A trajetória artística de Marlon Amaro nasceu do olhar curioso de uma criança periférica que via nas telas da televisão um universo de cores e formas inatingíveis. Filho dos anos 1990, o artista visual de Niterói (RJ) recorda que seu primeiro contato com a arte veio do desejo de materializar os desenhos animados que assistia. A prática tornou-se motor criativo e caminho para novas perspectivas.
Em entrevista à Alma Preta, Marlon conta que desenhar foi uma maneira de se inserir no mundo. Quando pequeno, começou a reproduzir os personagens que admirava para transformá-los em bonecos de papel. O que começou como brincadeira infantil tornou-se o primeiro passo de uma trajetória marcada pela expressão, pela observação e pelo desejo de criar conexões humanas por meio da arte.
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“Eu era uma criança periférica e os anos 1990 eram o ápice da propaganda bizarra de brinquedo. Eu não podia comprar nada disso, mas essas imagens de desejo ficavam na minha cabeça. Então comecei a desenhar esses personagens e recortava pra brincar com eles. Foi assim que comecei a me enturmar. Desenhar virou uma ferramenta de interlocução”, explica.
Ao longo da carreira, o artista passou a se questionar sobre o que o move na arte, uma reflexão que atravessa corpo, existência e propósito. Para ele, a criação é ferramenta de autoconhecimento e sensibilização diante de um mundo cada vez mais frio.
“O que mais me move é entender o meu corpo no mundo, qual é o meu papel, para o que a minha vida serve. Isso está acima de fama e dinheiro. Acho que a arte é essa ferramenta de autoconhecimento, mas também de conciliação. Ela pode sensibilizar as pessoas e fazer extremos conversarem”.

Entre as múltiplas camadas que estruturam suas obras, a cor ocupa um papel central. Nas telas, ela é um instrumento de atração e, ao mesmo tempo, de crítica. Em uma de suas séries, Marlon as utilizou como uma camuflagem visual, criando um jogo de percepção que espelha as sutilezas do racismo.
O artista descreve esse processo como uma “armadilha”, para tensionar o olhar do espectador, atraído pela beleza da cor antes de perceber o desconforto do conteúdo.
“Era sobre desviar o olhar. E por muito tempo a minha pintura foi meu grande campo de batalha, para mostrar pras pessoas como o racismo estrutural funciona. Mostrar que ele está no cotidiano, nas ‘brincadeiras’. Foi sobre esse movimento das pessoas não olharem para o que está debaixo do seu nariz”, conta.

Com o passar dos anos, Marlon transformou esse processo em libertação. As cores, antes usadas como disfarce, se tornaram linguagem de reconstrução simbólica e emocional.
“Hoje a cor está em outro lugar, mais onírico. Ela nega um pouco da realidade pra exaltá-la. Estou mais nesse lugar do sonho, das coisas místicas. Ainda é sobre a realidade, mas vista por outro prisma. Eu abandonei um pouco essa coisa de brigar com as relações da sociedade. Tenho Feito uma limpeza mental, tentando olhar para dentro E buscar Que imagens persistem No meu inconsciente”.
Sua nova série, Acheronta Movebo, também funcionou como uma válvula de escape após retratar temas densos, que refletem os medos da população negra. Com ela, o Marlon Amaro abre espaço para o onírico, o intuitivo.e o místico, sem deixar de retratar a realidade.
“Acho tipo os meus trabalhos anteriores eram muito traumas, porque era a experiência que eu tinha na vida. Essas figuras que assombram, situações marcantes. E essa série é uma limpeza disso tudo, tanto que não é mais sobre racismo É sobre a experiência da vida”, acrescenta.
Entre as perspectivas que o movem, Amaro revela o desejo de ocupar os museus que o inspiraram na juventude e de deixar um registro de existência para além dos números que marcam corpos pretos e periféricos.
“Seria um sonho meu trabalho estar nos museus que foram importantes pra mim. Sempre pensei que a gente só sabe que certas pessoas existiram porque deixaram algo. Como artista preto periférico, quero deixar algo pra afirmar que existi, que tive sonhos, família e história. E quero também conectar as pessoas com meu trabalho”, completa.