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Afroturismo no Brasil: um movimento de reparação, educação e fortalecimento econômico

Em entrevista, a coordenadora de Afroturismo, Diversidade e Povos Indígenas na Embratur, Tania Neres, conta como o Brasil avança na estruturação de rotas turísticas que combatem o racismo, promovem o protagonismo negro e recontam a história do país a partir de novas perspectivas
Estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio, no Largo de São Francisco da Prainha.

Estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio, no Largo de São Francisco da Prainha.

— Reprodução/André Matheus/BNDES

23 de setembro de 2025

O Brasil abriga a segunda maior população negra do mundo, superada apenas pela Nigéria. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade dos brasileiros (56,1%) são negros, categoria que contempla pessoas pretas e pardas. Essa realidade demográfica impulsiona um segmento turístico que busca recontar a história do país: o afroturismo. 

Longe de ser apenas uma categoria de viagem, ele se firma como um movimento de reparação histórica, uma ferramenta de educação antirracista e uma plataforma para o desenvolvimento econômico de comunidades negras. A proposta do afroturismo é vivenciar o Brasil a partir de uma perspectiva afrocentrada.

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Essa forma de turismo se baseia em experiências que revelam a centralidade da cultura negra na formação da identidade brasileira. São roteiros, vivências e narrativas conduzidas por protagonistas negros, que oferecem aos viajantes, negros ou não, a oportunidade de conhecer lugares, sabores e saberes que foram sistematicamente mantidos à margem dos circuitos turísticos tradicionais.

Parque Memorial Quilombo, localizado na Serra da Barriga, um dos destinos do Afroturismo no Brasil. Foto: Philipe Medeiros / Projeto Alagoas

Do discurso à prática antirracista

Para que o afroturismo não se torne o que se chama de “cosmética racial”, em que a presença negra é meramente decorativa, a mudança precisa ser estrutural. A exigência por representatividade em postos de comando dentro de hotéis, companhias aéreas e agências de viagem é um dos pilares do movimento. 

“Se não houver essa representatividade de liderança, o movimento de afroturismo não existe de maneira alguma”, afirma Tania Neres, coordenadora de Afroturismo, Diversidade e Povos Indígenas da Embratur, em entrevista à Alma Preta. A lógica, segundo ela, é que o poder econômico e decisório permaneça nas mãos das comunidades que são a base desta modalidade de turismo.

Nesse sentido, a Embratur, em colaboração com o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), desenvolveu o “Guia Prático sobre Igualdade Racial no Turismo“. O material funciona como um manual para que empresas do setor adotem uma postura antirracista ativa. Entre as diretrizes estão o papel de revisar processos seletivos para eliminar vieses, divulgar vagas em redes de comunidades negras e garantir a diversidade entre os entrevistadores.

Outro ponto em destaque é a promoção do letramento racial, um processo de formação contínua para que os profissionais do turismo saibam identificar e combater as diversas manifestações do racismo. 

A ideia é que o reconhecimento da cultura afro-brasileira vá além do discurso e se materialize em oportunidades e respeito. “Promover a igualdade racial não é apenas uma questão de justiça social, mas de inteligência de mercado e competitividade”, afirma em nota Marcelo Freixo, presidente da Embratur, no contexto do lançamento do guia.

O segmento de turismo também inclui espaços religiosos, como o Terreiro de Mãe Herondina, em Belém. Foto: Reprodução/Redes Sociais

O Brasil como destino de reconexão 

A experiência do afroturismo no Brasil possui uma característica única, moldada pela diáspora africana. O sequestro de milhões de pessoas durante o período da escravização teve como consequência a criação de uma cultura de resistência que preservou tradições ancestrais. 

“Muitos africanos que visitam o Brasil reconhecem aqui culturas e tradições que não são mais vistas em seus países”, explica Tania Neres. “Isso cria uma forte ligação e um interesse mútuo de reconexão histórica”, completa.

Essa memória viva transforma o país em um potente destino de reconexão, tanto para afro-brasileiros em busca de suas raízes quanto para estrangeiros, incluindo africanos, que veem no Brasil um espelho de sua própria história. 

Conforme Neres, o interesse internacional se volta para a cultura, a gastronomia, a religiosidade e as manifestações artísticas que floresceram aqui. Para atender a essa demanda, a Embratur mapeia e promove experiências autênticas em sua plataforma internacional, a Feel Brasil.

Os desafios e o futuro do afroturismo no Brasil

Apesar do potencial, o afroturismo ainda é um segmento em desenvolvimento no Brasil. Tania Neres aponta que a Embratur tem atuado no mapeamento de empreendedores e na capacitação de estados e municípios. 

“A gente vem identificando quem são os empreendedores de afroturismo ou até mesmo os afroempreendedores que estão em regiões turísticas no Brasil, entendendo e mapeando essas pessoas, descobrindo, desenvolvendo, tendo muita conversa e fazendo muita capacitação”, explica a especialista em turismo internacional.

A internacionalização desses produtos é outro foco, com atenção aos mercados latino-americano, norte-americano e europeu. Para isso, é necessário que os empreendedores tenham presença digital em outros idiomas e estrutura para receber turistas estrangeiros.

Locais marcados pela trajetória da população negra, como a Pedra do Sal, na zona portuária do Rio de Janeiro, são valorizados pelo afroturismo. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os planos para o setor ao longo prazo são otimistas. O movimento busca a consolidação do afroturismo como uma política pública. A criação do grupo de trabalho “Rotas Negras“, que reúne diversos ministérios, é um passo nessa direção. A transformação em política de Estado assegura a continuidade das ações e garante que o fomento ao setor não dependa de um governo específico. 

“Saber que ele pode se tornar uma política pública em breve é algo muito, muito importante, muito sério, para que ninguém venha e derrube essas ações que a gente tem feito ao longo desses anos”, conclui Tania Neres. 

O legado esperado é um mercado turístico mais justo, que gere prosperidade para as comunidades negras e ofereça ao mundo uma visão mais completa e verdadeira do que é o Brasil.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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