Perus, distrito da zona noroeste da cidade de São Paulo, concentra um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica do estado, sendo o Anhanguera o segundo maior parque municipal da capital, com cerca de 9,5 milhões de metros quadrados. Um projeto de instalação de incinerador de lixo na região coloca em risco a conservação ambiental da região e a saúde dos moradores, o que originou uma mobilização contra o empreendimento, que ganhou reforço com o movimento Incinerador de Lixo em Perus, não!.
O projeto intitulado “EcoParque Bandeirantes” é da Loga, concessionária responsável pelo cuidado de resíduos sólidos urbanos, como a coleta domiciliar, e está em fase de aprovação na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Nomeado como Unidade de Recuperação Energética (URE) Bandeirantes, está sendo vendido como uma “nova tecnologia” para tratar os resíduos sólidos, quando, na verdade, é uma tecnologia criticada em diversos países do mundo.
O movimento de moradores que se opõe ao projeto exige e reivindica a consulta pública junto à população local, onde Prefeitura de São Paulo e a concessionária Loga expliquem de maneira transparente seus objetivos.
Os moradores também querem a implantação das metas e objetivos do Plano de gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS) de São Paulo, que não avançaram de maneira consistente e não incluíram a instalação de incineradores, além de atenção da Cetesb para a reprovação do empreendimento diante de todos os problemas relacionados à saúde pública e ao meio ambiente.
A população esperava ter suas reivindicações ouvidas em uma audiência pública convocada pela prefeitura e pelo governo estadual para debater os impactos da instalação do incinerador de lixo. Contudo, o evento, ocorrido em 31 de março de 2026 no CEU PERUS, foi marcado pela exclusão dos moradores, que denunciaram um esquema de pagamento de figurantes para lotar a plateia do local com falas à favor do empreendimento.
Como resposta, o movimento de moradores realizou em 9 de maio uma audiência popular, com a participação de representantes de universidades, organizações socioambientais, movimentos populares, coletivos culturais e lideranças comunitárias.
O encontro buscou construir um espaço democrático de escuta à população, combinando análises técnicas com a participação direta de moradores da região. Foram abordados temas como licenciamento ambiental, incineração de resíduos, saúde pública, urbanização e o papel dos catadores de materiais recicláveis.
Leia mais: Moradores de Perus dizem ser excluídos de audiência sobre incinerador de lixo
Risco à flora local e aos animais em extinção
No parque Anhanguera, localizado em Perus, está a maior unidade de conservação da cidade, o Refúgio de Vida Silvestre (RVS), que protege tanto a fauna quanto a flora local, espécies ameaçadas de extinção, como aponta a própria Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente.
“Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela Loga mostra que a área de influência do incinerador pode afetar indiretamente o Refúgio da Vida Silvestre e todo o bairro de Perus, que pode sofrer principalmente pela poluição do ar”, afirma a engenheira e moradora do bairro, Sirlei Bertolini Soares, também membro do Conselho Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de São Paulo (Cades) e do Conselho da RVS Anhanguera.
A população alerta que a área onde se pretende implementar o incinerador de lixo é historicamente contaminada por gases tóxicos – principalmente metano e dióxido de carbono — representando alto risco ambiental.
“Construir um incinerador sobre ou próximo a um local com presença de gás inflamável como um aterro sanitário que ainda gera biogás metano — que é altamente inflamável e ainda pode estar acumulado no subsolo — é uma atividade potencialmente perigosa, criando riscos de explosão e incêndio em grande escala. Só poderia ser reutilizado com base em estudos técnicos que monitorem a qualidade da água e do solo”, alerta a química e moradora Thaís Santos, também cofundadora da Comunidade Cultural Quilombaque e conselheira da WWF-Brasil.

Risco de câncer e doenças crônicas
A exposição contínua a emissões de incineradores está cientificamente associada a diversos riscos à saúde, tanto para os moradores do entorno, quanto para os trabalhadores das instalações, especialmente para faixas etárias vulneráveis, como crianças e idosos.
