A transformação da AfroRec em Grupo Nexa Cine marcou uma das discussões sobre mercado, inclusão e formação profissional no Rio2C 2026, evento realizado até 31 de maio, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.
Considerado o maior encontro de profissionais criativos da América Latina, o Rio2C reúne representantes do audiovisual, música, tecnologia, publicidade, televisão, games e inovação de diferentes países. A Alma Preta acompanha o evento desde o início, na terça-feira (26).
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O anúncio da nova fase ocorreu durante rodadas de negócios e encontros do setor audiovisual no evento. Criada em 2019, a AfroRec passou a integrar uma holding que reúne quatro frentes de atuação: AfroRec, Nexa Tech, Nexa Eventos e Nexa Studios. A proposta do grupo é atuar na conexão entre profissionais, produtoras, marcas e empresas do audiovisual por meio de tecnologia, pesquisa, formação e produção de conteúdo.
À frente do projeto está o diretor de cinema Mill Müller, fundador da AfroRec e CEO do Grupo Nexa Cine. Em entrevista concedida à Alma Preta durante o Rio2C, ele afirmou que a mudança nasce da necessidade de estruturar o mercado audiovisual para além da formação técnica.
“O audiovisual no Brasil é extremamente potente, mas fragmentado. O Grupo Nexa Cine surge para integrar essas pontas”, afirmou Müller.
Segundo o diretor de cinema, a AfroRec continuará existindo dentro da nova estrutura, mantendo o foco na formação de profissionais negros, periféricos e indígenas. A holding passa a operar também em áreas de inteligência de dados, eventos, conexões de mercado e produção audiovisual.
A plataforma lançada pelo grupo permitirá que profissionais do audiovisual criem perfis com portfólio, habilidades técnicas e disponibilidade para contratação. Empresas, produtoras e marcas poderão acessar esses dados para contratar equipes e profissionais de forma direcionada.
Um levantamento do grupo com 682 profissionais negros e indígenas do setor, realizada entre outubro e novembro de 2025, revela um cenário de exclusão. Müller compartilhou os números com a Alma Preta.
Sobre empregabilidade, 60% dos entrevistados (cerca de 405 profissionais) informaram que não conseguem trabalho no setor ou que a frequência de trabalho é muito baixa. Apenas 21,6% (aproximadamente 146) conseguem emprego com carteira assinada (CLT). Outros 18,4% (cerca de 124) atuam como pessoa jurídica (PJ).
No quesito formação, 42,8% dos entrevistados (aproximadamente 291) informaram que não tiveram a possibilidade de cursar faculdade nem cursos profissionalizantes. Outros 34,6% (cerca de 235) tiveram a possibilidade de fazer apenas cursos. Apenas 13,7% (aproximadamente 93) tiveram acesso à faculdade.
O percentual restante, 9%, teve acesso tanto a faculdade quanto a cursos.
Além disso, 64% informaram que não encontram programas ou ações que possibilitem o estudo no audiovisual, enquanto 35% dizem que já encontram essas possibilidades.
O grupo mantém diretrizes de inclusão, destinando 60% das vagas a mulheres, pessoas trans, travestis e pessoas com deficiência, e 60% das vagas reservadas a profissionais das regiões Norte e Nordeste.
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Durante a entrevista, Mill Müller falou ainda sobre os desafios de inserção profissional no audiovisual, a informalidade no setor, os impactos das plataformas digitais e o crescimento da demanda por mão de obra especializada após a expansão dos serviços de streaming. Confira abaixo a conversa completa:
Alma Preta: O que motivou a expansão do trabalho da AfroRec na direção da holding Nexa Cine?
Mill Müller: A expansão para o Grupo Nexa Cine acontece porque a empresa cresceu além da percepção inicial da AfroRec. Hoje, atuamos com pesquisas, dados estratégicos, eventos, experiências, conteúdo, mídia e inteligência de mercado, além da formação profissional. Internamente, percebemos que já operávamos como um ecossistema com múltiplas frentes e soluções integradas para o audiovisual. Externamente, o mercado começou a enxergar valor principalmente na nossa capacidade de conexão, leitura de comportamento e inteligência de dados do setor. A criação do grupo Nexa Cine organiza essa nova estrutura e posiciona a empresa de forma mais alinhada ao que ela se tornou hoje.
