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GCM de Petrópolis censura obra que recria bandeira nacional com simbologia indígena e negra

A obra de Matheus Ribs, que seria exibida no Festival de Inverno do Sesc Quitandinha, reimagina a bandeira do Brasil com referências às comunidades indígenas e afro-brasileiras
A obra “KILOMBOALDEYA”, do artista Matheus Ribs.

A obra “KILOMBOALDEYA”, do artista Matheus Ribs.

— Reprodução / Matheus Ribs

28 de julho de 2025

Em Petrópolis, município da região serrana do Rio de Janeiro, a obra do artista visual Matheus Ribs foi removida pela Guarda Civil Municipal (GCM) durante o Festival de Inverno do Sesc Quitandinha, sob a alegação de descaracterização da bandeira nacional.

O caso ocorreu no último sábado (26), no bairro Itaipava. A instalação, selecionada pelo Sesc para integrar a mostra, faz uma releitura da bandeira nacional. Com as cores verde, vermelho e preto, a obra substitui os dizeres “ordem e progresso” por “KYLOMBOALDEIA” e traz simbologias ligadas aos Orixás.

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Em entrevista à Alma Preta, Matheus Ribs explicou que se tratava de uma obra comissionada, encomendada sob medida para o evento, que teria duração de dois dias e seria doada para instituição posteriormente.

“Saí do Rio de Janeiro na sexta-feira (25), em direção à Itaipava, para realizar a montagem da obra e correu tudo certo. Encerramos a montagem por volta das seis da tarde e eu me dirigi ao hotel onde ficaria hospedado até o fim do evento, para aproveitar o festival e, depois, realizar a desmontagem da obra e formalizar junto ao Sesc a doação”, explica.

No entanto, o artista conta que foi surpreendido com uma ligação de uma pessoa ligada à equipe do Sesc, que solicitava uma conversa. A princípio, Matheus imaginou que havia ocorrido algum problema com a integridade da peça.

“A pessoa me disse que a guarda municipal havia chegado no local com o suposto alvará, ordenando a retirada da obra e a equipe preferiu retirá-la porque, segundo essa pessoa, a guarda havia ameaçado dar ordem de prisão ao gerente do evento”.

O artista diz que não houve apoio jurídico do Sesc, que também não teria oferecido resistência à remoção, feita sem sua presença. Após a remoção, ele se reuniu brevemente com a equipe para discutir uma nota de repúdio ao ato de censura.

“Solicitei que a nota fosse publicada antes do início do festival, porque não achei correto abrir ao público sem informar sobre o que tinha acontecido com a obra. Mas passou horas e não tive nenhum tipo de resposta”, relata.

Para Matheus Ribs, que já esteve exposto no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e no Instituto Inhotim, a peça retirada representa a possibilidade de imaginar outras narrativas sobre o Brasil incluindo perspectivas racializadas, de matriz afro-brasileira e indígena.

“É sobre reconhecer essas matrizes como fundadoras da nossa sociedade, e não só a contribuição branca e o apagamento dessas outras culturas. Eu percebo muito que ela causou um choque numa cidade que tem um histórico colonial e escravista, e que traz isso desde a sua criação”, explica.

O ocorrido, na visão do artista, é uma demonstração da violência que pessoas negras e de territórios tradicionais vivenciam todos os dias, com a constante negação de suas existências.

“Fui convidado para um festival e fui impedido de exibir o meu trabalho. Mas acabou, vou retornar para a minha casa e, teoricamente, nada vai acontecer comigo. Agora, imagina as pessoas que vivem constantemente com essa preocupação, com esses direitos violados diariamente”.

Em nota no Instagram, o SESC RJ lamentou a retirada da obra e destacou que a ação foi determinada pelas autoridades competentes, baseadas na Lei nº 5.700/1971. A legislação em questão dispõe sobre a forma e o uso dos símbolos nacionais. No entanto, o parecer não consta mais no perfil da entidade.

“O Sesc RJ entende que a Constituição Federal de 1998 assegura a liberdade de expressão e considera que a diversidade de manifestações artísticas é fundamental para estimular o diálogo e a reflexão sobre temas relevantes para a sociedade”, dizia trecho do comunicado.

Sem resposta da instituição, Matheus Ribs utilizou as redes sociais para denunciar o ocorrido. A publicação mobilizou apoio de companheiros da classe artística, políticos e personalidades públicas, como o escritor Marcello Rubens Paiva.

Em publicação no X (antigo Twitter) o deputado estadual e presidente do PSOL no Rio de Janeiro, Flavio Serafini, descreveu a retirada como um “ataque à liberdade artística e à democracia”.

“Censurar a arte que exalta a resistência indígena e afro-brasileira é mais do que ignorância, é puro autoritarismo”, destacou o parlamentar.

A Alma Preta procurou o Sesc RJ e questionou quais foram as medidas de apoio oferecidas ao artista. A reportagem também procurou a Prefeitura de Petrópolis, solicitando um parecer oficial do órgão sobre o caso, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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