Na Grande São Paulo, comunidades como Cabuçu e Vila N, em Guarulhos, convivem há anos com toneladas de lixo despejadas diariamente ao lado de suas casas. Operado por uma multinacional, o aterro sanitário CDR Pedreira é um dos maiores da América Latina e hoje simboliza um sistema que transforma bairros periféricos em zonas de sacrifício — áreas onde populações vulnerabilizadas são sistematicamente expostas a riscos ambientais e sociais em nome do lucro e de decisões políticas.
Nesses territórios, onde termina o asfalto e começa o descaso, a desigualdade se materializa no acúmulo de resíduos, na ausência de políticas públicas e no apagamento de direitos. Sob a falsa promessa de “progresso” e “desenvolvimento”, comunidades negras e periféricas são transformadas em depósitos de rejeitos, sem consulta prévia, compensação socioambiental ou garantia de dignidade. O caso do CDR Pedreira, instalado em área de proteção ambiental e cercado por casas, evidencia como o racismo ambiental e a negligência institucional estruturam escolhas que tratam certos corpos como descartáveis.
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A classificação do Cabuçu e da Vila N como zonas de sacrifício foi feita com base em três cruzamentos principais: proximidade física com um aterro sanitário de impacto regional, ausência de serviços públicos básicos e políticas de mitigação, e alta concentração de população negra (preta e parda), segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em áreas historicamente negligenciadas pelo poder público. A combinação desses fatores evidencia a operação contínua de violências ambientais racializadas.
“A comunidade do Cabuçu luta há anos para ter um posto de saúde decente, mas ganhou um aterro ampliado. Isso é política pública?”, afirma Heloisa Carvalho, 29 anos, moradora do Jardim Cabuçu. “Nos Pimentas, a doença não tem causa. Porque quando você adoece por viver no lixo, o laudo não fala disso”, relata um agente de saúde da região, sob anonimato.
Operado pela multinacional Veolia desde 2016, o CDR Pedreira recebe cerca de 5,8 mil toneladas diárias de resíduos domiciliares e industriais oriundos de nove municípios, incluindo a capital paulista. Em funcionamento há mais de 15 anos, o aterro ocupa parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Cabuçu, nos limites do Parque Estadual da Cantareira. Desde 2018, moradores denunciam a falta de consultas públicas adequadas nos processos de ampliação do empreendimento.
Na audiência realizada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) naquele ano, a convocação foi feita em cima da hora e em horário comercial — o que impossibilitou a participação comunitária, descumprindo normas estabelecidas pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), especialmente a Resolução nº 09/1987, que determina a obrigatoriedade de audiências públicas amplamente divulgadas e acessíveis quando se trata de empreendimentos de significativo impacto ambiental.
“A gente só foi avisado quando os caminhões começaram a circular mais, o mau cheiro ficou pior e o mato virou terra batida”, conta a moradora Heloisa.

Carências urbanas em Guarulhos
Ainda segundo o Censo 2022, Guarulhos tem cerca de 1,29 milhões de habitantes, dos quais 50,3% se autodeclaram negros (pretos e pardos). No distrito do Pimentas, com população estimada em 156 mil pessoas (Censo 2010), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,733, índice considerado alto, mas que contrasta com graves carências urbanas.
O Atlas da Vulnerabilidade Social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) classifica o município em nível “médio” de vulnerabilidade, que se eleva a “alto” nos eixos de moradia e saneamento — justamente nas áreas mais impactadas por aterros e ausência de serviços.
Embora Guarulhos registre 100% de abastecimento de água e 92,3% de coleta de esgoto, apenas 10,2% desse volume é tratado. Nos distritos periféricos dos Pimentas e do Cabuçu, de maioria preta e parda e marcada por extrema vulnerabilidade urbana, o tratamento é quase inexistente, em contraste com regiões centrais como a Vila Galvão, que apresenta IDH elevado e melhor infraestrutura.
Além disso, relatórios obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação) entre 2019 e 2023 apontam que a Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos não realiza cruzamentos territoriais entre morbidade e localização dos moradores nas proximidades do aterro.
A Vigilância em Saúde Ambiental, embora ciente do empreendimento, não identifica nem investiga possíveis correlações entre o aumento de doenças respiratórias e o fluxo constante de caminhões na região. Em paralelo, novos loteamentos seguem sendo aprovados pela Secretaria de Habitação em áreas próximas ao aterro, sem avaliações integradas de impacto ou medidas compensatórias
“Risco à saúde diretamente, a poluição dos rios, a inalação de gases tóxicos, fora a questão de saneamento básico onde isso é certamente um agravante”, alerta a catadora de recicláveis Leticia Gouvea, 31 anos.