“A liberação de poluentes tóxicos no ar, como dioxinas, furanos, metais pesados e partículas finas, têm alto potencial bioacumulativo, capazes de se acumular nos tecidos biológicos e causar efeitos crônicos. Óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre e compostos orgânicos são associadas a doenças respiratórias, como asma, bronquite crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica e infecções respiratórias recorrentes”, explica Thaís Santos.
Segundo a química, os metais pesados como mercúrio, chumbo e cádmio são associados a doenças neurológicas e cognitivas, como déficits de atenção, aprendizado e desenvolvimento neurológico e risco aumentado de doenças neurodegenerativas, como parkinson e alzheimer.
“As dioxinas e furanos, altamente cancerígenos, são subprodutos da queima de resíduos, principalmente plásticos e materiais clorados. Essas substâncias se acumulam no tecido adiposo humano e são de longa persistência no ambiente sendo associados ao câncer de pulmão, câncer de fígado, câncer de mama, leucemias e linfomas”, alerta Thaís.
Terras indígenas também estão em perigo
As Terras Indígenas do Jaraguá, dos povos Guarani Mbya, estão a aproximadamente sete quilômetros de distância de onde se pretende construir o incinerador. A população indígena, no entanto, não foi consultada.
De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a depender da localização da atividade ou empreendimento, outros órgãos, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), devem ser envolvidos no processo de licenciamento ambiental federal.
“Funai [deve ser envolvida] quando a atividade ou o empreendimento submetido ao licenciamento ambiental localizar-se em terra indígena ou apresentar elementos que possam ocasionar impacto socioambiental direto na terra indígena”, aponta resolução no site do Ibama.
Reciclagem e educação ambiental como solução
Além de Perus, há projetos de instalações de incineradores de lixo em outros dois pontos na cidade, sendo um deles em São Mateus (Zona Leste) e outro na Zona Sul da capital. Em São Mateus, onde há um projeto de implantação de incinerador pela empresa Ecourbis, e a tentativa de derrubar mais de 63 mil árvores, a população também vem se organizando na Frente Popular Contra Ampliação do Aterro de São Mateus. O Ministério Público pediu que a justiça impedisse a ampliação do aterro sanitário em São Mateus.
Segundo a química Thaís Santos, o modelo de incinerador não é circular nem sustentável e, a longo prazo, compromete a hierarquia de gestão de resíduos, que prioriza a redução, reutilização e reciclagem.
“A dependência da incineração para viabilizar energeticamente essas instalações pode perpetuar a geração contínua de resíduos e dificultar a transição para uma economia circular mais sustentável. Incineradores precisam de resíduos com alto poder calorífico para funcionar bem (plásticos, papel, borracha etc.) justamente os materiais mais recicláveis. Um retrocesso que desestimula alternativas mais sustentáveis, como reciclagem e compostagem, estagnando políticas nacionais de economia circular e de redução de resíduos sólidos”, aponta.
A Prefeitura de São Paulo recicla menos de 3% dos resíduos domiciliares. Essa porcentagem aumenta quando se inclui o serviço realizado por catadores de materiais recicláveis, profissionais que não recebem o devido pagamento pelo seu trabalho. Na compostagem, os valores são irrisórios diante do que poderia ser feito.
“A atual gestão não fez a lição de casa para reduzir a quantidade de resíduos encaminhados aos aterros sanitários. A cidade já estaria desviando mais de 70% se tivesse cumprido as metas de reciclagem e compostagem previstas no Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, instituído em 2014”, afirma a socióloga Elisabeth Grimberg, fundadora do Instituto Pólis, que atua desde 1989 em prol do reaproveitamento integral de resíduos, por meio da compostagem/biodigestão e reciclagem com integração socioeconômica das catadoras e catadores.
