PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

‘Nos chamou de amaldiçoados’: vítima de racismo religioso, Babalorixá luta contra discriminação no interior de SP

Em entrevista à Alma Preta, o Babalorixá Ifàgbêmi relatou ter sido ameaçado de morte; entidade e lideranças religiosas se mobilizam para garantir direitos aos povos de terreiro
Um símbolo do orixá Oxóssi.

Um símbolo do orixá Oxóssi.

— Rafael Martins/AFP

17 de abril de 2026

Em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, um caso de violência motivada por racismo religioso se tornou um dos pivôs para uma mobilização pelos direitos dos povos de terreiro na cidade.

O caso aconteceu no dia 16 de março. Segundo o boletim de ocorrência, ao qual a Alma Preta obteve acesso, um homem identificado como Wellington Henrique Ambrosio Santos invadiu o Ilé Ègbè Orínmila Ifá do Babalorixá Ifàgbêmi, no Conjunto Habitacional Ana Jacinta, e ameaçou o líder religioso de morte. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O documento destaca que a vítima ligou diversas vezes para a Polícia Militar, pois o agressor tentou invadir o local para agredi-la. Mesmo sendo retirado posteriormente pelos agentes, o agressor continuou com as ofensas racistas. 

Leia mais: Racismo religioso: 74% dos líderes de religiões de matriz africana relatam ameaça ou destruição, diz pesquisa

Em entrevista à Alma Preta, o babalorixá relatou que o homem também atacou o portão do terreiro com pedradas e pauladas. 

“Ele dizia a todo tempo que iria nos matar e cortar nosso pescoço como se cortava os animais nessa ‘religião maldita’. Nos chamou de amaldiçoados, filhos do demônio, raça excomungada”, conta. 

Após a polícia atender a ocorrência, informa o líder religioso, o agente sugeriu que os praticantes da religião deveriam rever suas práticas em público. O policial também teria declarado que “depois que inventaram a tal da intolerância, tudo é intolerância”. 

“A pergunta é: quais medidas, diante não só dessa situação que aconteceu com a gente aqui na cidade de Presidente Prudente, mas como outros casos, serão tomadas daí para frente para que não aconteça mais com ninguém?”, questiona.

De acordo com uma reportagem do G1, Cinco dias após o crime, no dia 21, Wellington Henrique foi morto a tiros no mesmo bairro. Até o momento, nenhum suspeito foi identificado ou preso. 

Caso motiva combate ao racismo religioso na cidade

O advogado da Aliança Das Matrizes Ancestrais (AMA) Luciano Lobo, responsável por representar a vítima, conta que o crime ganhou grande repercussão e impulsionou a articulação de ações de combate à intolerância contra os povos de terreiros. 

“Estamos procurando apoio de alguns vereadores e já conseguimos apoio de alguns representantes de deputados. Pessoas do ramo também têm entrado em contato conosco. Temos a intenção de realizar mais eventos voltados ao público afro”, explica.

A Festa de São Jorge, marcada para ocorrer no dia 26 de abril, é um exemplo das ações elaboradas em conjunto com a organização. Segundo o defensor, o evento será um espaço de reivindicação dos direitos das religiões de matriz africana e de harmonia com outras crenças. 

Leia mais: ‘São cultos completamente diferentes, mas que se ligam hoje’, diz líder religioso sobre Dia de São Jorge e de Ogum 

A entidade é uma associação nacional de representantes de matrizes ancestrais integrada por casas de Umbanda, Candomblé, Quimbanda, entre outras. O grupo mantém atividades no estado de São Paulo e no Mato Grosso do Sul.

Camilo Hemerson, associado do AMA, relata que, após o caso, a entidade e as lideranças religiosas do Oeste Paulista se mobilizam para implementar o Fórum Interreligioso Municipal, instrumento que pode contribuir com as políticas públicas de proteção às religiões de matriz africana. 

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano