A transição vital dos combustíveis fósseis para as energias renováveis está sendo capturada por super-ricos poluidores — sejam indivíduos, empresas ou países— reproduzindo padrões coloniais que aprofundam desigualdades e alimentam violações de direitos humanos. É o que aponta o relatório “Transição Injusta: Resgatando o Futuro Energético do Colonialismo Climático”, divulgado na quinta-feira (24) pela Oxfam.
Um exemplo é a Tesla, do homem mais rico do mundo, Elon Musk, que obteve US$ 5,63 bilhões em vendas de veículos elétricos em 2024. Em cada veículo vendido, a companhia lucrou US$ 3.145 — 321 vezes mais do que a República Democrática do Congo (RDC) recebeu pelo fornecimento dos três quilos de cobalto necessários em cada carro. A RDC captura apenas 14% da cadeia de valor do cobalto, mas, se retivesse o valor integral, poderia gerar mais de US$ 4 bilhões ao ano — o suficiente para garantir energia limpa para metade da população, de quase 110 milhões de pessoas.
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O relatório da Oxfam descreve o “saque” de minerais como lítio, cobalto, níquel e terras raras, além de grilagem de terras para bioenergia, projetos de remoção de carbono e apropriação de grandes recursos hídricos, eólicos e solares. Esses projetos frequentemente envolvem violência, trabalho forçado e degradação ambiental, sem o consentimento das comunidades locais que vivem nessas novas “zonas de sacrifício”.
Atualmente, projetos de mineração, energia renovável e desenvolvimento industrial ligados à transição energética — em grande parte impulsionados pelo Norte Global e por elites poderosas — ameaçam os direitos de povos indígenas em até 60% de suas terras reconhecidas oficialmente, que somam 22,7 milhões de km². Essa área equivale ao tamanho de Brasil, EUA e Índia juntos, ou ao dobro da área de todo o antigo império francês em seu auge.
“Os países mais ricos e os indivíduos super-ricos estão levando a crise climática ao ponto de ruptura, extrapolando o orçamento de carbono por meio de sistemas profundamente desiguais e extrativos. Agora tentam capturar e controlar a transição energética às custas dos países mais pobres e mais vulneráveis ao clima, ampliando ainda mais as desigualdades”, apontou o diretor-executivo da Oxfam, Amitabh Behar. “Para uma transição verdadeiramente justa, é preciso primeiro acabar com os padrões de injustiça, com a má governança e os abusos de poder.”
Países ricos e elites globais também dominam a arquitetura financeira internacional, despejando bilhões em suas próprias transições, enquanto empurram os países do Sul Global para uma crise crescente de endividamento, deixando-os sem recursos para financiar seu próprio desenvolvimento. Os chamados países em desenvolvimento devem US$ 11,7 trilhões em dívida externa — mais de 30 vezes o custo estimado para garantir energia limpa universal até 2030.
“Muitos países do Sul estão sendo totalmente excluídos da transição, apesar de terem grande potencial — 70% do potencial mundial de energia eólica e solar está no Sul Global. Seus governos não conseguem aproveitar a queda dos custos das renováveis por causa do alto endividamento e de condições de empréstimo injustas. Nossa pesquisa mostra que o custo de fornecer energia é quase o dobro nos países africanos em comparação com o preço em países com economias consideradas avançadas. Quando recorrem a investimentos estrangeiros, acabam sendo pautados pela extração e pelo lucro de poucos, em detrimento do bem comum da maioria”, disse Behar.
Garantir uma transição justa também significa enfrentar a atual desigualdade no acesso à energia. Os 10% mais ricos consomem metade de toda a energia global, enquanto a metade mais pobre da humanidade consome apenas 8%. Se fosse redistribuída, a energia consumida pelo 1% mais rico seria suficiente para atender sete vezes as necessidades básicas de todas as pessoas sem eletricidade.
“Enfrentar a desigualdade e o colonialismo na transição energética oferece uma oportunidade para remodelar radicalmente o setor. Os movimentos indígenas, de comunidades tradicionais, de mulheres, de trabalhadores e os governos locais progressistas já estão construindo novos sistemas energéticos baseados no controle local, em economias progressistas e no cuidado ecológico, e onde o trabalho decente, a proteção social, os direitos indígenas e a recapacitação profissional estão no centro”, avaliou Behar. “Precisamos apoiá-los para que a transição deixe de servir ao lucro e passe a servir à vida.”
Enquanto o Brasil possui um dos maiores potenciais para liderar uma revolução energética verde, a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, alerta que o país repete os erros do passado.
“No Brasil, essa dinâmica de colonialismo climático é especialmente perversa. Somos um país com imenso potencial solar, eólico e de biocombustíveis, além de possuir reservas expressivas e estratégicas no cenário global. No entanto, repetimos um modelo extrativista que concentra renda, explora territórios tradicionais e indígenas e deixa as comunidades locais com os custos ambientais e sociais. Enquanto grandes corporações e países ricos se beneficiam de nossos recursos naturais, milhões de brasileiros ainda vivem na pobreza energética”, analisou.
“Uma transição verdadeiramente justa no Brasil exige romper com essa lógica colonial, valorizando nossos saberes tradicionais, fortalecendo a soberania local e garantindo que a energia sirva primeiro às pessoas, e não ao lucro de poucos”.
O relatório da Oxfam pede que formuladores de política e tomadores de decisões adotem um novo sistema energético descolonizado e descentralizado, que reconheça e repare os danos do desequilíbrio histórico de poder e priorize cooperação e solidariedade globalmente.