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Carnaval de BH: bloco afro fomenta cultura e identidade afro-mineira na quarta-feira de cinzas 

O bloco leva ritmos afro para o bairro Concórdia. No carnaval de 2026, evoca a cultura Yorubá com o tema “A criação do mundo por Odùdúwà”
Home negro durante cortejo do Bloco Afro Magia Negra, em Belo Horizonte (MG).

Home negro durante cortejo do Bloco Afro Magia Negra, em Belo Horizonte (MG).

— Leandro Couri

8 de fevereiro de 2026

Tudo começa aos pés de uma gameleira, árvore ancestral que simboliza a conexão entre o Orum e o Ayiê (o Céu e a Terra). Há mais de 13 anos, é nas imediações deste espaço sagrado que acontece a concentração do Bloco Afro Magia Negra, um dos principais blocos afros de Belo Horizonte.

Criado em 2013, pelo artista plural e mineiro Camilo Gan, o bloco nasceu com o objetivo de valorizar a cultura negra e ocupar as ruas da capital mineira com um cortejo que combina música, corporalidade e espiritualidade. No repertório, uma mistura de ritmos afro-mineiros, cânticos do candomblé, samba, afrobeat, reggae e funk, refletem sua diversidade estética e cultural. 

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Atualmente, o Bloco Afro Magia Negra é formado por cerca de 80 integrantes, entre músicos de percussão e clarins, além de dançarinas e dançarinos. A banda de rua se expressa por meio de elementos característicos dos blocos afros, como toques de tambores ancestrais, corporalidade, uso de água de cheiro, aromas e o banho de pipoca, símbolo de saúde e cuidado coletivo. 

O desfile acontece tradicionalmente na quarta-feira de cinzas, com concentração na Praça Gabriel Passos, localizada na Rua Itararé, no bairro do Concórdia.

Carnaval 2026: a criação do mundo

Neste ano, o Bloco Afro Magia Negra leva para seu arrastão o tema “A criação do mundo por ODÙDÚWÀ”, que a cosmovisão do povo Yorubá.  

Além do tema central, todo ano o arrastão do bloco, que corre pelas ruas do bairro Concórdia é precedido de uma homenagem a uma personalidade negra e sua contribuição para a sociedade e cultura. Em 2026, o bloco homenageia o compositor, cantor, instrumentista e ator mineiro Marku Ribas. 

Nascido à beira do Rio São Francisco, em 1947, na cidade de Pirapora, a principal característica da música de Marku é o diálogo entre gêneros e estilos musicais. Filho de pai negro e mãe descendente dos indígenas caiapós, Ribas tem influência da cultura do povo indígena e africanos presente no norte de Minas Gerais. Além disso, seu trabalho trouxe a confluência com outras musicalidades de matriz africana presentes nas Américas como como os ritmos latinos rumba, salsa, e merengue.

Afrobetização, espiritualidade e o conceito do Afrormigueiro

Para o fundador Camilo Gan, o papel dos blocos afros vai além do entretenimento carnavalesco. “Os blocos afros são mais do que entretenimento, são tecnologias de possibilidades estéticas, musicais e econômicas. No nosso, evocamos as formigas, que são seres que têm alto poder comunitário e social”, afirma o artista.

Essa ideia se traduz no conceito do Afrormigueiro, que orienta a identidade do Magia Negra. A formiga, mascote e inspiração do bloco, simboliza organização social, trabalho coletivo e consciência comunitária. A metáfora reforça a proposta de reunir pessoas comprometidas com o enfrentamento ao preconceito étnico-racial, entendendo a força da coletividade como elemento central de transformação.

Além da musicalidade marcada pela percussão e pelos fundamentos do candomblé, o bloco mantém uma relação direta com as religiões de matriz africana. Essa conexão se expressa na presença e liderança de figuras religiosas como Mãe Ekedi Eli, liderança do candomblé em Minas Gerais. Ela é também dirigente da organização Yiaminas, que reúne mulheres do reinado mineiro e de diferentes nações do candomblé no estado. 

Cortejo do Bloco Afro Magia Negra em Belo Horizonte (MG). Foto: Edgar Kanaykõ

Concórdia: a Pequena África de Belo Horizonte

O território onde o Bloco Afro Magia Negra se concentra e desfila também carrega uma história de resistência. Fundado em 1928, o bairro do Concórdia passou a abrigar famílias negras que foram removidas da região central de Belo Horizonte em função dos processos de urbanização e gentrificação da capital mineira.

Ao longo do tempo, o Concórdia se consolidou como um importante polo da cultura negra na cidade. Conhecido como a “Pequena África” de Belo Horizonte, o bairro reúne terreiros de religiões de matriz africana, blocos afros, guardas de congado e outras expressões culturais ligadas à ancestralidade africana.

Durante o Carnaval, o Concórdia se torna destino de foliões que buscam experiências fora do circuito tradicional do centro da cidade. É nesse contexto que o Bloco Afro Magia Negra reafirma o bairro como espaço de memória, cultura, espiritualidade e luta antirracista, transformando a quarta-feira de cinzas em um ato coletivo de afirmação da identidade negra em Belo Horizonte.

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  • Beatriz Mazzei

    Jornalista com especialização em Diversidade & Inclusão. Atua com pautas voltadas para questões raciais, sociais e culturais. Nascida durante o carnaval, tem interesse especial pelas manifestações da cultura popular brasileira.

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