A presença de pesquisadores negros no comando de grupos de pesquisa no Brasil aumentou de forma expressiva nas últimas duas décadas, mas ainda está distante de refletir a composição racial do país. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), o percentual de líderes pretos e pardos passou de 8,1% em 2000 para 22,6% em 2023.
Apesar do crescimento, o número ainda representa menos da metade da proporção da população negra brasileira, que, segundo o Censo Demográfico de 2022, é de 55,5%.
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A pesquisa se baseou nos dados do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e mostra que cerca de 15 mil dos 66 mil líderes de grupos de pesquisa no país se autodeclaram pretos ou pardos.
Em todas as regiões e áreas do conhecimento, eles continuam sub-representados, mesmo em estados onde compõem a maioria da população. No Norte, onde negros são 76% da população, apenas 44,4% lideram grupos. No Nordeste, são 37,7%; no Centro-Oeste, 24,2%; no Sudeste, 15,1%; e no Sul, 7,8%.
Além dos líderes, aumentou também o número de grupos com ao menos um pesquisador negro: de 48,6% em 2000 para 89,6% em 2023. Para os pesquisadores do estudo, o avanço pode estar relacionado a políticas públicas como o Programa Reuni, criado em 2007, e a Lei de Cotas, em vigor desde 2012. Entre 2000 e 2023, os líderes negros passaram de 22,3% para 37,7% no Nordeste; de 10,2% para 24,2% no Centro-Oeste; e de 33% para 44,4% no Norte.
Desigualdade de gênero e raça na academia
Embora o número de mulheres participantes em grupos de pesquisa tenha crescido em todas as regiões, a desigualdade nas posições de liderança persiste. Em 2023, os homens pretos e pardos representavam 12,2% dos líderes de grupos; as mulheres negras, 10,4%. As taxas são mais baixas em áreas como engenharia aeroespacial e naval, onde ainda não há registro de mulheres negras no comando de grupos.
Nas ciências da vida, mulheres negras lideram em enfermagem (19,8%), farmácia (12,3%) e saúde coletiva (18,4%). Na medicina, homens negros representam 7% das lideranças, e mulheres negras, 9,2%. Em áreas como ciência da computação e engenharia nuclear, os percentuais masculinos subiram para 17,3% e 15,4%, respectivamente. No campo das humanidades, destaca-se a presença feminina negra em serviço social (25,7%) e economia doméstica (33,3%).
A pedagoga Débora Cristina Jeffrey, diretora da Faculdade de Educação da Unicamp, lidera um grupo de pesquisa desde 2014 e relata desafios enfrentados para consolidar o espaço acadêmico de sua equipe. “Mesmo assim, nos tornamos um ponto de acolhimento para estudantes negros”, afirma em nota.
Acesso a bolsas e financiamento
Entre 2005 e 2025, cresceu a participação de pretos e pardos nas bolsas do CNPq. Os pardos passaram de 14,1% para 27,5% nas bolsas de iniciação científica; de 13,9% para 26,6% nas de mestrado; e de 13,2% para 26% nas de doutorado. No mesmo período, entre os pretos, as taxas foram de 2,9% para 8,8% (iniciação científica); de 2,9% para 10,7% (mestrado); e de 2,8% para 9,5% (doutorado).
Mesmo com esses avanços, dados do grupo Parent in Science apontam que apenas 0,8% das bolsas de produtividade do CNPq são destinadas a mulheres pretas e 4,8% a pardas. Para os autores do estudo, a criação de políticas de acesso ao financiamento direcionadas a pesquisadores negros é o próximo passo necessário para equilibrar o sistema científico nacional.
Texto com informações da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).