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Quilombolas da América Latina e Caribe se unem por reconhecimento na agenda climática da COP30

A Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), coalizão criada por movimentos antirracistas em 2019, organizou ações da diáspora negra da América Latina e Caribe durante a COP30, em Belém, e recebeu a Alma Preta para uma conversa
Representantes da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol) seguram bandeira da organização quilombola, Belém, 12 de novembro de 2025

Representantes da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol) seguram bandeira da organização quilombola, Belém, 12 de novembro de 2025

— Solon Neto/Alma Preta

22 de novembro de 2025

Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Honduras, Peru, República Dominicana e Uruguai tiveram representantes quilombolas na COP30, em Belém, lutando pelo reconhecimento das comunidades afrodescendentes como protetoras do meio ambiente. Isso porque a CITAFRO, uma organização quilombola internacional, presente em 16 países da América Latina e do Caribe, levou uma comitiva de 20 pessoas à conferência.

A delegação se hospedou em duas casas no bairro do Guamá, na periferia da capital paraense, onde recebeu a Alma Preta para um café da manhã em uma quarta-feira ensolarada, na primeira semana do evento. Localizada em uma rua estreita, a hospedagem está três vezes mais perto da ilha do Combú — do outro lado do rio Guamá — do que da sede da COP30, a 6 km dali.

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A reportagem foi recebida pelo jornalista uruguaio Miguel Pereira, que apresentou, à mesa na cozinha — onde eram servidos açaí, tapioca, café, pão e frios —, os colombianos José Absalón Suárez e Darwin Torres, a brasileira Kátia Penha, o peruano Oswaldo Bilbao e o equatoriano Pablo de la Torre. Mais tarde, o colombiano José Luis Rengifro também se juntaria ao grupo.

Além dos países já mencionados, a organização representa grupos étnico-territoriais de Bolívia, Costa Rica, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá, Suriname e Venezuela. No Brasil, a principal representação é da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

Segundo informações da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), há cerca de 153,3 milhões de pessoas afrodescendentes latino-americanas e caribenhas, das quais 26 milhões são moradores de áreas rurais. Em contrapartida, apenas 5% das áreas habitadas pelas comunidades afrodescendentes são tituladas coletivamente.

A CITAFRO busca o reconhecimento dessas populações na preservação do meio ambiente com a garantia de financiamento climático e a consolidação de seus direitos territoriais.

Kátia Penha (à esquerda), ao lado de membros da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO) e do secretário de Políticas para Quilombolas, Ronaldo dos Santos (de rosa, no centro, à esquerda), em pavilhão na COP30, Belém, 14 de novembro de 2025
Membros da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO) e o secretário de Políticas para Quilombolas, Ronaldo dos Santos (de rosa, no centro, à esquerda), em pavilhão na COP30, Belém, 14 de novembro de 2025 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Participação e reconhecimento nas tomadas de decisão

Logo após o café e uma breve conversa sobre política e impressões acerca do Brasil, o grupo se reuniu nos fundos da casa em um quintal com a reportagem. Sob a brisa de ventiladores e o calor úmido de Belém, os membros da CITAFRO contaram mais sobre sua organização e objetivos.

Um dos integrantes mais animados do grupo, José Absalón Suárez, membro da coordenação da CITAFRO, mudou a expressão ao apontar a ausência de afrodescendentes das rodadas de discussão sobre o clima. “Estamos fora do planejamento e da tomada de decisões”, afirmou, acrescentando que o grupo se reconhece como “afrodescendente”.

A maior parte da delegação não recebeu credenciais oficiais de acesso à chamada Zona Azul, a principal e mais restrita área de decisões da COP30. A Alma Preta noticiou que o governo federal entregou apenas quatro crachás de acesso ao evento para a Conaq.

O colombiano José Absalón Suárez, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025
O colombiano José Absalón Suárez, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025 (Solon Neto/Alma Preta)

O grupo levou à COP30 cinco pontos para incidir durante a conferência: reconhecimento das comunidades quilombolas como protetoras do meio ambiente; financiamento climático e recursos para a preservação ambiental; busca por participação nas plataformas de discussão da COP sendo reconhecidos como afrodescendentes; fortalecimento das relações da CITAFRO com outros grupos; e reconhecimento da participação das mulheres afrodescendentes na proteção do meio ambiente.

