Em Petrópolis, município da região serrana do Rio de Janeiro, a obra do artista visual Matheus Ribs foi removida pela Guarda Civil Municipal (GCM) durante o Festival de Inverno do Sesc Quitandinha, sob a alegação de descaracterização da bandeira nacional.
O caso ocorreu no último sábado (26), no bairro Itaipava. A instalação, selecionada pelo Sesc para integrar a mostra, faz uma releitura da bandeira nacional. Com as cores verde, vermelho e preto, a obra substitui os dizeres “ordem e progresso” por “KYLOMBOALDEIA” e traz simbologias ligadas aos Orixás.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Em entrevista à Alma Preta, Matheus Ribs explicou que se tratava de uma obra comissionada, encomendada sob medida para o evento, que teria duração de dois dias e seria doada para instituição posteriormente.
“Saí do Rio de Janeiro na sexta-feira (25), em direção à Itaipava, para realizar a montagem da obra e correu tudo certo. Encerramos a montagem por volta das seis da tarde e eu me dirigi ao hotel onde ficaria hospedado até o fim do evento, para aproveitar o festival e, depois, realizar a desmontagem da obra e formalizar junto ao Sesc a doação”, explica.
No entanto, o artista conta que foi surpreendido com uma ligação de uma pessoa ligada à equipe do Sesc, que solicitava uma conversa. A princípio, Matheus imaginou que havia ocorrido algum problema com a integridade da peça.
“A pessoa me disse que a guarda municipal havia chegado no local com o suposto alvará, ordenando a retirada da obra e a equipe preferiu retirá-la porque, segundo essa pessoa, a guarda havia ameaçado dar ordem de prisão ao gerente do evento”.
O artista diz que não houve apoio jurídico do Sesc, que também não teria oferecido resistência à remoção, feita sem sua presença. Após a remoção, ele se reuniu brevemente com a equipe para discutir uma nota de repúdio ao ato de censura.
“Solicitei que a nota fosse publicada antes do início do festival, porque não achei correto abrir ao público sem informar sobre o que tinha acontecido com a obra. Mas passou horas e não tive nenhum tipo de resposta”, relata.
Para Matheus Ribs, que já esteve exposto no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e no Instituto Inhotim, a peça retirada representa a possibilidade de imaginar outras narrativas sobre o Brasil incluindo perspectivas racializadas, de matriz afro-brasileira e indígena.
“É sobre reconhecer essas matrizes como fundadoras da nossa sociedade, e não só a contribuição branca e o apagamento dessas outras culturas. Eu percebo muito que ela causou um choque numa cidade que tem um histórico colonial e escravista, e que traz isso desde a sua criação”, explica.
O ocorrido, na visão do artista, é uma demonstração da violência que pessoas negras e de territórios tradicionais vivenciam todos os dias, com a constante negação de suas existências.
“Fui convidado para um festival e fui impedido de exibir o meu trabalho. Mas acabou, vou retornar para a minha casa e, teoricamente, nada vai acontecer comigo. Agora, imagina as pessoas que vivem constantemente com essa preocupação, com esses direitos violados diariamente”.
Em nota no Instagram, o SESC RJ lamentou a retirada da obra e destacou que a ação foi determinada pelas autoridades competentes, baseadas na Lei nº 5.700/1971. A legislação em questão dispõe sobre a forma e o uso dos símbolos nacionais. No entanto, o parecer não consta mais no perfil da entidade.
“O Sesc RJ entende que a Constituição Federal de 1998 assegura a liberdade de expressão e considera que a diversidade de manifestações artísticas é fundamental para estimular o diálogo e a reflexão sobre temas relevantes para a sociedade”, dizia trecho do comunicado.
Como artista, além de censurado, me sinto desamprado por uma instituição que me diz querer nossas narrativas, mas nos abandona diante de uma violência como essa. pic.twitter.com/Hg9QLny1K3
— Matheus Ribs (@o_ribs) July 28, 2025
Sem resposta da instituição, Matheus Ribs utilizou as redes sociais para denunciar o ocorrido. A publicação mobilizou apoio de companheiros da classe artística, políticos e personalidades públicas, como o escritor Marcello Rubens Paiva.
Em publicação no X (antigo Twitter) o deputado estadual e presidente do PSOL no Rio de Janeiro, Flavio Serafini, descreveu a retirada como um “ataque à liberdade artística e à democracia”.
“Censurar a arte que exalta a resistência indígena e afro-brasileira é mais do que ignorância, é puro autoritarismo”, destacou o parlamentar.
A Alma Preta procurou o Sesc RJ e questionou quais foram as medidas de apoio oferecidas ao artista. A reportagem também procurou a Prefeitura de Petrópolis, solicitando um parecer oficial do órgão sobre o caso, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.