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‘Costurar um cordão umbilical que o opressor cortou’: vozes africanas abrem o Festival Sesc Culturas Negras 2025

Alma Preta acompanha início da segunda edição do Festival Sesc Culturas Negras e registra relatos de artistas que compõem o evento
Artista negro se apresenta durante a abertura do Festival Sesc Culturas Negras, no último dia 10 de junho de 2025.

Artista negro se apresenta durante a abertura do Festival Sesc Culturas Negras, no último dia 10 de junho de 2025.

— Patrick Silva/Alma Preta

12 de junho de 2025

A segunda edição do Festival Sesc Culturas Negras começou no dia 10 de junho, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e reuniu artistas de diferentes trajetórias e linguagens em uma programação que reafirma a presença negra nas artes e na vida pública. 

Com o conceito de “existência negra” como eixo central, o festival propõe refletir sobre trajetórias, territórios e saberes produzidos por comunidades negras. A Alma Preta acompanhou a abertura e conversou com artistas presentes nas apresentações e intervenções da noite.

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“Estamos costurando o que foi cortado”

Uma das apresentações de destaque da noite foi da Orquestra e Balé Afrikanse. O projeto reúne artistas da Nigéria, Moçambique, Guiné-Conacri, Senegal, Congo e África do Sul, sob direção artística de Ermi Panzo e direção musical de Otis Selimani e Akìnrulì. A proposta une instrumentos tradicionais, dança e teatralidade para construir uma performance de reconexão cultural entre África e Brasil.

Em entrevista à Alma Preta, Ermi Panzo afirmou que o Afrikanse surgiu como ambição e desafio. “Acho que é o primeiro projeto que junta vários africanos nessa magnitude. Já existem projetos com africanos inseridos, mas talvez essa seja a primeira orquestra no Brasil formada por africanos com instrumentos tradicionais”, declarou.

Ermi também comentou sobre o simbolismo do corpo dos dançarinos do balé, muitos deles com experiências em palcos internacionais e também em comunidades locais. “Eles trazem um simbolismo do corpo e da idade, tanto de forma teatral quanto de forma cultural. É um desafio reunir isso tudo, mas estamos aqui”, disse.

Ao falar sobre o sentido político da presença africana em espaços culturais no Brasil, Ermi resumiu: “O mais simples é entender que os africanos na diáspora não estão apenas à procura de melhores condições de vida. É entender o caminho de volta para casa. É costurar um cordão umbilical que o opressor cortou”.

Apresentação de Tiganá Santana, Fabiana Cozza e Ermi Panzo, da Orquestra e Balé Afrikanse.
Apresentação de Tiganá Santana, Fabiana Cozza e Ermi Panzo, da Orquestra e Balé Afrikanse. (Foto: Patrick Silva/Alma Preta)

“O que separa pessoas brancas de pessoas negras é a oportunidade”

A cantora e youtuber Ayô Tupinambá participou da intervenção artística “Encruzilhadas”, que abriu a programação do festival ao lado de Zé Manoel, Mel Duarte, Safira Sacramento e Guinho Araújo. A artista destacou a importância da presença de pessoas trans e negras em espaços culturais institucionais.

“Eu só estou aqui porque as minhas ancestrais vieram antes e calçaram essa estrada. Sempre vou gritar por justiça, para que o que aconteceu aqui no Sesc vire rotina. Não só para travestis, mas para pessoas transmasculinas, pretas e trans”, afirmou.

Para Ayô, a iniciativa do festival precisa se expandir. “O que separa pessoas brancas de pessoas negras também é a oportunidade. Quando se trata de artistas independentes, isso se agrava. É uma iniciativa pequena ainda, mas precisa crescer e ocupar todas as unidades do Sesc”, disse.

Ayô Tumpinambá participou da intervenção Encruzilhadas.
Ayô Tumpinambá participou da intervenção Encruzilhadas. (Foto: Patrick Silva/Alma Preta)

“Eu não abro o caminho. Eu caminho onde deixaram ferramentas”

O percussionista Cauê Silva também esteve no palco da abertura, integrando a apresentação da Orquestra Afrikanse. Nascido e criado em Santo André (SP), Cauê falou sobre o significado de ocupar espaços culturais com arte preta. “Onde eu estou, todos os meus ancestrais estão comigo. E todos aqueles que virão depois de mim também. Não estou abrindo um caminho, estou caminhando por um caminho que já foi deixado, deixando ferramentas para os próximos seguirem”, afirmou.

Cauê reforçou a força criativa diante das opressões. “A cultura preta é a mais forte de todas. Por isso tentam oprimir. Quanto mais oprime, mais a gente cria alternativas para fazer acontecer”, disse.

Sobre a performance, o artista explicou que entrou na composição por último, acrescentando os instrumentos de percussão a um formato já existente com piano, sopros e dança. Ele também mencionou suas inspirações: “Meus ancestrais diretos, meu tio, meu irmão. Todos tocavam. Também reverencio os Orixás e as divindades da natureza que nos permitem ficar de pé todos os dias”.

Festival segue até 15 de junho

Com atividades espalhadas pelas unidades 14 Bis, Campo Limpo, Consolação, Interlagos, Santana, Casa Verde, Pompeia e Vila Mariana, o Festival Sesc Culturas Negras segue até 15 de junho. A programação envolve shows, oficinas, rodas de conversa, apresentações teatrais, desfiles performáticos, atividades infantis e vivências.

Cada unidade organiza um “quintal” temático, dedicado a dimensões como corporeidades, teatralidades, festejos e samba. O festival articula ancestralidade e cultura com afirmação de direitos e memória coletiva.

A entrada é gratuita na maioria das atividades. A programação completa está disponível nos canais oficiais do Sesc São Paulo.

Serviço

2ª edição do Festival Sesc Culturas Negras

Quando: Até o dia 15 de junho de 2025

Horários: consultar a programação

Unidades participantes: Sesc 14 Bis, Sesc Campo Limpo, Sesc Casa Verde, Sesc Consolação, Sesc Interlagos, Sesc Pompeia, Sesc Santana e Sesc Vila Mariana

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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