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Rosimilck estava rendido quando foi morto por policial no Pará, avaliam peritos

Peritos apontam inconsistências na narrativa policial e reforçam a hipótese de que Rosimilck não representava ameaça quando foi morto.
A Alma Preta obteve imagens do cadáver e um vídeo gravado no quarto logo após a morte.

A Alma Preta obteve imagens do cadáver e um vídeo gravado no quarto logo após a morte.

— Reprodução

11 de maio de 2026

A investigação sobre a morte de Rosimilck Rick Maciel Amorim, jovem negro de 22 anos morto durante uma operação policial em Oeiras do Pará, em novembro de 2024, levanta questionamentos sobre a versão oficial apresentada pela Polícia Civil

Especialistas ouvidos pela Alma Preta afirmam que imagens do caso indicam que o homem já estava rendido e sob domínio dos agentes no momento em que foi morto.

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Rosimilck foi baleado dentro de casa após policiais invadirem o imóvel sem mandado judicial. A operação estava sob comando do delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha.

O policial civil responsável pelos disparos, o investigador Alysson Viana Guedes, alegou que o jovem teria reagido à abordagem e atirado contra os agentes, o que teria provocado a reação policial.

No entanto, imagens de câmeras de segurança contradizem essa versão. Os registros mostram Rosimilck sendo levado para um quarto por policiais, imobilizado com um golpe conhecido como “mata-leão”, e contido por pelo menos outros dois agentes.

Além disso, o processo não inclui procedimentos periciais considerados essenciais em casos de morte violenta, como exame de corpo de delito, perícia no local do crime e exame necroscópico completo da vítima.

Leia mais sobre o caso:

A Alma Preta obteve fotografias do corpo de Rosimilck já sem vida e um vídeo gravado no quarto logo após a morte. Profissionais da área pericial analisaram o material e apontaram inconsistências na narrativa da polícia, reforçando a hipótese de que a vítima não representava ameaça no momento de seu assassinato.

As imagens mostram ao menos cinco perfurações provocadas por disparos de arma de fogo. Foto: Reprodução

As imagens mostram ao menos cinco perfurações provocadas por disparos de arma de fogo, com marcas na região da cintura, abdômen, peito, braço e costelas, além de uma lesão na testa. Segundo a defesa da família, o ferimento é compatível com uma coronhada.

A advogada e pesquisadora em perícia criminal Amanda Quaresma afirma que a posição dos ferimentos sugere que Rosimilck estava de frente para o atirador, possivelmente com os braços erguidos, em posição de rendição.

“A altura do disparo sugere uma vítima acuada, próxima à parede e em posição rebaixada”, explica Amanda Quaresma. Foto: Reprodução

Segundo a especialista, o orifício de entrada no braço direito, próximo à axila, é compatível com a hipótese de que ele estava com os braços para o alto. “E isso encontra apoio na própria leitura do local, porque a altura do disparo sugere uma vítima acuada, próxima à parede e em posição rebaixada”, explica.

Ela também reforça a hipótese a partir das imagens de câmera de segurança. “É muito significativo que a vítima apareça desarmada, sendo levada por policiais armados para um quarto”, afirma.

Ausência de sinais de fuga

Outro elemento apontado pelos especialistas é a ausência de sinais de fuga. De acordo com Quaresma, os tiros ocorreram de frente para trás, o que contradiz a versão de que Rosimilck teria reagido atirando contra os policiais.

“Os tiros foram produzidos de frente para trás, com orifícios de entrada na parte anterior do corpo, indicando que a vítima estava voltada para o agressor quando foi alvejada”, diz.

Mesmo sem perícia formal, a análise das imagens também levanta indícios de agressão antes dos disparos. Quaresma aponta um hematoma na testa, com vermelhidão ao redor, compatível com lesão causada ainda em vida, segundo o perito.

“Há indícios consistentes de violência física prévia. Isso afasta uma leitura simplificada de confronto instantâneo”, afirma.

Vídeo mostra vítima já imobilizada

Para o médico perito Nelson Massini, as imagens da vítima imobilizada sendo conduzida ao quarto representam o ponto mais grave do caso.

“Se confirmam que a vítima já estava dominada pelos agentes, isso afasta objetivamente a hipótese de confronto ou legítima defesa. Uma pessoa imobilizada não representa ameaça real”, avalia.

Massini também critica a condução da investigação.“Quando a versão dos envolvidos não é submetida à prova técnica, o inquérito deixa de investigar e passa apenas a formalizar uma narrativa”, afirma.

Quaresma acrescenta que os registros indicam ausência de tentativa efetiva de socorro. Ela observa que a região cervical sugere que o corpo permaneceu por um período significativo na mesma posição após a morte.

“Isso indica que o cadáver não foi removido para atendimento emergencial. A posição em que o corpo permaneceu também comunica elementos importantes sobre a dinâmica da cena”, explica.

Para a especialista, a ausência de perícia representa a perda de informações fundamentais sobre o caso.

“Quando a perícia não é realizada, não se perde apenas um procedimento formal. Perde-se a possibilidade de registrar tecnicamente o que o corpo ainda podia revelar sobre a violência sofrida e sobre a dinâmica real da morte”, afirma.

A Justiça chegou a arquivar o caso em fevereiro de 2025, mas teve de reabrir após recurso apresentado pela defesa da família de Rosimilck. Atualmente, o processo aguarda análise da Procuradoria-Geral de Justiça.

Falhas nos procedimentos de investigação

A defesa aponta falhas graves nos procedimentos investigativos e pede a exumação do corpo para realização de exames periciais. Isso inclui exame de corpo de delito, teste de resíduos de disparo de arma de fogo nas mãos da vítima, análise da trajetória dos tiros, distância dos disparos e verificação de possíveis sinais de contenção física.

Amanda Quaresma considera “estranha” a ausência de exames básicos em um caso de morte decorrente de ação policial.

“Em situações de morte violenta, especialmente envolvendo agentes do Estado, a necrópsia e o exame de corpo de delito são obrigatórios”, afirma.

“Não se pode admitir que um corpo seja deixado sem necrópsia em uma morte suspeita.”

Massini concorda e afirma que a investigação não adotou protocolos mínimos previstos na legislação brasileira e em diretrizes internacionais.

“Estamos diante de um inquérito sem perícia adequada do local, sem reconstrução da dinâmica dos fatos, sem análise balística consistente e, ao que tudo indica, sem autópsia capaz de esclarecer tecnicamente a morte”, critica.

O perito também questiona a legalidade da entrada dos policiais na residência. Segundo ele, a inviolabilidade do domicílio só pode ser relativizada em situações específicas, como flagrante delito. Essa hipótese, segundo ele, não ficou comprovada no processo.

Ele acrescenta que a informação de que houve arrombamento do imóvel reforça a necessidade de apuração rigorosa sobre a legalidade da operação.

Edição: Camila Rodrigues da Silva.

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  • Fernando Assunção

    Repórter do Alma Preta Jornalismo na Amazônia paraense. Foco na cobertura de temas como direitos humanos, meio ambiente, política e questões relacionadas a povos e comunidades tradicionais.

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