Atualmente, a estrutura política da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) — que lidera as COPs — não tem um espaço oficial para afrodescendentes entre os segmentos da sociedade civil com acesso oficial de observadores das negociações.

Expectativas frustradas nos primeiros dias da COP30

Com o maior número de afrodescendentes no continente, o Brasil é visto como uma referência na luta contra o racismo na América Latina e no Caribe. A existência de um governo progressista no Brasil e do Ministério de Igualdade Racial aumentaram as expectativas das populações negras da região sobre a COP no Brasil.

Miguel Pereira, responsável pelo programa A Voz da Comunidade e coordenador da CITAFRO, mostrou-se decepcionado com o que havia sido apresentado pelo Brasil até aquele momento na defesa dos afrodescendentes. A expectativa está conectada com o perfil do presidente brasileiro. Lula é visto como líder de esquerda e com maior sensibilidade às discussões sobre racismo na comparação com seu antecessor.

“Não é o mesmo uma COP com Bolsonaro e uma COP com Lula”, ressaltou Pereira.

A expectativa dos quilombolas da CITAFRO também é reflexo das conquistas alcançadas na COP16 da Biodiversidade, realizada no ano passado em Cali, na Colômbia, quando a população afrodescendente foi reconhecida pela contribuição na conservação da diversidade biológica.

O peruano Oswaldo Bilbao, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025
O peruano Oswaldo Bilbao, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Para os integrantes da organização, isso ocorreu porque a vice-presidenta colombiana, Francia Marquez, colocou a agenda racial “debaixo do braço” e lutou pelo reconhecimento do grupo.

A partir de um pedido da Colômbia e do Brasil, os afrodescendentes foram reconhecidos no documento oficial do encontro pela primeira vez. O anúncio veio acompanhado da proposta de criação de um órgão permanente para tratar de assuntos relacionados aos povos indígenas e comunidades locais.

Para Pablo de La Torre, membro da Comarca Afroequatoriana do Norte de Esmeraldas do Equador, a COP deu maior reconhecimento aos povos indígenas na comparação com os quilombolas. “A COP30 vincula muito a Amazônia aos indígenas, durante todo o tempo”, afirmou. Para o grupo, o território também é negro e precisa ser visto dessa maneira.

O governo brasileiro adotou um tom de que essa seria a COP da implementação de processos, de menos planos ou previsões sobre o meio ambiente e mais de ações concretas. O vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou na segunda-feira (17) que essa seria a COP da “verdade” e da “implementação”.

O equatoriano Pablo de la Torre, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025
O equatoriano Pablo de la Torre, membro da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO, na sigla em espanhol), Belém, 12 de novembro de 2025 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Financiamento deve respeitar proporção e presença afrodescendente

Antes do início da COP30, o Brasil organizou o encontro da Cúpula dos Líderes, de 6 a 7 de novembro, para receber chefes de Estado de diferentes países. Durante o evento, o presidente brasileiro anunciou o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), uma proposta de captar recursos para proteção das florestas da Amazônia, do Congo e da Indonésia.

Para Kátia Penha, da Conaq do Espírito Santo, não há possibilidade de avanço real na diminuição do desmatamento sem a participação dos povos quilombolas na iniciativa.

“Não vale a pena criar um fundo se não estamos participando. O conselho do fundo precisa de representantes afrodescendentes. Queremos participar da governança desse fundo”, disse. 

A ativista quilombola Kátia Penha, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO), em entrevista à Alma Preta em uma casa de Belém, em meio à COP30, 12 de novembro de 2025
A ativista quilombola Kátia Penha, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e da Comissão Internacional de Povos Afrodescendentes (CITAFRO), em entrevista à Alma Preta em uma casa de Belém, em meio à COP30, 12 de novembro de 2025 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Segundo o site oficial do fundo, 20% de todo o recurso arrecadado deverá ser distribuído para as comunidades locais, tradicionais ou indígenas. Miguel Pereira acredita ser necessário que esse dinheiro seja distribuído de uma maneira proporcional com o tamanho de cada população.

“O financiamento tem que ser proporcional. Os afrodescendentes são 200 milhões de pessoas nas Américas. Então o financiamento tem que corresponder a isso. Os 20% não são suficientes”, afirmou.

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  • Solon Neto

    Cofundador e diretor de comunicação da agência Alma Preta Jornalismo; mestre e jornalista formado pela UNESP; ex-correspondente da agência internacional Sputnik News.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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