Governo municipal não se manifesta
A reportagem questionou a Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos sobre a ausência de investigações ou medidas relacionadas aos impactos do CDR Pedreira. Até a publicação deste texto, não houve resposta.
O Atlas da Vulnerabilidade Social do Ipea reforça que áreas com maior concentração de população negra são justamente aquelas com piores indicadores de infraestrutura urbana — o que inclui saneamento básico, coleta de lixo regular, acesso à água potável e equipamentos de saúde. Esse padrão se repete no Cabuçu e na Vila Any, transformando o viver cotidiano em uma disputa por sobrevivência.
“O racismo ambiental inicia o seu impacto justamente na sentença que é dada para as favelas e periferias de negação do direito de coexistir com o meio ambiente”, afirma Thaynah Gutierrez, 26 anos, do Instituto Omó Nanã e da Rede por Adaptação Antirracista.
“Não acredito nesse lugar de ‘falta de políticas públicas’, porque a omissão e a escassez são uma decisão política. As zonas de sacrifício são projetadas para serem excluídas do orçamento, da participação social, e da própria ideia de dignidade.”
Esse apagamento é agravado por um silenciamento institucional contínuo. Moradores relatam que suas denúncias são ignoradas, desacreditadas ou simplesmente arquivadas. “Aqui ninguém pergunta quem vive. Só jogam o lixo e vão embora”, afirma uma liderança da Vila N. As estruturas do poder público falham sistematicamente em garantir escuta, mediação e resposta concreta para os conflitos ambientais nas periferias.
Além disso, a desarticulação entre secretarias e órgãos municipais impede respostas integradas. Enquanto a Secretaria de Meio Ambiente libera licenças, a da Saúde não investiga os impactos das atividades poluentes, como demonstrado em 2021, quando o bairro do Cabuçu registrou aumento de casos de doenças respiratórias, mas não houve nenhuma ação articulada da vigilância sanitária municipal.
Relatórios internos da Secretaria de Saúde, obtidos via LAI, sequer mencionaram a operação do CDR Pedreira como possível fator de risco. Ao mesmo tempo, a Secretaria de Habitação aprovou novos loteamentos próximos à área do aterro, sem diálogo com a Secretaria de Meio Ambiente ou qualquer avaliação integrada de impacto. Esse descompasso administrativo agrava a vulnerabilidade dos moradores, que seguem sem respostas enquanto os órgãos se eximem de responsabilidade conjunta.

Moradores são contra ampliação de aterro sanitário
Localizado em plena Área de Proteção Ambiental (APA) Cabuçu, nos limites do Parque Estadual da Cantareira — um dos principais remanescentes de Mata Atlântica do estado — o aterro sanitário CDR Pedreira é operado pela multinacional Veolia desde 2016 e recebe cerca de 5,8 mil toneladas de resíduos por dia, provenientes de nove municípios, incluindo a capital paulista. O projeto de ampliação prevê reduzir a distância entre o aterro e as residências locais para menos de 100 metros, o que tem motivado protestos de moradores de pelo menos nove bairros. Eles denunciam riscos à saúde e ao meio ambiente, além do descumprimento da função ecológica do território.
“A gente vive na beira de um parque e, mesmo assim, jogam lixo aqui como se fosse terra de ninguém”, afirma um morador do Jardim Monte Alto. Ambientalistas também alertam para o risco de contaminação do lençol freático e para o desequilíbrio da fauna silvestre da região, cada vez mais espantada pelo fluxo intenso de caminhões e pela degradação do entorno.
Os impactos das atividades poluentes se somam à expansão habitacional desordenada, que adensa áreas sabidamente insalubres e expõe mais pessoas a riscos ambientais. “Nosso bairro virou corredor de caminhão de lixo, mas ninguém vem aqui perguntar se a gente tá doente”, relata um agente de saúde que atua nos Pimentas.
As zonas de sacrifício da Grande São Paulo não são invisíveis — são projetadas pela lógica perversa que combina especulação territorial, racismo ambiental e descompromisso estatal. É o resultado de decisões políticas que ignoram bairros negros e periféricos e despejam sobre eles os piores impactos ambientais da cidade. O Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima, em elaboração pela Prefeitura de Guarulhos, pode ajudar a reverter esse cenário se priorizar regiões vulneráveis e integrar planejamento ambiental e justiça social.
A reavaliação da política de licenciamento ambiental e a integração entre as secretarias de Meio Ambiente, Saúde, Habitação e Planejamento Urbano são essenciais para que novas expansões em áreas vulneráveis incluam estudos de impacto, compensações socioambientais e escuta qualificada da população. A articulação entre levantamento epidemiológico, análise de risco ambiental e mapeamento de vulnerabilidade social é um passo necessário para incorporar a reparação ambiental ao planejamento urbano de forma duradoura.
Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.