A quatro meses da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, Belém enfrenta uma crise de hospedagem. Para além das obras de infraestrutura, moradores da capital paraense que vivem de aluguel denunciam uma onda de despejos, não renovação de contratos e aumento abusivo nos valores cobrados pelos imóveis, como mostrou reportagem da Alma Preta Jornalismo.
Nas redes sociais da Alma Preta, a vereadora Vivi Reis (Psol) compartilha sua própria experiência. Ela relatou que teve que deixar o apartamento onde morava no bairro da Pedreira após a imobiliária recusar a renovação do contrato.
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Ela acabou encontrando outro imóvel no mesmo residencial, mas pagando R$ 700 a mais por mês.
“Eu passei por isso. Me mudei para outro apartamento (pagando bem mais caro), porque o local que eu morava negou renovar contrato e deixou o contrato ‘em aberto’. Com receio de ter que sair do AP [apartamento] às vésperas da COP, fiquei na correria atrás de outro lugar pra morar”, disse Vivi no perfil do Instagram da Alma Preta.

Em entrevista, a vereadora explicou a situação em detalhes. Segundo ela, a prática de manter contratos “em aberto” está sendo usada como estratégia para desocupar os imóveis antes da COP30.
O objetivo seria disponibilizar os espaços a preços inflacionados para turistas, jornalistas e organizações que virão para o evento. A expectativa é que cerca de 50 mil pessoas se hospedem em Belém.
“Eu vi kitnets no bairro da Pedreira sendo anunciados por R$ 2 mil e apartamentos simples por até R$ 5 mil. É um absurdo! Estamos falando de imóveis sem mobília, em bairros populares. Isso cria uma insegurança enorme para quem mora de aluguel”, afirmou.
Moradores pressionados e despejados
Nas redes sociais da Alma Preta, diversos seguidores relataram casos similares. A usuária @latinamazonida contou que sua mãe foi forçada a sair do local onde morou por mais de 10 anos. Segundo o relato, a proprietária chegou a cortar as plantas da moradora e fazer barulhos intencionais para forçá-la a sair.
“Do nada a dona pediu e fez um inferno da vida da minha mãe, cortou as plantas dela, fazia barulho de propósito todos os dias para expulsar minha mãe, justamente porque falaram para ela que ganharia mais, ela saindo e aumentando o valor para outra pessoa.”

O advogado @victorguedes.adv compartilhou a situação de uma cliente: “Estou acompanhando um caso que a proprietária quebrou o contrato para alugar para a COP e ainda queria cobrar multa rescisória da minha cliente.”

Outro comentário, de @brunac_almeida, apontou o abandono e o fechamento de imóveis no centro de Belém para fins de especulação: “Preços absurdos e o centro de Belém com todas as casas fechadas.”

Especulação, insegurança e racismo ambiental
Para Vivi Reis, o que está acontecendo em Belém é mais um exemplo de racismo ambiental — conceito que descreve como populações negras, indígenas e periféricas são as mais impactadas negativamente por decisões políticas e ambientais. Isso porque são essas pessoas, em sua maioria, que moram de aluguel ou vivem em moradias precárias.
Enquanto as obras de embelezamento se concentram em regiões centrais da cidade, as periferias seguem sem saneamento básico e com esgoto sendo desviado de obras para regiões vulneráveis, como a Vila da Barca.
“A COP poderia deixar um legado de melhorias para a cidade, com saneamento e políticas públicas. Mas o que vemos são obras cosméticas para ‘gringo ver’, enquanto o povo que vive aqui sofre com despejos, aumento de aluguel e insegurança”, afirmou Reis.
A vereadora destaca ainda a contradição de um evento internacional sobre mudanças climáticas estar gerando exclusão social em nível local.
“A COP não é para o povo. A COP está sendo preparada para os de fora verem. Nós, moradores, estamos sendo empurrados para fora dos nossos lares”, lamenta a parlamentar.
Caminhos e entraves legais
Apesar da gravidade da situação, Vivi Reis afirma que o município tem poucas ferramentas para regular os valores dos aluguéis, uma vez que essa atribuição é de competência federal.
Diante disso, ela articula com as deputadas federais Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna, que também são do Psol, medidas legislativas que criem mecanismos de contenção à especulação imobiliária em períodos de grandes eventos como a COP30.
“A gente precisa de regulamentações que protejam os inquilinos. Porque quem já vive no limite do orçamento não consegue absorver um aumento de R$ 400, R$ 700 ou mais. Isso força essas famílias a se mudarem para locais com menos infraestrutura, segurança e acesso a serviços”, argumenta Reis.
O que esperar do pós-COP?
Uma das preocupações levantadas por Reis é o cenário pós-COP. Muitos proprietários acreditam que terão lucros rápidos durante o evento, mas correm o risco de ficar com imóveis vazios depois, sem demanda constante ou compatível com os preços inflacionados que praticaram.
“Quando a COP for embora, como vai ficar Belém? Será que esses apartamentos vão continuar ocupados? Ou vamos ter uma cidade com imóveis vazios e famílias desalojadas?”, questiona a vereadora.