Leia mais: Viver entre o lixo: o racismo ambiental nas zonas de sacrifício de Guarulhos
Histórico de luta ambientais em Perus
Os moradores de Perus conviveram durante anos com diversos elementos prejudiciais à saúde, mas sempre reivindicaram melhores condições de vida reunidos em movimentos populares, inclusive criando instrumentos inovadores que se preocupam com justiça ambiental e social como o TICP Jaraguá-Perus-Anhanguera Território da Cultura e da Paisagem). Abaixo, um histórico de algumas lutas empreendidas pela população:
1979 – A comunidade organizada, durante campanha da fraternidade da igreja católica, cujo tema era natureza e meio ambiente, em Perus, tal campanha se baseou na poluição provocada pela emissão do pó de cimento produzido pela Fábrica de Cimento Portland Perus e ficou conhecida como “O pó de cimento esmaga a vida”, que buscava por respostas à falta da instalação de filtros em suas chaminés para diminuição dos poluentes.
1979 – Aterro Sanitário Bandeirantes foi inaugurado em 1979. Com cerca de 1.400.000 metros quadrados (ou140 hectares) recebeu durante 28 anos (de 1979 até 2007) aproximadamente 35 a 40 milhões de toneladas de resíduos urbanos/domésticos – cerca de 5 mil a 7 mil toneladas de lixo por dia nos períodos de pico. Um grupo de moradores de Perus fundou a associação Perus Unido pela Qualidade de Vida, que, juntamente com outras entidades e lideranças, durante anos, lutou pela desativação do lixão.
1988 – Em 1988, eclodiu um movimento que chegou a paralisar o tráfego dos caminhões de lixo que utilizavam as ruas do bairro para acessar o lixão. O movimento mobilizou toda a sociedade, até comerciantes financiaram faixas e apoiaram o movimento. O prefeito da época, Jânio Quadros, propunha a instalação de uma Usina de compostagem. O movimento foi vitorioso. Impediu a instalação da usina e foi criado um acesso para o lixão fora do bairro.
2001/2002 – Lixão +1 não! foi o nome do movimento que até hoje está na memória da população local. De forma amplamente debatido na comunidade, pelos moradores, comerciantes, igrejas, escolas etc , essa campanha denunciava a proposta da instalação de um novo aterro, próximo da Rodovia dos Bandeirantes e a quinhentos metros do Aterro Bandeirantes.
2003/2004 – Ameaça de instalação de aterro sanitário na Chácara Maria Trindade, distrito Anhanguera,que, graças à mobilização da comunidade, não aconteceu. Em seguida, nova mobilização ocorreu contra o projeto de implantação de aterro de biossólidos da Sabesp, quetambém não foi adiante por causa da luta da população que garantiu a permanência do Acampamento do Movimento Sem Terra – MST Irmã Alberta, até o presente momento no local.
2010/2011 – Grupos organizados realizam discussões sobre o Parque Linear Ribeirão Perus, projeto apresentado pela prefeitura que pretendia solucionar problemas das enchentes no centro do bairro.
2014 – Grupos organizados participaram dos debates sobre o Plano Diretor Estratégico da cidade de SP, propondo a criação do Território da Cultura e da Paisagem (TICP) Jaraguá-Perus-Anhanguera e do “Parque Luta dos Queixadas”, próximo à antiga Fábrica de Cimento Portland Perus, tombada pelo Conpresp.
2019 – Moradores do bairro participaram das discussões do Plano de Ações de Emergência para Barragens, por causa da represa de uma das pedreiras da região, atualmente desativada.
2025 – Moradores de Perus se organizam contra a instalação de um incinerador de lixo no bairro, previsto pela Loga no antigo Aterro Sanitário dos Bandeirantes.
2026 – Moradores intensificam a mobilização contra a instalação de incinerador. Durante Audiência Pública no CEU Perus, em 31 de março, imprensa e mandatos políticos denunciam esquema de pagamento de figurantes pró-incinerador.