Alma Preta: E por que o nome Nexa Cine?
Mill Müller: O nome Nexa Cine vem do sentido de nexo, de anexar. E é exatamente isso que a gente faz no audiovisual: a gente anexa soluções de ponta a ponta. Da pesquisa, dados e estratégia à comunidade, fidelização e conexão dentro do audiovisual. E também tem um jogo de palavras, que “Nexa” ao contrário é “Axé N” — “axé negro”.
Alma Preta: Quando surgiu a AfroRec?
Mill Müller: A AfroRec nasce como ideia em 2016, ela passa por três anos de pesquisas e dados fazendo um benchmark a nível nacional, e é lançada em 2019. De lá para cá, a gente já formou mais de 2,5 mil alunos, impactamos 12 mil e temos mais de 200 mil alcances de profissionais ao mês em nossas plataformas. Além de um dos maiores bancos de dados privados de profissionais do setor, com 18 mil profissionais conectados.
Alma Preta: Sobre a Nexa Cine, quando vocês começaram a trabalhar nessa ideia?
Mill Müller: Começamos a trabalhar na expansão da Nexa Cine há quatro anos. A NexaCine começou a ser estruturada em 2021, quando a gente percebeu a mudança do mercado e as lacunas de necessidades que eles tinham. Então, a gente começou a fortalecer a nossa comunidade, criar um vínculo maior com os nossos profissionais integrados e começamos a pensar em pesquisa de dados estratégicos, muito vindo do entendimento de que o mercado é muito carente dessas informações. Por isso a gente começou a estruturar e, quatro anos depois, a gente faz o lançamento aqui na Rio2C.
Alma Preta: Como vai funcionar a plataforma de dados para conexão de profissionais de audiovisual?
Mill Müller: Dentro do grupo Nexa Cine a gente traz também a plataforma de conexão. Essa plataforma vai integrar profissionais, empresas e marcas, facilitando a contratação. Temos um grande alcance a nível nacional, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Então, empresas, profissionais e marcas que querem se conectar na Amazônia, Piauí, Rio Grande do Norte, vão poder se conectar a partir desta ferramenta. É uma ferramenta que vem para simplificar de forma muito intuitiva a utilização. E o match de conexão dela vem justamente de dois pontos: primeiro, a necessidade de projetos e empresas, lincada com a disponibilidade e experiência de cada profissional.
Alma Preta: O instituto AfroRec se consolidou como um centro de formação nesses anos, tornando-se uma referência. Qual será o papel da AfroRec dentro da Nexa Cine agora? Vocês vão continuar fazendo formações?
Mill Müller: A AfroRec é o DNA e a base principal do nosso projeto. Então ela continua integrando e trazendo as formações afrocentradas, e principalmente ampliando com esse nosso poder novo. Ela é a nossa base principal e continuará ativa com a formação e profissionalização de profissionais negros e indígenas em todo o Brasil. Ela é um ativo importante, puxa todo o DNA da nossa empresa e continuará fazendo formações especializadas e empregando profissionais no setor.

Alma Preta: Por que essa escolha de usar a Rio2C para fazer o lançamento da Nexa Cine?
Mill Müller: A estratégia de lançar na Rio2C é porque é um dos maiores eventos criativos da América Latina e tem um público-alvo direto, que são produtoras, marcas, profissionais e audiovisual com os quais queremos conversar. É o ambiente ideal para o lançamento público e para captar novos investimentos.
Eventos como a Rio2C ajudam a aproximar tecnologia, inovação, audiovisual, marcas e investimentos no mesmo ambiente. Isso acelera conexões estratégicas e abre espaço para modelos que não existiam com tanta força no setor, principalmente ligados a dados, inteligência de mercado, creator economy e experiências imersivas. Hoje, o audiovisual deixou de ser apenas entretenimento e passou a ocupar um espaço importante dentro da economia criativa, tecnologia e comportamento de consumo, e o Rio2C une todas essas empresas e players do mercado.
Alma Preta: Tem algum negócio que vocês estão fechando aqui, algo que está acontecendo justamente por causa desse encontro?
