto com os afro-brasileiros queremos construir um intercâmbio cultural”, completa.
Para a ativista, a celebração dos 65 anos da independência da República Democrática do Congo é, acima de tudo, um ato de resistência.
“Essa celebração é um símbolo de resistência também. Enquanto celebramos os 65 anos de independência, também enfrentamos um conflito extremamente violento”.

A Guerra na RD Congo
O coordenador do coletivo A Voz do Congo, Prosper Diganga, explica que o evento carrega um peso simbólico que vai além da comemoração.
O território congolês vive um conflito armado há cerca de 30 anos, focado na parte oriental do país. Até o momento, a guerra já registrou aproximadamente 10 milhões de mortes, além de deslocamentos forçados e violências contra os civis.
“Ao mesmo tempo que a gente comemora os 65 anos, passamos por um conflito muito violento. A gente pensa nas demais pessoas que já nos deixaram, nas 6 milhões de pessoas que já nos deixaram neste conflito”, aponta.
Diganga também denuncia o silêncio do governo brasileiro e da comunidade internacional diante do genocídio na RD Congo, destacando a disparidade entre o apoio a conflitos em países europeus e o descaso com a situação africana.
“Nós vemos um posicionamento muito firme do Estado brasileiro em relação a tudo que acontece em Gaza e em outros lugares do mundo, mas sobre nós, ao mesmo tempo, a gente vê um silenciamento, um apagão”.
O coordenador do coletivo ainda conta que o evento é um importante ato político das comunidades negras e latino-americanos imigrantes na capital paulista que, muitas vezes, sofrem com o racismo e a violência policial de modo desproporcional em relação aos imigrantes europeus.
“Nós temos um cenário que é bastante violento em relação aos imigrantes racializados aqui no Brasil, não somente africanos, mas também latino-americanos. E essa forma também de se politizar é uma mensagem ao Estado, de que nós, apesar de sermos imigrantes ou refugiados, somos pessoas que deixaram nossos país por vários motivos e podemos ser sujeitos de direitos”, completa.
Herói da RD Congo

O evento também saudou Patrice Emery Lumumba, figura central da luta congolesa pela independência. Por quase seis décadas, o território congolês foi dominado pela Bélgica, país responsável por um dos maiores massacres da história.
Sob o comando do rei belga Leopoldo II, entre o final do século 19 e início do século 20, estima-se que mais de 15 milhões de pessoas foram mortas, além dos milhares de escravizados e mutilados.
Lumumba, nascido em 1920, foi o fundador do primeiro partido político que defendia a independência total da República Democrática do Congo (RDC), alcançada na década de 1960. Ele também defendeu a independência de todos os países africanos e denunciou ativamente a exploração sistemática dos colonizadores europeus.
O herói nacional também foi primeiro-ministro da nação liberta, logo após o processo de independência. Após três meses no poder, seu governo foi derrubado e o líder foi morto por um pelotão de fuzilamento, numa região do sudoeste do Congo.