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Jards Macalé foi símbolo de liberdade na ditadura e autor de trilhas sonoras para o teatro e cinema 

Artista tratava um enfisema pulmonar e sofreu parada cardíaca após cirurgia; referência da música brasileira, Macalé deixa obra marcada pela experimentação e liberdade estética
O músico e compositor Jards Macalé.

O músico e compositor Jards Macalé.

— Reprodução/Redes Sociais

18 de novembro de 2025

O ator, músico e compositor Jards Macalé morreu nesta segunda-feira (17), aos 82 anos. Ele estava internado em um hospital particular na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, onde tratava um enfisema pulmonar. Macalé sofreu uma parada cardíaca após passar por uma cirurgia. A informação foi divulgada nas redes sociais do músico.

Em nota, a equipe informou que, mesmo debilitado, o músico acordou cantarolando “Meu Nome é Gal”. “Com toda a energia e bom humor que sempre teve. Cante, cante, cante. É assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade”, diz o comunicado.

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Batizado de Jards Anet da Silva, o artista nasceu em 3 de março de 1943, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, e teve contato com a música desde a infância, marcando o início de sua formação musical. A mãe, Ligia, tocava valsas e modinhas, enquanto o pai se dedicava ao acordeon. 

Ainda jovem, se mudou com a família para Ipanema, onde ganhou o apelido “Macalé”, em referência a um jogador do Botafogo conhecido pelo desempenho irregular. Já na adolescência, formou o duo Dois no Balanço e, logo depois, o Conjunto Fantasia de Garoto, voltado para jazz, serenatas e samba-canção.

A carreira profissional começou em 1965 como guitarrista do Grupo Opinião. Sua primeira composição, “Meu Mundo é Seu”, parceria com Roberto Nascimento, foi gravada por Elizeth Cardoso em 1964.

Macalé também dirigiu as primeiras apresentações de Maria Bethânia e colaborou com nomes como Caetano Veloso, Gal Costa, Vinicius de Moraes, Torquato Neto, Capinam e Waly Salomão, este último parceiro no sucesso de “Vapor Barato”.

Além da música, criou trilhas sonoras para teatro e cinema, incluindo “Amuleto de Ogum” (1973), “Macunaíma” (1968), “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969) e “Terra Estrangeira” (1995). 

Atuou e compôs para filmes de Nelson Pereira dos Santos, como “Amuleto de Ogum” e “Tenda dos Milagres”. Sua trajetória foi tema do documentário “Jards Macalé, um Morcego na Porta Principal” (2010), de Marco Abujamra e João Pimentel, que contam as quatro primeiras décadas de sua carreira.

Obra musical

Em 60 anos de carreira, é reconhecido por sua estética e ousadia sonora. Macalé destacou a influência dos batuques do morro e da cultura africana, que moldaram sua estética experimental. 

Enfrentou a repressão da ditadura civil-militar e virou símbolo de liberdade artística por não concordar com os padrões do mercado musical. Principal nome do movimento tropicalista, recebeu da crítica os rótulos de “maldito” e “anjo torto”, que, segundo ele, expressavam a dificuldade e resistência do mercado em acolher sua obra.

Seu primeiro álbum, lançado em 1972, se tornou referência pela fusão de rock, samba, jazz, blues e baião, marcada por melancolia e sarcasmo. Em 2019, “Besta Fera” foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB e eleito pela APCA um dos 25 melhores discos brasileiros do semestre.

O trabalho mais recente, “Coração Bifurcado” (2023), foi apontado pela crítica como um dos grandes álbuns do ano, reunindo inéditas e parcerias com nomes como Capinan em “A Arte de Não Morrer”  e Alice Coutinho.

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  • Thayná Santana

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