Mill Müller: Tivemos algumas reuniões, principalmente com plataformas de streaming que querem entender o posicionamento delas no mercado diante dos profissionais de audiovisual. Isso já cria um vínculo e uma necessidade de entendimento de dados de mercado que a gente pode solucionar para eles. E eles já estão, hoje, olhando, trazendo suas dores e pedindo que a gente aponte as soluções e os resultados.
Alma Preta: Isso especificamente sobre profissionais negros e indígenas ou no geral?
Mill Müller: Os dados são de consumo geral. Mas dentro dos dados, a gente sempre compila um material demonstrando como é a utilização e o consumo de profissionais negros e indígenas. É válido lembrar que a gente sempre vai trabalhar a parte de estrutura racial dentro das nossas pesquisas. Mesmo que elas não sejam contratadas, a gente sempre vai estar enviando materiais que informam como está sendo a análise e a usabilidade desses profissionais negros e indígenas.
Alma Preta: O que vocês trazem de diferente na plataforma da Nexa Cine em relação a outras plataformas?
Mill Müller: O diferencial está na integração entre comunidade, inteligência de mercado e audiovisual. Não somos apenas um banco de talentos ou uma plataforma de networking. O grupo Nexa Cine reúne formação, pesquisas, dados estratégicos, experiências, conteúdo, mídias e conexão profissional dentro de uma só estrutura. Isso permite gerar leitura real sobre comportamentos do setor, tendências, movimentações de mercado e necessidades das empresas. Além disso, nossa atuação nasce diretamente de dentro do ecossistema do audiovisual brasileiro, com uma comunidade construída organicamente ao longo de muitos anos.
Alma Preta: A gente está vivenciando uma espécie de “era de ouro” em relação ao cinema e premiações internacionais. Essa semana, um filme sobre a Carolina Maria de Jesus, do diretor Jefferson De, recebeu uma menção no Festival de Cannes. Como você posiciona o trabalho da Nexa Cine em um momento em que o audiovisual brasileiro está em expansão e que também há oportunidades para profissionais negros?
Mill Müller: O audiovisual vive um momento realmente mágico. Nos últimos anos, fomos lançados para as plataformas mundiais como uma grande produtora de cinema e audiovisual. Recentemente, como você citou, o filme de Carolina Maria de Jesus, do Jefferson De. É uma obra linda que já foi premiada e está sendo vista. E o grupo Nexa Cine se integra justamente nesses momentos de expansão, mas agora também através de um formato de mercado.
O audiovisual precisa ser entendido como um negócio de mercado. O que a gente faz é estruturar dados para que haja mais opções, possibilidades e estratégias para empresas e players, assim como o entendimento do que os consumidores querem assistir, quais são as vertentes de filmes, plataformas e até mesmo a utilização de equipamentos que eles querem utilizar.
Para dentro da Nexa Cine a gente também tem a parte de integrar esses profissionais ao mercado. A gente fala de conexão. Um dos principais pontos, além da estratégia de inteligência de mercado, é a conexão do público com as marcas.
Hoje, o público não quer mais só consumir, ele quer fazer parte. E o cinema e o audiovisual, hoje, têm grande impacto na vida das pessoas. Por isso, a gente faz essa conexão para unir plataformas, empresas, profissionais e marcas.
Alma Preta: Especificamente, como a Nexa Cine pode ajudar profissionais negros a participar desse momento interessante do audiovisual brasileiro?
Mill Müller: Hoje, o grupo Nexa Cine, através de suas parcerias e contratações, consegue inserir profissionais negros e indígenas dentro de ambientes de cinema e audiovisual, criando uma conexão verdadeira dentro de eventos. O acesso a esse mercado ainda é muito difícil para os nossos profissionais, muitas vezes por conta de valores e alto custo que esses eventos geram.
Então, a Nexa Cine consegue levar esses profissionais, através do nosso departamento de gestão de talentos, para dentro de produtoras, emissoras de TV e agências. Temos uma conexão direta com essas empresas, então levamos os profissionais formados diretamente a elas para que façam a contratação e a gente assegure uma maior taxa de empregabilidade.
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