Tudo começa aos pés de uma gameleira, árvore ancestral que simboliza a conexão entre o Orum e o Ayiê (o Céu e a Terra). Há mais de 13 anos, é nas imediações deste espaço sagrado que acontece a concentração do Bloco Afro Magia Negra, um dos principais blocos afros de Belo Horizonte.
Criado em 2013, pelo artista plural e mineiro Camilo Gan, o bloco nasceu com o objetivo de valorizar a cultura negra e ocupar as ruas da capital mineira com um cortejo que combina música, corporalidade e espiritualidade. No repertório, uma mistura de ritmos afro-mineiros, cânticos do candomblé, samba, afrobeat, reggae e funk, refletem sua diversidade estética e cultural.
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Atualmente, o Bloco Afro Magia Negra é formado por cerca de 80 integrantes, entre músicos de percussão e clarins, além de dançarinas e dançarinos. A banda de rua se expressa por meio de elementos característicos dos blocos afros, como toques de tambores ancestrais, corporalidade, uso de água de cheiro, aromas e o banho de pipoca, símbolo de saúde e cuidado coletivo.
O desfile acontece tradicionalmente na quarta-feira de cinzas, com concentração na Praça Gabriel Passos, localizada na Rua Itararé, no bairro do Concórdia.
Carnaval 2026: a criação do mundo
Neste ano, o Bloco Afro Magia Negra leva para seu arrastão o tema “A criação do mundo por ODÙDÚWÀ”, que a cosmovisão do povo Yorubá.
Além do tema central, todo ano o arrastão do bloco, que corre pelas ruas do bairro Concórdia é precedido de uma homenagem a uma personalidade negra e sua contribuição para a sociedade e cultura. Em 2026, o bloco homenageia o compositor, cantor, instrumentista e ator mineiro Marku Ribas.
Nascido à beira do Rio São Francisco, em 1947, na cidade de Pirapora, a principal característica da música de Marku é o diálogo entre gêneros e estilos musicais. Filho de pai negro e mãe descendente dos indígenas caiapós, Ribas tem influência da cultura do povo indígena e africanos presente no norte de Minas Gerais. Além disso, seu trabalho trouxe a confluência com outras musicalidades de matriz africana presentes nas Américas como como os ritmos latinos rumba, salsa, e merengue.
Afrobetização, espiritualidade e o conceito do Afrormigueiro
Para o fundador Camilo Gan, o papel dos blocos afros vai além do entretenimento carnavalesco. “Os blocos afros são mais do que entretenimento, são tecnologias de possibilidades estéticas, musicais e econômicas. No nosso, evocamos as formigas, que são seres que têm alto poder comunitário e social”, afirma o artista.
Essa ideia se traduz no conceito do Afrormigueiro, que orienta a identidade do Magia Negra. A formiga, mascote e inspiração do bloco, simboliza organização social, trabalho coletivo e consciência comunitária. A metáfora reforça a proposta de reunir pessoas comprometidas com o enfrentamento ao preconceito étnico-racial, entendendo a força da coletividade como elemento central de transformação.
Além da musicalidade marcada pela percussão e pelos fundamentos do candomblé, o bloco mantém uma relação direta com as religiões de matriz africana. Essa conexão se expressa na presença e liderança de figuras religiosas como Mãe Ekedi Eli, liderança do candomblé em Minas Gerais. Ela é também dirigente da organização Yiaminas, que reúne mulheres do reinado mineiro e de diferentes nações do candomblé no estado.

Concórdia: a Pequena África de Belo Horizonte
O território onde o Bloco Afro Magia Negra se concentra e desfila também carrega uma história de resistência. Fundado em 1928, o bairro do Concórdia passou a abrigar famílias negras que foram removidas da região central de Belo Horizonte em função dos processos de urbanização e gentrificação da capital mineira.
Ao longo do tempo, o Concórdia se consolidou como um importante polo da cultura negra na cidade. Conhecido como a “Pequena África” de Belo Horizonte, o bairro reúne terreiros de religiões de matriz africana, blocos afros, guardas de congado e outras expressões culturais ligadas à ancestralidade africana.
Durante o Carnaval, o Concórdia se torna destino de foliões que buscam experiências fora do circuito tradicional do centro da cidade. É nesse contexto que o Bloco Afro Magia Negra reafirma o bairro como espaço de memória, cultura, espiritualidade e luta antirracista, transformando a quarta-feira de cinzas em um ato coletivo de afirmação da identidade negra em Belo Horizonte.